OLIMPÍADAS DE CONHECIMENTO

Como olimpíadas de conhecimento podem ajudar no acesso à universidade

Olimpíadas de conhecimento ajudam a revelar aptidões e estimulam autonomia e raciocínio lógico. Algumas universidades as usam no ingresso para a graduação

Letícia Passos
postado em 27/09/2026 06:00
Preparação contínua e contato com provas anteriores fazem parte da rotina de alunos que participam das competições científicas -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Preparação contínua e contato com provas anteriores fazem parte da rotina de alunos que participam das competições científicas - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Resolver uma questão para a qual ninguém ensinou uma fórmula pronta, insistir quando a resposta não aparece de imediato e descobrir, no processo, uma habilidade que, talvez, ainda estivesse escondida. Para milhões de estudantes brasileiros, experiências como essas têm ultrapassado os limites da sala de aula por meio das olimpíadas de conhecimento. Em 2025, mais de 26 milhões de crianças e adolescentes participaram dessas competições no país, segundo o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).

As disputas abrangem diferentes áreas do conhecimento e têm conquistado espaço no planejamento das escolas. Mais do que a busca por medalhas, elas colocam crianças e adolescentes diante de desafios que exigem raciocínio, criatividade e autonomia.

Para Ana Júlia Caires, pedagoga com especialização em neuropsicologia, a experiência amplia as possibilidades de aprendizagem ao retirar o estudante, ainda que momentaneamente, da dinâmica à qual está habituado. 

"Eu vejo as olimpíadas de conhecimento como uma forma de ampliar a experiência de aprendizagem. O aluno sai um pouco do formato tradicional da sala de aula e é desafiado a pensar, buscar estratégias e confiar no próprio conhecimento. Muito mais do que uma competição, importante é o processo e tudo o que ele desenvolve durante essa experiência, como autonomia, raciocínio lógico, capacidade de resolução de problemas e, principalmente, aprender a lidar com desafios."

A relevância das competições ganhou reconhecimento institucional neste ano. Em janeiro, foi sancionada a Lei nº 15.331/2026, que instituiu julho como o Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento. A norma teve origem em projeto de autoria do senador Marcos Pontes (PL-SP). 

Descobrir quem ainda não apareceu

Se participar já coloca o estudante diante de novas formas de aprender, fazer com que essa oportunidade chegue a diferentes perfis de alunos é uma etapa anterior ao treinamento. No Colégio Olimpo, o trabalho começa no 6º ano do ensino fundamental e parte de uma premissa: não restringir a participação àqueles que já apresentam as melhores notas em determinadas disciplinas.

Diretor acadêmico do Olimpo e diretor da unidade de Águas Claras, Diego Bernadelli chama atenção para estudantes cujo potencial pode não aparecer no desempenho escolar cotidiano. Ao explicar a estratégia adotada pela instituição, ele recorre ao conceito de "gênios invisíveis", expressão usada em estudo que acompanhou participantes da Olimpíada Internacional de Matemática.

"O erro comum da escola é chamar quem já vai bem em matemática e parar aí. Assim, você só encontra quem já era visível. Há um estudo que acompanhou por anos os participantes da Olimpíada Internacional de Matemática e mostrou que o talento medido aos 17 anos prevê produção científica melhor do que o diploma da melhor universidade do mundo. O mesmo estudo mostrou que esse talento, quando nasce no lugar errado, não vira nada. Chamaram essas pessoas de gênios invisíveis. Todo colégio tem os seus, e quase sempre é o aluno quieto, o que vai mal em outra matéria, o que tem vergonha de tentar."

Na prática, a proposta é ampliar a porta de entrada para que a própria competição ajude a revelar quem pode avançar. Bernadelli destaca que o número de inscritos, portanto, pode dizer tanto sobre o trabalho desenvolvido por uma escola quanto a quantidade de premiações conquistadas por seus alunos.

"Por isso, a identificação começa no 6º ano, e a porta de entrada é a inscrição, não a indicação. Medalha é do aluno que tirou. Inscrição é da escola. A maior parte das medalhas que uma escola perde não se perde na prova, perde-se no prazo que passou e na inscrição que ninguém fez. Hoje, esse acompanhamento é semanal, e o número de cada unidade fica aberto para todas as outras."

Preparação contínua

Encontrar estudantes interessados é apenas uma parte do processo. A preparação para as olimpíadas exige continuidade e contato frequente com problemas diferentes daqueles normalmente identificados nas avaliações escolares. No Olimpo, o treinamento foi organizado em três frentes que acompanham diferentes momentos da trajetória dos alunos.

A primeira está inserida na própria rotina acadêmica. Os estudantes cumprem semanalmente uma quantidade de exercícios calculada de acordo com a carga horária de cada disciplina e distribuída de maneira que os conteúdos reapareçam ao longo das semanas. No ensino médio, há, ainda, avaliações todas as sextas-feiras.

