
O primeiro jogo focado no estilo de jogador único da Pearl Abyss — responsável pelo MMORPG online Black Desert — mira um RPG extremamente ambicioso que se inspira em vários títulos e utiliza a temática da fantasia medieval para criar um mundo vasto. Entre The Witcher 3: Wild Hunt, The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom e Red Dead Redemption II, Crimson Desert utiliza diversos elementos e mecânicas emprestados do universo de capa e espada para criar sua própria jornada.
Retalhos Dramáticos
Geralmente esse ponto do texto, é apresentada a história do jogo, contudo Crimson Desert não possui uma trama contínua, muito menos bem explicada, só o mínimo para começar uma jornada de aventura. Inicialmente, controlamos Kliff, um guerreiro membro do grupo de mercenários conhecidos como Jubas Cinzentas, que vivem de fazer trabalhos aqui e ali, em troca de dinheiro. Numa bela noite, enquanto acampavam, os membros são atacados por clã rival, os Ursos Negros e acabam sendo massacrados com Kliff morrendo no ataque. Jogado ao mar, o herói se encontra com uma força misteriosa, O Abismo, que o traz de volta à vida. Assim, Kliff deve reagrupar seus companheiros e seguir se aventurando pelo país.
Combate e centenas de mecânicas
Crimson Desert tem como um dos seus focos o combate, com o jogador tendo três árvores de habilidades para manejar conforme vai encontrando mais objetos do abismo para melhorar o estilo de luta, que vai desde ataques corpo a corpo a ataques a distância. Kliff possui inicialmente duas magias: a Força Axiom — uma mão de pedra com um chicote energético que pode ser usado para mover objetos — e a Palma Impulsora, que cria uma onda de choque que atordoa inimigos. Ambos os poderes vão evoluindo e ganhando novas funções: a Palma pode curar; a Força Axiom, mais à frente, pode servir para guardar itens dentro de um caldeirão infinito, e assim sucessivamente.
Seu arsenal conta com espadas médias, que podem ser carregadas em dupla ou acompanhadas de um escudo, assim como um arco e flecha e uma arma pesada — seja machado ou outra lâmina maior. Armas podem possuir habilidades únicas imbuídas; um dos inimigos que Kliff enfrenta mais tarde no título possui uma lâmina capaz de eletrificar adversários conforme faz golpes consecutivos. Além disso, o personagem conta com vários espaços para equipar armaduras que concedem uma defesa maior, desde a parte principal até luvas, botas, anéis e cordões, acessórios clássicos de jogos do gênero.
Fora os citados acima, o progresso — tanto nas missões principais quanto nas paralelas — recompensa o jogador com alguma nova interação ou mecânica com o mundo. Kliff pode receber dinheiro se atuar como caçador de recompensas para o reino de Hernand, capturando bandidos e levando-os até os guardas da cidade, ou pode ganhar uma receita por cozinhar um ensopado de enguia para algum habitante. E, falando nessas recompensas, o título ainda conta com vários mercadores que vendem itens, desde comidas — essenciais para se curar durante os combates — até novas armas e armaduras.
Primor Silencioso
O curioso de Crimson Desert é como ele funciona de forma silenciosa; um exemplo rápido que posso dar foi uma situação com o cavalo do jogo. Uma das habilidades da Palma é Kliff se impulsionar para cima enquanto cavalga; assim, é mais fácil descer montanhas inteiras apenas planando até o chão. Contudo, o animal pode cair no meio dessa acrobacia, o que foi o meu caso. Assim, ele fica machucado, já que, como o jogador, também possui uma barra de vida.
Por várias missões, o cavalo simplesmente não corria, justamente por continuar machucado. Diferente de Red Dead Redemption II, onde o jogador pode simplesmente dar um item através do menu para o animal se curar rapidamente, em Crimson Desert, apesar de o cavalo também ter um inventário, o bicho não aceita comida. Então, ergueu-se uma dúvida cruel: como curar este cavalo?
Pensei da forma mais simples: talvez apenas trocar para outro animal resolveria todo o meu problema, só que áreas com cavalos não são tão simples de se encontrar, sem contar que o jogo ainda traz um minigame — também parecido com os de Zelda — para domar um cavalo selvagem. Então, essa não era uma opção viável; fiquei refém de achar um método de cura para o cavalo que eu já possuía.
