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O desafio para que estudantes com TDAH não caiam em rótulos

Desatenção, inquietude e impulsividade podem ser confundidas com indisciplina. Especialistas defendem preparo de professores para reconhecer sinais do TDAH sem estigmatizar estudantes

Giovanna Kunz
Eduardo Fernandes
postado em 27/09/2026 06:10
Nathalia e o filho Guilherme:
Nathalia e o filho Guilherme: "Inclusão não pode depender da sorte" - (crédito: Arquivo pessoal)

"Esquecida", "desorganizada", "atrasada", "inquieta" e até "burra". Ao longo da vida, Sabrina Sato colecionou rótulos que só passaram a fazer sentido quando recebeu o diagnóstico de Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Na infância, a apresentadora era a aluna que se distraía com qualquer som e frequentemente acabava expulsa da sala.

"Eu lembro quando comecei a ler um livro sobre TDAH e falei: 'Gente, é por isso que todos os dias eu era expulsa!'. Eu era aquela criança hiperativa, com mil pensamentos. Ao mesmo tempo em que a professora falava, eu conversava com as amigas e prestava atenção em tudo", contou Sabrina durante uma roda de conversa sobre a condição.

O relato ilustra os desafios de crianças e adolescentes neurodivergentes no ambiente escolar. Condição neurobiológica e genética que atinge cerca de 5% dos estudantes no mundo, o TDAH se manifesta por desatenção, inquietude e impulsividade — comportamentos que, se mal compreendidos, afetam o aprendizado e a autoestima.

"O professor tem um papel essencial de observar esse estudante e não deixar que esses rótulos interfiram em quem ele realmente é, respeitando os diferentes ritmos", afirma a educadora e especialista em inovação Débora Garofalo. Embora o diagnóstico seja exclusivo de especialistas, a sensibilidade da escola é o ponto de partida para a identificação dos sinais. A educadora lembra a dimensão do desafio no país: o Brasil conta com mais de 133 mil escolas públicas, que concentram 82,9% dos alunos. "Pensar em TDAH é pensar em uma educação que não se limita ao conteúdo, mas envolve integração e autogestão."

Pertencimento

Se no campo nacional o debate avança, na rotina do Distrito Federal a busca por uma inclusão efetiva ainda se reflete em uma jornada exaustiva para muitas famílias. A brasiliense Nathalia Mariath Gomes Barbeito, 41 anos, vivencia essa batalha diariamente com o filho Guilherme, 10 anos. Além do TDAH, o garoto é autista nível 2 de suporte e tem transtorno de linguagem grave e distúrbio do processamento auditivo central (DPAC).

Atualmente no 4º ano, o menino e sua família enfrentam a difícil missão de consolidar a alfabetização enquanto tentam acompanhar o ritmo da escola. A maior barreira, segundo a mãe, não é a estrutura física, mas a falta de equipes preparadas para entender que a inclusão vai além de garantir a vaga. "Inclusão não significa simplesmente colocar uma criança com deficiência dentro de uma sala regular. É conhecer aquela criança, adaptar o ensino, respeitar o tempo dela e garantir que ela participe de verdade", desabafa Nathalia. 

Com isso, a dificuldade de encontrar esse ambiente fez com que a família trocasse o filho de escola praticamente a cada dois anos. "A inclusão não pode depender da sorte de encontrar uma professora ou uma mediadora sensível. Ela precisa fazer parte da estrutura da escola. A família não deveria precisar cobrar o tempo inteiro aquilo que já é direito."

Apesar das pedras no caminho, Nathalia destaca que as maiores vitórias estão nos pequenos progressos e no encontro com profissionais que enxergam o garoto para além dos laudos. "Quando aparece alguém disposto a conhecê-lo, adaptar a forma de ensinar e acreditar no potencial dele, isso muda completamente a experiência. Inclusão não é colocar a criança dentro da escola, é fazer com que ela pertença àquele lugar."

Avaliação e ciência

Para que a adaptação pedagógica citada por Nathalia funcione na prática, o caminho deve ser técnico e baseado em evidências, superando a aplicação de estratégias genéricas. Doutor em educação e pós-doutor em psicologia, Lucelmo Lacerda explica que a construção de um Plano Educacional Individualizado (PEI) eficiente depende prioritariamente de uma avaliação criteriosa do estudante, e não apenas do laudo médico.

"O grande segredo é a avaliação. É preciso descobrir exatamente quais habilidades aquele indivíduo tem e quais ele ainda precisa desenvolver. O diagnóstico é um rótulo genérico sobre qual campo ele terá mais prejuízos, mas o campo é enorme e não dá para tomar decisões pedagógicas com base apenas nisso", analisa Lucelmo.

O especialista alerta que outro gargalo crítico na educação é a lacuna na formação de professores para aplicar práticas com evidência científica no dia a dia da sala de aula. "Seja para apoiar a concentração, ajudar na alfabetização ou lidar com desafios comportamentais, existem práticas com comprovação científica. Mas se elas não chegam aos professores ou se eles não têm treinamento para implementá-las, não conseguimos avançar", detalha.

A atenção precisa ser redobrada porque o TDAH e outros transtornos do desenvolvimento raramente aparecem isolados. Segundo a pediatra e hebiatra Lygia Reato, comorbidades e fatores do cotidiano atual agravam o cenário. "São fatores de risco que se associam e pioram o quadro, como o excesso de telas e a privação de sono", explica. O psiquiatra e pesquisador Paulo Mattos reforça que o cuidado exige uma abordagem multimodal, unindo medicamentos, terapias, família e escola.

Capacitação em rede

Buscando estreitar essa ponte entre a área da saúde e as salas de aula, a farmacêutica Apsen lançou a formação on-line e gratuita TDAH Levado a Sério na Escola, desenvolvida pelo Instituto D'Or com apoio institucional da Sociedade Brasileira de Pediatria. O projeto oferece a educadores de todo o país conteúdos sobre identificação de sinais, comorbidades (como a dislexia) e estratégias de manejo pedagógico. As instituições que capacitam ao menos metade do corpo docente recebem o selo Esta escola leva o TDAH a sério.

A ampliação desse conhecimento é o que permite transformar diagnósticos em caminhos de desenvolvimento.

 


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