Argentina

Existe onda anti-Argentina? Derrota na Copa gera crise com Milei e artistas

Derrota para a Espanha causou grande repercussão e argentinos reagem a provocações; presidente Milei diz que se trata de uma campanha "anti-argentina"

A final da Copa do Mundo 2026 ultrapassou as barreiras do futebol e atingiu o mundo dos famosos, a política e o governo de Javier Milei. A disputa entre Argentina e Espanha, que terminou com a vitória espanhola, gerou memes e comentários de celebridades que provocaram reações de torcedores argentinos, pedidos de boicote a artistas e até manifestações do presidente do país.

O resultado também ampliou discussões políticas sobre imigração e nacionalismo e antecedeu a abertura de uma investigação da Fifa sobre a confusão ocorrida no gramado após a decisão.

A sucessão de episódios começou antes mesmo de a partida ter início, com meses e provocações. Uma reportagem publicada pelo jornal argentino "Clarín", nesta quarta-feira (22), afirma que fontes do governo enxergam esse momento como uma "campanha anti-Argentina". E que as publicações de Milei são respostas para isso. 

O presidente argentino chegou a publicar uma mensagem dizendo: "O problema com a Argentina é que somos chamativos, não passamos despercebidos, têm inveja da gente e somos bons em quase tudo. Desculpem, mas alguém precisava dizer isso".

Antes do jogo começar, um dos conteúdo mais compartilhados mostrava um mapa-mundi coberto quase completamente pela bandeira espanhola, enquanto apenas o território argentino estampava as cores do próprio país. A montagem sintetizava a ideia de que o restante do mundo estaria unido contra a seleção argentina. 

Considerando a rivalidade no futebol, era esperado que os usuários brasileiros e outros vizinhos latinos compartilhassem postagens semelhantes, mas outras nacionalidades pareceram dividir o mesmo pensamento. 

Depois do título da Espanha, a mobilização ganhou novos formatos. Uma conta britânica no tiktok, por exemplo, publicou uma montagem com a canção “no one mourns the wicked”, "ninguém chora pelos maus", do musical Wicked, em referência à derrota dos hermanos. Em uma outra publicação, um usuário dos EUA insinuou que a Fifa teria favorecido a seleção sul-americana durante o torneio. 

 

As postagens se espalharam rapidamente e passaram a ser tratadas por parte dos torcedores argentinos como uma campanha coordenada de hostilidade. O debate deixou de se limitar apenas ao âmbito esportivo e passou a incluir a imagem internacional do país, a conduta de celebridades estrangeiras e a reação do governo. 

Ataque a celebridades

Além dos memes, a vitória da Espanha também repercutiu entre artistas e influenciadores internacionais. Em alguns casos, demonstrações de apoio à seleção espanhola acabou gerando uma onda de críticas de torcedores argentinos. 

Em um desses episódios, a influenciadora libanesa-americana Mia Khalifa publicou um vídeo comemorando o título espanhol ao som de “La Perla”, música da cantora Rosalía. Na legenda, escreveu: “Como soa a vida agora que as ‘pérolas’ foram derrotadas”, em uma referência interpretada como provocação à Argentina.

Na composição, a palavra “pérola” é empregada de maneira irônica para descrever uma pessoa tóxica e pouco confiável. Rosalía compartilhou o vídeo de Khalifa, e o gesto provocou uma reação intensa de fãs argentinos, que iniciaram uma campanha de boicote aos quatro shows marcados pela cantora espanhola em Buenos Aires no início de agosto.

Diante da repercussão negativa, Rosália apagou o vídeo e disse que compartilhou o vídeo apenas porque sua música aparecia e afirmou que tem “apenas amor pela Argentina”. 

A cantora norte-americana Lauren Jauregui, ex-integrante do Fifth Harmony e de origem cubana, publicou um vídeo em que comemorava um gol espanhol e dizia “chora, chora” em direção a Lionel Messi. Após receber uma série de críticas, afirmou que torceu pela Espanha por causa de suas origens familiares e declarou que “é só futebol”.

