Demolição

Implosão do Torre Palace vira um evento atípico no centro da capital

Implosão do Torre Palace mobiliza centenas de pessoas para assistir à demolição do icônico prédio abandonado na área central de Brasília

Os brasilienses, sob todos os ângulos, fizeram da implosão do Palace Hotel um passeio de domingo em janeiro, mas tudo recheado de civilidade e esperança. "A gente vê Brasília, uma capital federal, mas que preserva coisas de interior... A implosão de um prédio vira evento. A cidade toda esteve mobilizada para isso: há a integração das pessoas, como cidadãos, que quererem participar — o que dá movimento à cidade", observou o administrador de empresa Stefano Nunes, 51 anos.

Vindo de bicicleta, do Park Way, ele contou com a companhia do amigo e estudante de direito David Stehlgens, 35. A adrenalina do "ao vivo" mobilizou a dupla. "Uma coisa é você ver em vídeo; outra, é estar presente para para sentir o baque, a explosão", avaliou David. Num comparativo, David, que há quatro anos mora em Portugal, dispara: "Lá, não tem disso: lá é mais construção do que demolição".

Ao lado da namorada, Clarice, estudante de direito da UnB, o arte educador Gabriel Xavier, 23, garantiu "a cadeirinha", para um vista privilegiada. "Ali estava o prédio do miolo, o único com pichações muito marcantes. Destoava dessa arquitetura tão organizada, saia da padronização. E, como?! Brasília sendo uma cidade muito nova! Com tanta organização, não tínhamos experienciado isso de ver o velho cair para surgir o novo", observou Gabriel.

Implicada na ordem de evacuação da Defesa Civil, logo cedo — às 7h da manhã —, a administradora de empresas Franciele Muhl, gaúcha de 44 anos, moradora da capital há 16, se despediu da edificação. "Quando cheguei, o prédio ainda funcionava, e, passou um tempo, fechou. Acompanhei a invasão, o processo de desocupação. São ciclos que se encerram. Às vezes, a gente fica muito apegado ao velho. Mas o velho precisa dar lugar para o novo, né? Que venha uma nova fase para Brasília, que ela merece: um lugar bonito e um hotel que realmente tenha sua cara", comentou a moradora do Nobile Suites, que nem lembra de quantas vezes explicou do abandono aos turistas.

A intenção de formatar memórias para a família levou o subgerente de banco Leonardo Noleto Ferreira, 41, e a esposa, Valéria da Silva, 42, a acompanharem a vontade dos filhos, também vindos de Ceilândia, Caleb, 11, e Cauã, 7, de verem tudo. "É um prédio histórico. Trouxe para ficar na lembrança dos meninos; já que é um fato que raramente vai acontecer novamente aqui, no centro de Brasília", disse Leonardo. "Daqui a uns dias, vai que vejam como matéria de escola.... Eles podem lembrar, futuramente, contar que estiveram aqui", completou Valéria.

Quem também trouxe a família foi o militar Alexandre Henrique, 42. A esposa, Natália, bancária, se despedia ainda da carcaça do prédio, vizinho a seu trabalho. A atenção de Alexandre vinha pelo interesse pela mecânica da implosão. "Quis verificar como montaram tudo, em relação aos explosivos e à sequência de eventos". Tranquila até durante os fogos de artifício do réveillon, a cachorra, Luna, parecia mais estressada com a circulação das pessoas.

Experimento in loco

Filho da engenheira civil Neuma Macedo, 56, o estudante de engenharia elétrica da UnB Luiz Macedo, 23, fazia valer o ditado de peixe. "Teve muita parte dela me explicando como seria o evento. Há muito cálculo por trás de tudo, para ocorrer de forma segura, há considerações de clima e de estrutura do prédio: tudo se relaciona a mecânica da engenharia no geral", comentou o morador da Asa Sul. "Vi as reportagens sobre como foi preparado, a questão das minúcias — é tudo muito interessante. A gente sabe como constrói, mas nunca sabe como demolir corretamente; ver na prática é fantástico", comentou Neuma, formada há 35 anos. Curiosamente, ela atua na manutenção de prédios. "Tudo aqui se deu pela falta de manutenção", avaliou. Neuma reforça que o Torre Palace chegou a menos da metade da vida útil, vindo ao chão, aos 52 anos. "Se ele tivesse manutenção correta, com certeza, não precisaria ser implodido. Há tantos outros prédios antigos em Brasília, que tiveram a manutenção", conclui. 

