
No ano em que celebra oito décadas de vida e mais de meio século de carreira, João Bosco faz um "relato sonoro das amizades", como ele mesmo define, no álbum Amigos novos e antigos. O projeto do cantor e compositor, já no título, referencia a parceria mais importante da carreira, com Aldir Blanc (1946 - 2020), que se faz presente no disco em faixas como Incompatibilidade de gênios, cantada com Chico Buarque, e Siri recheado e o cacete, com participação de Zeca Pagodinho. Ao longo de 18 faixas, o compilado de duetos busca promover encontros do mineiro tanto com parceiros "das antigas", quanto com artistas da nova geração, guiados por uma trilha sonora que marcou a carreira do responsável por sucessos como Papel machê e O bêbado e a equilibrista.
Ao Correio, Bosco lembrou da extensa colaboração musical, que se estendeu para a vida pessoal, com Aldir. "Nos conhecemos em 1970 e trabalhamos intensamente desde então. Nosso trabalho é dotado de uma brasilidade que sempre procuramos. Tudo isso está bem representado em nossas canções e neste álbum. Experimentamos uma parceria de tal forma que um entendia o que o outro desejava. Essa relação provocou o surgimento de uma unidade, fruto dessa nossa união", definiu o compositor.
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Por outro lado, os tais "amigos novos", representados no disco por nomes como Jota.pê, Tiago Iorc e Silva, são responsáveis por trazer frescor a composições que marcaram décadas passadas. "Não existe música intocável. Todas elas permitem uma nova leitura. O que não é aconselhável é descaracterizá-la", opinou o cantor, que divide os holofotes de Nação com o brasiliense Hamilton de Holanda. "Já gravamos um álbum juntos e fizemos vários shows. Ele é um dos grandes instrumentistas do Brasil, com uma carreira internacional consolidada. Um artista que aceita todos os desafios e caminhos que a música proporciona. O bandolim dele já é, por si só, uma nação", elogiou.
Acompanhado das boas amizades e até mesmo da filha, Julia Bosco, que assina como produtora executiva, o compositor enxerga o disco como um "agradecimento por tudo que a vida tem lhe proporcionado". "É a combustão daquilo que ainda está por vir", declarou o músico.
Entrevista
Que importância tiveram os amigos na sua carreira? Sua arte sempre foi coletiva?
Amigo é coisa para se guardar enquanto vivemos. Não existe vida sem amizade. Nela estão contidos o amor e o perdão, como diria o grande Vinícius de Moraes, a quem conheci em Ouro Preto, em 1967, enquanto estudante de engenharia. É impossível construir algo sozinho. Esse álbum, no ano em que completo 80 anos de vida e 54 de carreira, é um retrato sonoro dessas amizades e, por isso, Amigos novos e antigos dá nome ao disco.
O álbum propõe a renovação de uma obra que permeia extensa carreira. Como essas faixas conversam com os dias de hoje? E o que esse recorte representa da sua discografia?
A renovação pretendida nesse álbum está precisamente nos convidados de cada música que compõe o álbum e na produção da Julia Bosco e do Rafael Rocha. São eles que dão frescor a cada canção, com suas leituras e afinidades. Os amigos antigos celebram comigo um tempo de convivência desde a década de 1970 e toda a história de nosso país ao longo desses anos. Os amigos novos adentram tudo isso que não viveram, mas trazem dentro de si um desejo de alcançar uma nova realidade, mais digna e afetuosa, a partir do seu canto e das gerações que surgem com eles. Na minha discografia, esse álbum celebra a amizade pura e simples.
Por que incluir nomes como Jota.pê, Silva e Tiago Iorc no projeto? Como você percebe a nova geração da música brasileira?
Esses são os amigos novos. Eles trazem um frescor à canção que interpretam. A música brasileira tem um dinamismo encantador. Em cada região do Brasil temos uma manifestação cultural diferente. Essa mistura é inesgotável. Por isso, a nossa música é sempre dinâmica, fruto de novos encontros.
No disco, aparecem canções que você já tocou centenas de vezes. O que precisa acontecer para uma faixa que você conhece tão profundamente voltar a surpreendê-lo? Como elas se mostraram diferentes nesta ocasião?
A música não tem limite. Ela está sempre ao alcance daqueles que, com talento e competência, experimentam nela uma outra personalidade sem descaracterizá-la. Conhecemos compositores que tiveram suas canções gravadas centenas de vezes por personalidades artísticas singulares, e elas sempre trazem um frescor. Isso sempre acontecerá!
Boca de sapo e Toma lá, dá cá aparecem no álbum sem participação especial. Foi importante que, nessas faixas, o disco voltasse a ser só você diante de uma música?
Boca de sapo pertence à cadeira vazia de Clementina de Jesus, ou seja, nessa música a Clementina seria a minha convidada, mas, como ela já não está mais entre nós, seu assento no estúdio de gravação ficou simbolicamente vazio. Na segunda música, Toma lá, dá cá, a cadeira vazia pertence ao Aldir, pois ele seria o meu convidado para cantar essa canção. Ela tem uma história peculiar entre nós dois e somente ele poderia cantá-la comigo. Um dia, ele chegou à minha casa, pois íamos sair para tomar uma cerveja. Assim que chegou, disse que a televisão precisava de um tema para um programa de humor que iria estrear e que a música teria de ser gravada no dia seguinte, pois era urgente. Então sentamos e começamos a fazer o samba para o programa de TV Toma lá, dá cá. Fizemos em duas horas e saímos pra tomar a nossa cerveja!
Diversão e Arte
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