
A artista japonesa de vanguarda Yayoi Kusama, cujas obras baseadas na repetição obsessiva de padrões a tornaram mundialmente famosa, morreu aos 97 anos de idade. O comunicado publicado no site oficial informou que ela morreu em um hospital em Tóquio, no Japão, no dia 14 de agosto, mas não especificou a causa da morte.
Entre as muitas obras e exposições consagradas, a passagem de sua arte pelo Brasil reuniu multidões e bateu recordes no ano de 2014, sendo noticiada com uma capa especial na edição do dia 21 de fevereiro de 2014 do Correio Braziliense e da revista Divirta-se mais.
A capa da edição do Correio se inspirou nas obras de Kusama e trouxe as famosas bolinhas espalhadas pela página com a manchete “Da loucura que mata, à loucura que liberta”, fazendo um contraponto entre a grande crise política e territorial vivida na Ucrânia, que marcou o início do conflito que dura até hoje com a Rússia, e as obras exóticas e singulares que expressavam o mental de Yayoi.
A exposição Obsessão Infinita passou pelo país entre 2013 e 2014, chegando primeiro ao Rio de Janeiro, depois vindo a Brasília, ambos pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e então seguindo a São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, somando mais de 2 milhões de visitantes na trajetória nacional.
A exposição reuniu aproximadamente 100 obras criadas entre 1949 e 2012, incluindo pinturas, esculturas e as icônicas instalações imersivas de espelhos e bolinhas, que convidam o público a interagir e fazer parte da obra.
Na época, a matéria intitulada “O mundo mágico de uma japonesa incorrigível”, escrita pela repórter Nahima Maciel, estampada nas páginas da revista Divirta-se mais, contava como Kusama representava os tormentos mentais por meio da arte, e mais especificamente pelas bolinhas, que viraram marca registrada da artista. Mas seu universo inclui também uma série de outras formas reproduzidas em objetos sempre conectados com a realidade da artista.
Um dos destaques da exposição foi uma sala de espelhos com milhares de flashes de bolas disparadas, confundindo o público com a sensação de infinito. Em outra parte, Nahima descreve uma série de objetos, onde Kussama amontoa pênis e formatos fálicos, e acumula esculturas de comidas e utensílios de comidas e utensílios de cozinha com o objetivo de falar do temor da artista diante de tudo que possa penetrar seu corpo.
A saúde mental de Yayoi sempre foi o tema principal das obras exuberantes, como uma expressão de longa data do que se passava em sua mente. Ela sofria de distúrbios de personalidade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e tinha recorrentes alucinações visuais e auditivas, quadros esses que moldaram profundamente sua trajetória e identidade artística.
Kusama partiu do Japão em direção a Nova York aos 27 anos, lá rapidamente conquistou notoriedade com suas pinturas, inspiradas em visões de luzes piscando, pontos e flores que via desde a infância.
De volta ao Japão nos anos 1970, Yayoi decidiu, voluntariamente, ser internada em um hospital psiquiátrico em Tóquio, onde viveu pelo resto de sua vida.
Segundo o site da artista, as "visões e alucinações" de sua infância inspiraram seus primeiros desenhos, baseados em bolinhas e redes, que marcariam de forma definitiva um estilo muito peculiar e reconhecível.
A repetição obsessiva de formas em suas pinturas e instalações funcionam como uma ferramenta de enfrentamento para traduzir suas visões. As famosos “salas infinitas” e de espelhos materializam a sensação de desorientação e expansão infinita que ela experimentava.
Naquela semana, o então presidente ucraniano Viktor Yanukovych suspendeu um acordo de associação com a União Europeia em favor de laços mais estreitos com a Rússia, causando revolta na população e protestos que tomaram conta de Kiev, e acabaram em confrontos violentos que mataram dezenas de pessoas.
Mas no Brasil, como contou Nahima, a loucura era outra, uma combinação de bom humor, cores e muitas bolinhas.
Desde 2023, a artista tem uma galeria permanente no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). O ambiente conta com duas instalações de Kusama: I’m here, but nothing, que recria uma sala de estar comum coberta de pontos fluorescentes e brilhantes, e Aftermath of Obliteration of eternity, composta por uma sala de espelhos infinita e pequenas lanternas douradas.
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