À medida que a história foi avançando, Kliff ganhou uma habilidade de cura com a Palma Impulsora. Em uma missão na qual eu tinha de carregar um aliado a cavalo pela floresta, andávamos muito devagar; frustrado, desci do animal e resolvi, apenas por curiosidade, concentrar a habilidade e utilizá-la nele. Para a minha surpresa, quando fui conferir o menu do bicho, sua vida tinha subido com o golpe; então, usando-a novamente, os sinais de sangue que simbolizavam as feridas começaram a desaparecer e, logo quando subi novamente na sela, o cavalo voltou a correr.
Esse é um exemplo bem simples de como as mecânicas funcionam a favor do jogo, com nem todas as possibilidades para as resoluções de problemas sendo facilmente dadas ao jogador, colocando-o na posição de “testar” tudo antes. Outro caso que ficou famoso nas redes é uma área em que o jogador deve incendiar uma vinha para conseguir adentrar uma torre; o jogador comum iria simplesmente tocar fogo em uma flecha e observar a vinha queimar, mas um jogador resolveu erguer a espada de Kliff contra o sol e utilizar o reflexo para iniciar o fogo e, dessa forma, seguir caminho. Crimson Desert é cheio dessas resoluções utilizando diferentes mecânicas para uma mesma finalidade.
Produção Turbulenta
Apesar de possuir um mundo vivo e com centenas de coisas a fazer, a trama de Crimson Desert talvez seja o maior ponto fraco do título — não por ser necessariamente ruim, mas por conter elementos genéricos e sem ligação direta. O próprio CEO do estúdio disse, em uma entrevista recente, que a história é o ponto mais baixo do título.
Ponto que foi reforçado ao podcast estrangeiro Dropped Frames pelo diretor de marketing da Pearl Abyss, Will Powers, que confirmou diversas dificuldades ao longo do desenvolvimento do projeto. Ele apontou que, inicialmente, Crimson Desert seria um MMORPG como Black Desert, sendo uma prequela da história de seu jogo mais famoso. Contudo, o projeto foi se modificando conforme era desenvolvido; Powers disse que muitas das mecânicas aplicadas foram rapidamente aprovadas e implementadas sem necessariamente ter um “sentido” para o todo do jogo — muitas delas, inclusive, inspiradas em The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom, como as ilhas flutuantes, uma habilidade de pouso, estamina e a manipulação de objetos do cenário. Powers ainda reforçou que a trama foi desenvolvida de última hora e por pessoas que apontou como “despreparadas para o cargo”, o que transparece demasiado no resultado final do título.
Em seu lançamento oficial, o jogo ainda saiu com diversos problemas de performance, relembrando o hype e a queda de Cyberpunk 2077, com fãs jurando que aconteceria o mesmo com Crimson Desert. Muitos relataram que abrir o mapa no PlayStation 5, antes da primeira atualização, fazia o título travar, obrigando o jogador a reiniciar o jogo. A Pearl Abyss agiu rápido para tornar o desempenho melhor e polir esses problemas iniciais. O título vendeu 4 milhões de cópias; ainda assim, Crimson Desert recebeu várias notas “mistas” na loja Steam em sua primeira semana, as quais foram convertidas para “muito positivas” com mais pessoas jogando o jogo após as atualizações.
Vale a Pena?
Crimson Desert é um experimento de fantasia e aventura que nem sempre deixa claro para o jogador o que fazer, para onde ir ou o que utilizar; apesar de todos os problemas com uma trama fraca, ainda assim arranja um jeito de brilhar com seu mundo vivo. Crianças mágicas, trolls, duendes e monstros de todos os tamanhos preenchem esse universo, fazendo dele uma mistura máxima do que é um jogo de fantasia. Mesmo com mais de 40 horas de jogo, o título ainda esconde boa parte do que tem a apresentar, com uma jornada profunda baseada na exploração que valoriza mais a jogabilidade do que a narrativa.
Nota: 8/10
Crimson Desert está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC
*Está análise foi feita com uma cópia enviada a Pearl Abyss Brasil

Diversão e Arte
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