O cantor irlandês Niall Horan, ex-integrante do One Direction, foi questionado depois de curtir uma publicação com a frase “As Malvinas são espanholas”. A mensagem foi considerada uma provocação dupla por associar a Espanha à disputa histórica entre Argentina e Reino Unido pelas Ilhas Malvinas, tema sensível desde a guerra de 1982.

Horan disse que a interação ocorreu por engano, afirmou que não se lembrava de ter visto o conteúdo e reforçou seu carinho pela Argentina e pelos fãs do país. Mesmo assim, a curtida permaneceu entre os episódios mais criticados da repercussão pós-final.

Além deles, artistas como a americana Halsey, a sueca Zara Larsson e a britânica de origem albanesa Dua Lipa passaram a receber críticas nas redes por demonstrarem apoio à seleção espanhola durante a final.

A reação de Milei 

A onda de críticas e apoio oposto chegou ao presidente Javier Milei, que publicou e compartilhou mensagens interpretadas como respostas às provocações. Embora não tenha citado diretamente artistas, seleções ou países , o presidente adotou um tom de defesa da identidade argentina. 

Em outra postagem, Milei compartilhou a frase: “Você tem inimigos? Ótimo. Isso significa que, em algum momento da sua vida, você defendeu alguma coisa”. O presidente também republicou uma mensagem do escritor e influenciador de direita Agustín Laje, que atribuiu ao kirchnerismo e ao que chamou de “wokismo” a construção de uma imagem negativa da Argentina no exterior.

Milei ainda divulgou uma imagem do mapa argentino com as cores da bandeira nacional e a mensagem “Agora o mundo vai ver até onde pode chegar um país cheio de argentinos”. Nos comentários da publicação, parte dos usuários passou a pedir às medidas contra estrangeiros que vivem na Argentina, incluindo a expulsão de pessoas em situação irregular de imigração. 


Além das publicações de Milei, o "Clarín" afirma, com base em fontes do governo argentino, que uma das respostas ao que o presidente e seus aliados chamam de comportamento "anti-Argentina" é um projeto apresentado pelo deputado libertário Agustín Romo.

O texto, em tramitação na Assembleia Legislativa de Buenos Aires, propõe cobrar de estrangeiros que não comprovem residência no país pelos serviços de saúde e pelo ensino superior, um debate recorrente na agenda do governo Milei.

Polêmicas na Copa

Outra onda de repercussão ocorre enquanto a Fifa analisa o confronto registrado após o apito final, onde uma confusão com os atletas espanhóis tomou conta do gramado, com participação de jogadores e integrantes da comissão técnica argentina. 

O comitê disciplinar nomeou um procurador de disciplina e ética para examinar imagens e relatos do incidente. O procedimento poderá resultar em sanções caso sejam constatadas violações do regulamento. 

A investigação disciplinar ampliou o desgaste da seleção argentina após a derrota e adicionou uma dimensão institucional às disputas que já dominavam as redes sociais.

Ao final do Mundial, além de brigas e revolta na internet, os torcedores argentinos se mobilizaram através de uma abaixo-assinado pedindo a anulação da partida. Na petição, eles criticam a atuação do árbitro e solicitam que a decisão seja revista, firmamento até, que a arbitragem influenciou diretamente no resultado. 

Casos de racismo 

A participação de torcedores argentinos na Copa também ficou associada a acusações de racismo. Um deles aconteceu fora dos estádios e no Brasil, quando um turista argentino foi acusado de imitar um macaco para ofender um homem negro que torcia pela Inglaterra durante a semifinal, em um restaurante de Morro de São Paulo. 

Uma semana antes, a Fifa havia iniciado outra investigação sobre possíveis ofensas racistas dirigidas por torcedores argentinos ao influenciador negro IShowSpeed. O episódio teria ocorrido no estádio de Miami, durante a partida entre Argentina e Cabo Verde pela segunda fase do Mundial.

A questão não passou despercebida na Argentina, cuja imprensa pautou a polêmica amplificada pelas redes sociais. Em páginas e jornais argentinos, não é difícil encontrar publicações questionando as acusações de racismo. Enquanto algumas dessas publicações reconhecem o problema, outras apontam exageros e voltam a afirmar que há uma perseguição contra o país.

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