A disputa em torno da herança de Anita Harley, empresária ligada às lojas Pernambucanas, ganhou dimensão nacional com o documentário O Testamento: O Segredo de Anita Harley, que rapidamente se transformou no conteúdo mais visto do Globoplay desde seu lançamento, no fim de fevereiro.
Nas últimas duas semanas, a produção liderou a audiência geral da plataforma, ultrapassando sucessos como Três Graças e BBB 26, e alcançando o topo entre todas as séries disponíveis.
No centro da história está uma fortuna estimada entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões e um impasse que se arrasta desde 2016, quando Anita sofreu um acidente vascular cerebral e entrou em coma. A partir desse momento, teve início uma batalha judicial para definir quem teria o direito de representá-la legalmente — a chamada curatela, que envolve tanto decisões médicas quanto a administração de seus bens.
O documentário reconstrói esse cenário a partir de versões conflitantes. De um lado, aparece Cristine Alvares Rodrigues, secretária próxima da empresária e indicada em um testamento vital como responsável por seus cuidados. Do outro, Sônia Soares, conhecida como Suzuki, que vivia na casa de Anita e afirma ter mantido uma união estável com ela. A disputa se amplia com a entrada de Arthur, filho biológico de Suzuki, que tenta o reconhecimento de vínculo socioafetivo com a herdeira.
Ao reunir depoimentos de advogados, amigos e familiares, a série evidencia como o caso se fragmenta em narrativas divergentes. Para dar conta dessa complexidade, a construção da obra alterna entre a trajetória dos personagens e a evolução cronológica dos acontecimentos, criando uma linha do tempo que avança e recua conforme os relatos se cruzam.
Produzida pelo Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo, atualmente sob comando de Pedro Bial, a série tem direção de Camila Appel, codireção de Dudu Levy e roteiro assinado por Ricardo Calil, Camila Appel e Iuri Barcelos, responsável também pela pesquisa. A produção é de Anelise Franco, com Fernanda Neves na produção executiva e direção artística de Monica Almeida.
Disputa judicial: testamento invalidado
Um dos elementos mais sensíveis do caso é o testamento vital deixado por Anita. O documento, diferentemente de um testamento tradicional, não trata da divisão de bens após a morte, mas define quem deve tomar decisões em situações de incapacidade. Nele, a empresária concede a Cristine acesso permanente e poderes amplos para agir em seu nome, inclusive em relação a decisões médicas e ao controle de visitas.
“Podendo ainda permitir ou vetar visitas de estranhos ou de meus parentes mais próximos ou remotos, irmãos, sobrinhos, cunhada ou cunhado, tios, tias, primos e primas, somente competindo à dita pessoa já nomeada e qualificada dar, em favor do meu bem-estar e da minha saúde, todas as ordens, instruções ou autorizações, orais ou escritas, ou autorizações solicitadas por médico ou equipe médica que se fizerem necessárias, em qualquer lugar, país ou lugar, razão por que lhe invisto de amplos e especiais poderes para esse fim”, diz o documento.
Esse trecho se tornou peça-chave na disputa judicial. A Justiça passou a questionar se o documento refletia de forma inequívoca a vontade da empresária, especialmente após a alegação de união estável por parte de Suzuki. A situação se tornou ainda mais delicada com a tentativa de reconhecimento de Arthur como filho socioafetivo, o que impactaria diretamente a definição de herdeiros.
Sem consenso entre os envolvidos e diante da ausência de herdeiros diretos reconhecidos, o Judiciário optou por invalidar os documentos iniciais e designar um curador externo. A ele coube a responsabilidade de administrar o patrimônio bilionário e decidir sobre os cuidados de Anita, encerrando, ao menos temporariamente, o impasse sobre quem deve falar em nome da empresária.
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