A segunda frente ocorre fora do horário regular, nas turmas G , voltadas ao treinamento olímpico. Para os alunos do ensino fundamental, os encontros são realizados às sextas-feiras; no ensino médio, aos sábados. Já a terceira etapa reúne aulas específicas de matemática, física e química, acompanhamento dos professores das respectivas áreas e resolução de provas anteriores para quem avança nas competições.

Para Bernadelli, a constância é essencial, porque o desempenho não se define apenas às vésperas de uma competição. "A nossa preparação tem três camadas, e nenhuma delas funciona sozinha. A primeira é a rotina comum, porque não existe medalhista improvisado."

Os resultados cresceram junto com a estrutura dedicada às competições. O grupo registrou 424 medalhas e menções em 2022 e 1.444 em 2025. Em 2026, com quatro olimpíadas contabilizadas até o momento em que Bernadelli respondeu à reportagem, eram 860 premiações.

Um caminho para se descobrir

Entre essas medalhas estão cerca de 20 conquistadas por Matheus Dowsley Arcoverde de Melo, de 16 anos. Aluno da 2ª série do ensino médio, ele participa de diferentes competições e integra uma turma voltada à preparação para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Ao longo desse percurso, conta que o conteúdo trabalhado pela escola e o apoio recebido de professores e da família deram segurança para enfrentar as provas.

"O Olimpo me deu toda uma base de conhecimento. Eles me botaram em uma turma especial para isso, a turma ITA. A partir daí, eu fui evoluindo muito, conforme fui aprendendo as matérias. Quando você chega para fazer a prova dá um alívio, porque você vê o que foi feito na aula, você vê as coisas familiares que a escola te mostrou."

Mas o estudante identifica outro resultado dessa trajetória que não cabe no quadro de medalhas. Participar das competições o ajudou a perceber afinidades entre as disciplinas e a pensar no próprio futuro.

"Participar das Olimpíadas trouxe saber o que eu quero. Porque eu fui participando, e aí fui descobrindo de quais matérias eu gosto mais, de quais matérias eu gosto menos. Também me ajudou a ter um plano de vida, conhecer muita gente. Participar abre muito a visão de mundo."

A experiência de Matheus ajuda a mostrar por que o desempenho final não precisa ser o único parâmetro para pais e escolas. A preparação coloca o jovem diante de problemas que exigem tentativa, erro e persistência, habilidades que continuam úteis mesmo quando a medalha não vem. Bernadelli considera justamente esse processo o principal benefício das olimpíadas.

"O benefício maior não é o atalho, é o que a olimpíada faz com o aluno antes disso. Ela é o único momento de escolarização em que o estudante encontra um problema que o professor dele não preparou. A prova comum cobra o que foi dado, com o método que foi treinado. Isso é necessário, e é insuficiente."

Da medalha à universidade

Nos últimos anos, as premiações também passaram a produzir uma consequência mais concreta para estudantes que chegam ao fim da educação básica: algumas universidades públicas adotaram formas de ingresso destinadas a medalhistas de competições científicas nacionais e internacionais.

Entre elas estão a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Na Universidade de Brasília (UnB), foram previstas vagas extraordinárias para medalhistas de competições do conhecimento, sem redução das destinadas às formas tradicionais de ingresso. A adesão fica a critério de cada curso, que mantém autonomia para decidir se participa do modelo. Segundo a instituição, a iniciativa busca atrair estudantes que já demonstraram interesse pela ciência durante a educação básica e estreitar a relação com essa etapa de ensino.

Para a universidade, considerar o desempenho nessas competições no processo de ingresso também é uma maneira de reconhecer trajetórias construídas antes da graduação e incentivar o interesse pela produção científica desde a escola.

"As olimpíadas científicas ajudam a identificar, ainda na educação básica, jovens com grande interesse pelo conhecimento e pela ciência. Reconhecer essas trajetórias no ingresso valoriza o esforço desses estudantes e permite à universidade atrair novos talentos. Para o país, é também uma forma de estimular a formação científica desde a escola e aproximá-la da universidade", disse o decano de Ensino de Graduação da UnB, Thiago Coelho.

No Distrito Federal, essa aproximação pode começar antes mesmo do processo seletivo. A UnB afirma ter interesse em fortalecer a relação com as escolas e aproximar os estudantes de seus cursos, laboratórios e atividades científicas.

"A UnB quer estar cada vez mais próxima das escolas do Distrito Federal. As olimpíadas são uma importante forma de estimular e identificar talentos, queremos aproximar os estudantes da universidade, dos nossos cursos, laboratórios e da ciência. O talento está em toda a parte; precisamos ajudar a ampliar as oportunidades para que ele possa se desenvolver."

Para além das medalhas ou de uma possível vaga na universidade, as olimpíadas podem trazer efeitos que acompanham o estudante durante a formação. Ao tirá-lo da lógica de apenas reproduzir conteúdos, as competições estimulam autonomia, persistência e novas formas de resolver problemas, aprendizados que permanecem mesmo depois que a prova termina.

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