
O que é tecnologia? Para as organizadoras da coletânea As Tecnologias e suas Encruzilhadas, a resposta vai muito além da inteligência artificial, dos algoritmos e das ferramentas digitais. A obra, organizada pelas escritoras Hislla S. M. Ramalho e Margareth dos Anjos Santos, propõe reconhecer como tecnologias os conhecimentos produzidos historicamente pelos povos negros — da oralidade e da musicalidade às práticas de cura, de cultivo, de educação e de preservação da memória.
Em julho, mês marcado pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o livro é lançado em dois momentos: no dia 30 de julho, durante o XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (COPENE), na Universidade de Brasília (UnB), e no dia 31, no Espaço Mário Gusmão, da Fundação Cultural Palmares.
Resultado de um projeto coletivo do Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis (NEPFIR/UnB), a publicação reúne 13 textos entre crônicas, poemas e ensaios acadêmicos e marca um novo passo na trajetória do grupo. Segundo Margareth dos Anjos Santos, a ideia surgiu após a primeira publicação do núcleo, Desarquivado — escritos de mulheres negras no Brasil, lançada em 2024.
“O nosso desejo era ousar mais”, afirma a organizadora. “Começamos a questionar por que a tecnologia é quase sempre associada às invenções de autoria eurocêntrica ou colonialista. E as tecnologias criadas pelos povos negros para sobreviver, resistir, educar e preservar memórias? Foi dessa provocação que nasceu a coletânea.”
A seleção dos textos ocorreu por meio de edital público. Entre as autoras escolhidas estão escritoras com ampla trajetória literária e também estreantes, como a professora Neide Rafael, que publica seu primeiro texto aos mais de 70 anos. Além do conteúdo, o projeto chama atenção pela dimensão internacional. A coletânea foi produzida de forma colaborativa, sem financiamento institucional. As próprias autoras custearam a publicação e buscaram parceiros para tornar possível a tradução da obra.
O resultado é uma edição multilíngue, com textos em português, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e iorubá. Todas as poesias foram traduzidas para a língua africana, enquanto cada texto também ganhou versão em inglês e em outro idioma europeu. Para Margareth, o processo fortaleceu o que ela define como um “quilombo literário”, formado por autoras e tradutores negros conectados por experiências da diáspora africana.
Tecnologia como conhecimento ancestral
O conceito de encruzilhada, presente no título da obra, é o eixo que organiza a reflexão proposta pelo livro. Nas cosmologias afro-diaspóricas, explica Margareth, a encruzilhada representa encontros, movimento, criação e transformação. “Em vez de enxergá-la como um lugar de dúvida, compreendemos a encruzilhada como espaço de múltiplos caminhos e de produção de conhecimento”, diz. “A própria coletânea é uma encruzilhada: nela se cruzam diferentes idiomas, áreas do conhecimento, trajetórias e vivências negras.”
A partir dessa perspectiva, o livro amplia a compreensão tradicional sobre tecnologia. Para as organizadoras, inovação não se restringe aos avanços digitais, mas inclui práticas desenvolvidas historicamente pelas populações negras.
“Quando olhamos para as experiências negras, percebemos tecnologias que antecedem o computador e a internet com a mesma importância”, afirma Margareth. “A oralidade, a musicalidade, os modos de cultivo, as práticas de cura, as pedagogias comunitárias, as estratégias de organização política e as formas de preservação da memória também são tecnologias.”
Ao mesmo tempo em que recupera conhecimentos ancestrais, a coletânea dialoga também com discussões contemporâneas sobre inteligência artificial e algoritmos. Para Margareth, a publicação contribui para inserir a perspectiva racial em um debate frequentemente tratado como neutro. “A coletânea parte do entendimento de que nenhuma tecnologia é neutra. Algoritmos, sistemas de inteligência artificial e plataformas digitais refletem as estruturas sociais nas quais são desenvolvidos e, por isso, também podem reproduzir desigualdades raciais”, afirma.
Segundo ela, reconhecer os saberes negros como tecnologias também significa questionar quem produz conhecimento e quem é legitimado como inovador: “A obra coloca mulheres negras no centro da reflexão sobre tecnologia, mostrando que elas não são apenas usuárias ou afetadas pelas tecnologias contemporâneas, mas produtoras históricas de conhecimentos e soluções que dialogam com os desafios do presente e ajudam a construir futuros mais justos, plurais e inclusivos.”
Serviço
Lançamentos de “As Tecnologias e suas Encruzilhadas”
30 de julho, às 14h, no XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (COPENE), na Universidade de Brasília (UnB) – Palco Principal – Cidade COPENE; e 31 de julho, às 16h, no Espaço Mário Gusmão – Fundação Cultural Palmares – Brasília (DF).
*Estagiária sob a supervisão de Nahima Maciel

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