O ambiente escolar costuma ser o palco das primeiras grandes descobertas da juventude, mas também é onde surgem os primeiros desafios de convivência. No Centro de Ensino Fundamental 102 (CEF 102), na Asa Norte, o combate ao bullying e ao cyberbullying deixou de ser tratado por meio de intervenções pontuais para se tornar uma política diária e estruturada. Diante de uma geração imersa nas redes sociais, onde o assédio virtual cruza rapidamente as portas da escola, a instituição aposta na escuta ativa, no fortalecimento de vínculos e na conscientização entre os alunos.
A complexidade do problema exige acompanhamento constante. Segundo a diretora do CEF 102, Viviane Coelho da Silva de Lima, 47 anos, a evolução da tecnologia amplificou os danos de um fenômeno antigo. "O bullying é um fenômeno social que existe há muito tempo. Só que, no meu tempo, ele não tinha um impacto tão grande. Hoje, com a questão da internet e das redes sociais, ele se alastrou e tomou uma proporção muito grande, porque atinge milhões de pessoas muito rapidamente. Isso começou a afetar grandemente a saúde emocional de crianças e adolescentes", pontua.
As redes sociais e as plataformas de comunicação rápida, como TikTok, Instagram e Discord, tornaram-se os principais canais em que o cyberbullying se manifesta antes de impactar a rotina pedagógica. Frequentes são os casos em que os alunos já chegam às salas desestabilizados por conta de intrigas digitais ou páginas criadas anonimamente para propagar ofensas. O coordenador pedagógico Rodolfo Ferreira de Oliveira, 28, fala sobre o trabalho necessário para conter o surgimento de possíveis episódios.
"Muitas vezes, o aluno já chega na escola desestabilizado porque fulaninho falou mal dela no TikTok ou fez indireta. Tentamos fazer esse acompanhamento". A escola já precisou tomar medidas disciplinares cabíveis para coibir situações de ciberbullying e, em seguida, promoveu palestra no pátio, explicando a legislação que tipifica esse crime.
Rodolfo destaca que a apuração exige um "trabalho de formiguinha", pois os conflitos digitais se renovam diariamente. "Você gasta toda uma energia para tentar descobrir o que está acontecendo e resolver o problema. Aí, no dia seguinte, já é um novo aluno. É algo complicado, mas a colaboração dos próprios estudantes em nos contar o que ouvem e veem ajuda muito", relata o coordenador.
Prevenção antes de tudo
Para evitar que a gestão escolar atue apenas de forma punitiva, a instituição desenvolveu o pilar "102 Inova", que desdobra a inovação em três eixos: espaço físico, práticas pedagógicas e relações humanas. É nesse último eixo que se consolida o Projeto Conviva, estruturado com base nos direitos humanos e trabalhado de forma transversal em todas as disciplinas e nas aulas do projeto PD3.
"Muita gente pensa que se resolve o bullying com uma palestra, mas você tem de ter um projeto forte, estruturado, que trabalhe a prevenção o ano todo. Trabalhamos os três pilares: conexão (fortalecendo vínculos e relações horizontais), capacitação da equipe e ação contínua", explica a diretora Viviane.
Entre os estudantes, o resultado dessa rotina de diálogo é perceptível. A aluna Nina Miguel, 13 anos, percebe a diferença que o aprendizado traz para a identificação das agressões, principalmente as mais sutis. "O bullying de meninas, geralmente, vem de forma mais sutil, como comentários passivo-agressivos, excluir alguma menina, que é o bullying social, ou falar mal de coisas pequenas, do cabelo ou do jeito que anda", exemplifica.
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Contudo, o debate em sala de aula facilita a identificação e a conscientização. "A gente pensa: 'Isso aí é um bullying, então, eu vou ignorar'. O projeto 102 Inova ensina muito bem, explica os tipos de preconceito e faz com que tenha muito pouco bullying aqui", completa.
Limites e apoio familiar
O impacto das piadas relacionadas ao corpo e à aparência é um dos pontos de atenção entre os meninos. O estudante Gabriel Felipe Lima de Sousa, 14 anos, aluno do 8º ano, observa que as agressões verbais costumam focar na altura e no peso. Ele destaca a importância de perceber quando o colega se sente incomodado.
"Geralmente, as pessoas demonstram que não gostam das brincadeiras. Ficam tristes, se isolam, algumas até choram. Quando a gente percebe, as pessoas param de fazer brincadeiras."
A parceria com as famílias é apontada pela direção como a chave de sustentação desse trabalho. Desde a aula inaugural, os pais são conscientizados sobre a postura antibullying e recebem orientações para reforçar em casa a empatia, o respeito e o monitoramento das atividades digitais de seus filhos.
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