Técnica em laboratório, aposentada, Rita Maia, 66, deixou a residência na Asa Norte, para acompanhar de perto o experimento social da demolição. "Confesso que, mesmo com as sirenes e os avisos (de alerta); quando começaram as explosões, levei susto. Depois, deu uma sensação de tristeza, sabe? É algo que foi construído (o Torre Palace), muita gente trabalhou para erguer esse patrimônio. E, agora, é um monte de entulho?!", comentou.

O auxiliar de loja Daniel Victor, 23, veio do Lucio Costa, para encontrar a namorada Luiza Gonzaga, apoio administrativo de 23 anos. Juntos, se surpreenderam com o impacto de tudo. "O prédio ficou abandonado, largado, numa capital que tem lugares muito bonitos. Em relação à demolição, achei, assim, espetacular. Nunca tinha visto. Tremeu até o peito", disse Daniel. "Levei um susto, na hora, mesmo com a ativação dos dispositivos. A gente gritou: eu gritei — é emoção, é legal", contou Luiza. "É interessante ver como uma coisa dessas pode reunir gente de tanto espectro diferente", disse Daniel.

Point gastronômico do Oriente para o Ocidente

Após a primeira missa de Brasília, celebrada no dia 3 de maio de 1957 pelo Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, Arcebispo de São Paulo, no ponto mais alto do Planalto Central (a 1.172 m de altitude, que depois se tornaria a Praça do Cruzeiro), um jovem anapolino de origem libanesa, que portava uma câmera Polaroid, ofereceu a foto para o presidente Juscelino Kubitschek.

“Quem é você?”, quis saber JK, surpreso e, ao mesmo tempo, encantado por ver alguém naquelas paragens portando a geringonça, que ele já conhecia. “Sou Jibran El Hadj e vim de Anápolis”, respondeu o jovem. Era uma sexta-feira e o presidente, em seguida, retrucou:

“Pois segunda-feira vá à Novacap, que eu vou deixar ordens para você escolher um terreno no Plano Piloto, destinado para empreendimentos. De jovens progressistas, como você, que esta cidade precisa”, arrematou Juscelino.

Esta história foi contada pela primeira vez pelo próprio protagonista, que seguiu à risca a recomendação presidencial, beneficiando-se de uma cobiçada área, na qual 16 anos mais tarde inaugurava o portentoso Torre Palace Hotel, em 1973.

Após a morte do pioneiro Jibran, no ano 2000, um dos oito herdeiros, Raif Jibran, assumiu o comando do hotel, desenvolvendo ali um point gastronômico de várias tendências. A primeira, é claro, foi libanesa. “Enquanto outros povos comem para viver, o árabe vive para comer”, sintetizava o novo hoteleiro, para quem a mesa tinha de ser farta. Assim foi o Tanoor, que funcionou no térreo de 2002 a 2013 com esplêndido bufê de comida árabe, cuja atração era o carneiro recheado de arroz e lentilhas, segundo receitas da matriarca da família Dona Reni Cury El Hadj, nascida no Líbano.

Em 2005, veio o Takê, instalado na sobreloja, onde servia todos os dias bufê de sushi e sashimi no almoço e pratos da mais refinada gastronomia japonesa à noite, sob o comando do chef Ryozo Komiya (pai de Cristiano, do premiado New Koto). Outra opção era a culinária italiana, montada na cobertura com o nome Giuseppina e pilotada pela chef Nara Codo, que acabou substituída pela operação Du Brasil, de inspiração tupiniquim.

De lá, se via uma das mais belas vistas de Brasília que, em anos anteriores, era desfrutada à noite por pares românticos que lotavam a boate. Primeiro se chamou Corte e tinham mesa cativa muitos importantes empresários, hoje octogenários. Depois, foi rebatizada de Nepenta, mas durou pouco.

Como também não durou a etapa gourmet do Torre Palace Hotel, que hoje só vive na lembrança de quem o conheceu.

 


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