A escola costuma ser associada a provas, trabalhos, notas e preparação para o futuro profissional. Mas, para alguns estudantes, a formação ocorre também longe dos livros e das salas de aula. Em projetos de voluntariado, adolescentes entram em contato com outras realidades, desenvolvem vínculos e descobrem que aprender pode significar também cuidar do outro.
No Colégio Leonardo da Vinci, na Asa Norte, uma das iniciativas é o Programa Irmão Mais Velho. Atualmente, 284 estudantes, do 9º ano à 3ª série do ensino médio, participam da ação. Em parceria com cinco instituições — Lar de São José, Casa da Criança Batuíra, Casa de Ismael, Larzinho Chico Xavier e Casa do Caminho —, eles acompanham cerca de 250 crianças e adolescentes.
Antes de começar, os estudantes interessados e seus responsáveis conhecem a proposta em uma palestra. Depois, os voluntários passam por dois encontros de capacitação, que abordam o papel de quem participa do projeto, os cuidados necessários no ambiente de acolhimento e aspectos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Para Cristina Marques, orientadora educacional responsável pelo projeto no Leonardo da Vinci, a iniciativa parte da compreensão de que a educação não se resume aos conteúdos acadêmicos. "Nós queremos formar estudantes para a vida em sociedade, desenvolvendo não apenas conhecimentos, mas também valores, atitudes e competências humanas", afirma.
Segundo ela, o contato com as crianças permite que os estudantes vivenciem, na prática, valores que muitas vezes aparecem apenas de forma teórica no cotidiano escolar. "Quando o estudante participa de uma ação em benefício de outra pessoa ou de uma causa, ele deixa de apenas ouvir sobre valores e passa a vivenciá-los na prática", explica.
É justamente essa experiência que marcou Thomaz Marra, de 19 anos. Ex-aluno do colégio e atualmente estudante de engenharia de software na Universidade de Brasília (UnB), ele conheceu o Irmão Mais Velho em 2023, quando ainda não podia participar. No ano seguinte, assim que as inscrições foram abertas, entrou no projeto. Mesmo depois de concluir o ensino médio, decidiu continuar como integrante da equipe técnica.
Uma das lembranças mais marcantes para ele aconteceu durante um campeonato que reúne crianças das cinco casas de acolhimento. Cerca de 150 a 200 crianças participam das atividades esportivas, como futsal, queimada e futebol. A equipe acompanhada por Thomaz chegou à final, mas perdeu nos pênaltis.
Apesar da derrota, o que ficou na memória do jovem foi a reação das crianças. "Só de estar ali vivendo aquele momento, elas ficaram superfelizes", lembra. Para ele, a experiência mostrou que o resultado da competição era menos importante do que a oportunidade de participar. "Ver a alegria das crianças, mesmo no momento em que você pensa que todo mundo vai estar mais para baixo, e estava todo mundo alegre, feliz, participando. É isso que importa para mim no final."
A convivência também provocou em Thomaz uma reflexão sobre as diferenças sociais. Segundo ele, muitos estudantes vivem dentro de uma realidade semelhante e acabam tendo pouco contato com outras experiências. "Quando a gente lida com outras realidades, às vezes, toma um choque", conta.
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O voluntariado, diz, ajudou a perceber que existe uma parcela da sociedade que não aparece no cotidiano de quem vive em uma realidade mais privilegiada. "Isso ajuda a gente a perceber isso, a entender o mundo fora da nossa bolha", afirma.
Aprendizado
A estudante Valentina Alves, de 15 anos, também encontrou no projeto uma maneira de manter uma relação com o trabalho social que fazia parte de sua vida desde a infância. Criada em uma família envolvida em ações sociais, ela conta que, com o aumento das obrigações escolares, acabou deixando esse tipo de atividade de lado. Encontrar uma iniciativa dentro da própria escola facilitou a retomada.
