
A dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, o cenário das intenções de voto para o Governo do Distrito Federal ganha novos contornos. A atual governadora Celina Leão (PP) segue liderando a disputa tanto na pesquisa estimulada quanto na espontânea (veja quadro). O ex-governador José Roberto Arruda (PSD) mantém o segundo lugar em ambos os cenários, porém, com uma diferença maior. Mas se o segundo turno fosse hoje, haveria um empate técnico entre Celina, com 43,6%; e Arruda, com 40,1%.
A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número DF-04077/2026. Foram consultados 1.109 moradores de 31 regiões administrativas do Distrito Federal. A margem de erro da pesquisa, que foi a campo entre 30 de julho e 1º de agosto, é de 3,3 pontos percentuais para mais ou para menos.
"A pesquisa confirma mudança importante no cenário eleitoral. Celina deixa de dividir a liderança com Arruda, abre vantagens, se torna protagonista nesse primeiro turno, o que consolida ela como favorita", comentou o cientista político e especialista em democracia participativa, Rócio Barreto. "Podemos atribuir esse crescimento também à força da máquina. Ela lançou muita política pública, investimento, cara a cara com as pessoas, etc. Agora, o grande desafio de Celina, apesar da vantagem em primeiro turno, é que o cenário muda completamente quando vai para o segundo turno, onde está empatada tecnicamente com Arruda", acrescentou.
Rócio explica que o jogo zera, caso haja um segundo turno. "A rejeição de ambos é muito semelhante. A de Arruda é de 26,6% e de Celina 26,2%. Para Arruda, a rejeição limita o crescimento dele, dificulta conquistar eleitores de centro e indecisos. Para Celina, essa rejeição elevada impede uma vitória confortável, exige uma campanha voltada à ampliação do diálogo com o eleitor, cara a cara, e principalmente o eleitor moderado", analisou o especialista.
Para o mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) Valdir Pucci, o dado que mais chama atenção da pesquisa é o elevado número de eleitores que ainda não decidiram o voto. Segundo ele, na pesquisa estimulada, a soma dos que afirmam não saber em quem votar e dos que pretendem votar em branco, nulo ou em nenhum candidato chega a quase 24% do eleitorado. Na espontânea, cerca de metade dos entrevistados não soube apontar um nome.
"A campanha nem começou e muitas pessoas sequer sabem quem serão os candidatos de fato. Isso explica o percentual elevado de indecisos e mostra que a disputa continua bastante aberta", afirmou. Para o cientista político, esse cenário significa que praticamente todos os candidatos, especialmente os que hoje aparecem atrás de Celina Leão, têm espaço para crescer ao longo da campanha. "Quando temos praticamente um quarto do eleitorado indefinido na estimulada e mais da metade sem uma escolha consolidada na espontânea, qualquer um dos candidatos pode disputar uma vaga no segundo turno", disse.
Repercussão
Celina Leão (PP) comemorou o resultado da pesquisa em publicação nas redes sociais. Na postagem, a governadora afirmou ter recebido o resultado "com gratidão, humildade e ainda mais responsabilidade". "Pesquisa pra mim é uma bússola. Ela mostra que estamos no caminho certo, mas também lembra que ainda há muito por fazer. E é por isso que sigo do mesmo jeito: ouvindo, trabalhando e enfrentando os problemas de frente", escreveu.
A governadora afirmou que continuará dedicada à administração do Distrito Federal. "Porque problema não se esconde. Se enfrenta! Vou continuar com os pés no chão, a garra de sempre e o coração voltado pra cuidar do DF", destacou.
José Roberto Arruda (PSD) analisou como positivo o resultado. "Eu não brigo com números. Estou feliz de, depois de tantos anos, ser lembrado tão positivamente. Considerando que o campo foi feito antes da convenção e ainda havia dúvida se eu seria candidato, o resultado foi ótimo. Agora, começa a campanha para valer", disse.
Ao analisar a liderança de Celina Leão, o mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), Valdir Pucci, avalia que a ampliação da vantagem em relação a José Roberto Arruda demonstra uma mudança de percepção do eleitorado. "Na pesquisa anterior, Celina ainda era vista muito como a vice-governadora de Ibaneis. Agora, passados alguns meses, a sociedade consegue avaliar um governo Celina. Ela conseguiu comunicar sua forma de governar e isso aparece na abertura da vantagem sobre o segundo colocado", analisou. Para o pesquisador, esse desempenho fortalece a possibilidade de a atual governadora chegar ao segundo turno e, caso isso ocorra, ela passa a ser a favorita na disputa.
"A grande questão é para onde irão esses votos caso Arruda não possa disputar as eleições. Eles migrarão para Celina Leão, por estarem mais identificados com a direita, ou buscarão outro nome de oposição ao atual governo? Essa é uma resposta que pode alterar completamente o cenário eleitoral", afirmou. Segundo ele, se a maior parte desse eleitorado migrar para Celina, cresce significativamente a possibilidade de vitória ainda no primeiro turno. Ao mesmo tempo, Pucci lembra que Arruda lidera o índice de rejeição, consequência da lembrança, por parte do eleitorado, dos escândalos de corrupção que marcaram sua gestão. "Existe uma parcela importante da sociedade que ainda associa Arruda a esse período, o que explica sua elevada rejeição".