"Eu acho que muita gente encara a escola como algo só dentro de sala de aula. E é algo que realmente forma o nosso olhar na sociedade", afirma. Para ela, o voluntariado complementa a formação acadêmica ao colocar os estudantes em contato com pessoas de outras histórias e experiências.
Uma das situações que mais a marcou ocorreu em um encontro realizado em uma escola, com atividades na piscina. Na hora de ir embora, uma criança que Valentina acompanha mais diretamente, começou a chorar porque os dois demorariam a se encontrar novamente. "A gente vai para o trabalho social pensando que será só mais um dia que as crianças vão ficar felizes, mas é algo muito mais profundo."
A estudante diz que a experiência também desconstrói a ideia de que o voluntário é sempre quem ensina ou oferece algo. "A gente vai sem esperar nada em troca, mas quem aprende é a gente", resume.
Para Caetano Rosinha, de 15 anos, também voluntário do projeto, essa é uma das principais lições da experiência. Ele entrou porque considera importante poder melhorar o dia das crianças, brincar com elas e oferecer atenção. "Eu não vejo isso como algo em que eu tenho que ser remunerado", afirma.
O jovem critica, inclusive, a ideia de participar de uma ação social apenas para obter benefícios pessoais. Segundo ele, durante os treinamentos chegou a ouvir colegas dizendo que entrariam no Irmão Mais Velho pensando no currículo. "Eu acho que a gente tem que vir com essa mentalidade: dar, oferecer sem esperar nada em troca."
Formação da cidadania
A importância dessas experiências vai além da percepção dos próprios estudantes. Para a professora e doutora Edileuza Fernandes, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), e coordenadora do Observatório de Educação Básica, o voluntariado pode ser entendido como parte da formação para a cidadania e para os direitos humanos.
"O envolvimento dos estudantes em ações sociais contribui para uma maior compreensão de questões da realidade social e das desigualdades que marcam uma sociedade que ainda é muito desigual do ponto de vista do acesso a bens materiais e culturais", avalia.
Segundo Edileuza, a participação em projetos dessa natureza também favorece o desenvolvimento do respeito, da solidariedade e do senso crítico. O contato com diferentes grupos permite que crianças e adolescentes conheçam outras experiências, valores e perspectivas.
Para a professora, portanto, a escola não precisa se limitar a incentivar o voluntariado. Também pode criar oportunidades concretas para que os estudantes participem de ações na comunidade. Ela cita como exemplo uma experiência que desenvolveu, em 2005, com outros professores do Centro de Ensino Médio de Taguatinga Norte (Cemeit). O projeto Aluno Cidadão permitia que os estudantes escolhessem instituições como hospitais, creches e lares de idosos e, com orientação dos professores, elaborassem projetos de intervenção.
"Um grupo de professores de disciplinas como filosofia, história, artes, física e sociologia se reuniu e desenvolveu o projeto", relembra. Segundo Edileuza, muitos estudantes continuaram as ações depois do fim da iniciativa, percebendo a relevância da atuação comunitária.
No Leonardo da Vinci, o voluntariado também aparece em ações pontuais realizadas ao longo do ano. Estudantes, educadores e a comunidade escolar participam de atividades junto à Abrace, como a Semana da Páscoa, o Natal da Abrace, o McDia Feliz, gincanas solidárias e campanhas de arrecadação de tampinhas.
Para a orientadora Cristina Marques, a intenção é construir uma cultura de cuidado que ultrapasse uma ação isolada. "Nosso objetivo é cultivar uma cultura de cuidado, participação, respeito e comprometimento, ajudando nossos estudantes a compreender que fazer o bem não é apenas uma ação pontual, mas uma postura diante da vida e da sociedade."
A experiência também pode deixar marcas nas escolhas que os jovens fazem no futuro. Edileuza acredita que as vivências durante a infância e a adolescência podem influenciar tanto a vida pessoal quanto a profissional. "Um projeto junto a crianças pequenas pode despertar o interesse pelo magistério, por exemplo", exemplifica.
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