Leandro Grass (PT) afirmou, em publicação nas redes sociais, que não pretende comentar "nenhuma pesquisa eleitoral, seja lá qual for o resultado". O petista destacou que, por ser cientista social e professor de metodologia científica, conhece o funcionamento das pesquisas eleitorais. "Há pesquisas sérias e outras com resultados encomendados conforme o gosto ou o pagamento do cliente. Dados são produzidos. E a forma como isso acontece é que define a fidelidade da amostra em relação ao conjunto total da população. Daí também é que se define a tal 'margem de erro'", escreveu.
Grass ressaltou que, diante de um cenário eleitoral que considera "bastante contaminado pelo poder econômico", prefere acompanhar os levantamentos internos do partido, que, segundo ele, são realizados por "gente séria". "O que posso dizer sobre as nossas internas é que o cenário está cada dia mais favorável para ganharmos as eleições", declarou.
O candidato relembrou um episódio da campanha de 2022, quando, segundo ele, uma pesquisa divulgada na véspera da eleição apontava vantagem de um adversário. "Faltando menos de um dia para a eleição, saiu uma pesquisa de um instituto conhecido indicando uma diferença de dois pontos para um dos meus adversários. O dado foi divulgado amplamente pela imprensa local e muita gente ficou perturbada com aquilo. Na urna, eu tive 22% de votos a mais que ele", afirmou.
Ricardo Cappelli (PSB) celebrou o crescimento com relação à última pesquisa Correio/Opinião. "Segundo a pesquisa, eu vou ganhar a eleição no primeiro turno. Segundo a pesquisa, eu cresci 150%. Ou a pesquisa anterior estava errada ou vou ganhar em primeiro turno", reagiu.
A candidata do PSDB, Paula Belmonte, acredita que há espaço para crescimento nas intenções de voto. "Estamos no início da campanha e a pesquisa confirma algo que sentimos todos os dias nas ruas: a eleição ainda está em construção e há um enorme espaço para o debate de propostas", destacou. "Entre os dados levantados, o mais importante para mim é que a população quer discutir saúde, educação, segurança e o cuidado com as pessoas. É exatamente isso que estamos apresentando ao Distrito Federal. Tenho convicção de que, à medida que os eleitores conhecerem nosso projeto de governo e nossa trajetória, essa candidatura continuará crescendo", acrescentou.
Samara Mineiro, da Unidade Popular (UP), afirmou que sua candidatura representa a possibilidade de "um governo diferente das últimas décadas no Distrito Federal". "Apesar de a Celina aparecer em primeiro, avaliamos que ela não deve sustentar essa colocação", afirmou. Ela destacou o crescimento da UP, partido pelo qual disputa o governo do Distrito Federal. Segundo ela, a legenda, registrada em 2019, tem ampliado sua presença no cenário político local e nacional. "A UP foi construída com a força dos movimentos populares e apresenta propostas ousadas, que defendem os interesses do povo e enfrentam os privilégios das elites bilionárias do Distrito Federal", declarou.
Kiko Caputo (Novo), aparece com 0,8% das intenções de voto. Ele espera um cenário diferente após o início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto. Na primeira rodada do levantamento, o candidato apareceu em último lugar, com 0,5%. Segundo Caputo, a campanha será uma oportunidade para apresentar suas propostas ao eleitorado. "A campanha ainda vai começar e a população do Distrito Federal vai ter a oportunidade de me conhecer melhor por meio do mais completo e abrangente plano de governo que um candidato ao GDF já apresentou", afirmou. "É um plano para cuidar das pessoas, e não dos interesses da velha política", acrescentou.
Pela primeira vez, o candidato Robson Raimundo (PSTU) apareceu com intenções de voto na pesquisa. Ao Correio, o professor comemorou a pontuação na pesquisa. "Apesar da dificuldade de concorrer numa eleição tão antidemocrática, em que o espaço para os candidatos dos partidos socialistas é muito reduzido, conseguimos pontuar na pesquisa e estamos felizes com isso", afirmou. Esta não é a primeira vez que Robson Raimundo concorre ao cargo de governador do DF. Ele concorreu também em 2022.
Segundo turno
Os cenários de segundo turno reforçam a posição de vantagem de Celina Leão. Pucci ressaltou que a governadora aparece à frente tanto na simulação contra Arruda quanto diante de Leandro Grass, o que demonstra uma candidatura consolidada para uma eventual disputa final. Arruda, por sua vez, supera Grass no cenário em que ambos são testados, evidenciando, segundo o pesquisador, as dificuldades do campo progressista no Distrito Federal. "O eleitorado brasiliense tem um perfil majoritariamente conservador, e isso ajuda a explicar a vantagem dos candidatos desse campo político. Mas o fator que ainda pode mudar esse quadro continua sendo o mesmo: o elevado número de indecisos. Esse é o principal elemento capaz de alterar o cenário eleitoral ao longo da campanha", afirmou.

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