INVESTIGAÇÃO

Inquérito liga suposto membro do PCC a desvios para financiar "Dark Horse"

Segundo a polícia, fraudes em contrato de Wi-Fi na periferia abasteceram empresa de suspeito e podem ter custeado o filme de Bolsonaro

Alex Leandro cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva -  (crédito: Reprodução/Instagram/@katiane.gomes14)
Alex Leandro cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva - (crédito: Reprodução/Instagram/@katiane.gomes14)

O empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como integrante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), é sócio da empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para um projeto de instalação de Wi-Fi na periferia de São Paulo. O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista sobre o contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto apontam para um esquema de superfaturamento que chega a 230%. O acordo principal, orçado originalmente em R$ 108 milhões — com apurações indicando que as cifras totais podem atingir R$ 157 milhões —, previa a instalação de 5 mil pontos de internet sem fio (Wi-Fi) na capital paulista.

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No entanto, a auditoria identificou uma discrepância severa nos valores: enquanto a estatal Prodam cobrava R$ 306 mensais por ponto de conexão, o ICB recebia uma taxa fixa de R$ 1.800 pelo mesmo serviço.

Além das distorções de preço, a execução do contrato apresentou graves falhas e indícios de fraude. Das 5 mil antenas contratadas, a entidade instalou apenas 3,2 mil. Em um dos episódios mais críticos detalhados pelos investigadores, o município desembolsou R$ 2,7 milhões pela manutenção de 128 pontos de conexão, pagando por 12 meses de prestação de serviço que, na realidade, durou apenas dois meses. Segundo a polícia, o custo efetivo dessa operação deveria ter sido de somente R$ 273 mil.

O rastreamento do dinheiro revelou ainda que R$ 12 milhões do montante total do contrato foram repassados à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., de propriedade de Alex Leandro. Até dezembro de 2025, a empresa já havia recebido mais de R$ 3,8 milhões desse total.

A principal hipótese com a qual a polícia trabalha é que parte dos recursos desviados dos cofres públicos paulistanos tenha sido direcionada para o financiamento e custeio da produção do filme cinematográfico Dark Horse.

Perfil do suspeito

Investigado no esquema de desvios, Alex Leandro possui um extenso histórico criminal que soma mais de 60 processos judiciais. Entre seus antecedentes, constam três condenações por roubo e uma por extorsão mediante sequestro — crime que envolveu um sobrinho do político Eduardo Suplicy.

Devido a essas sentenças, ele cumpriu 13 anos de pena em regime fechado, período em que passou por penitenciárias de segurança máxima que abrigam a cúpula da facção criminosa, como a unidade de Presidente Venceslau.

A possível ligação com a organização criminosa também é reforçada por relatos de vizinhos, que gravaram um vídeo no qual Alex afirmava possuir o "escorpião do PCC", expressão apontada pelas investigações como um provável código ou símbolo do grupo.

Atualmente, Alex cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. O crime ocorreu em novembro de 2025, quando a jovem morreu após cair do 10º andar de um edifício residencial no bairro Vila Andrade, na zona sul de São Paulo.

De acordo com as investigações, imagens capturadas pelo sistema de segurança do prédio mostram Alex agredindo e arrastando a vítima pelo pescoço momentos antes da queda que resultou em sua morte.

Manobras administrativas

As investigações também revelaram indícios de manobras administrativas para omitir a participação de Alex Leandro no negócio e blindar a empresa após o crime. Nos primeiros contratos firmados com o ICB, o suspeito assinou os documentos utilizando apenas o primeiro nome, "Alex", omitindo seu sobrenome, número de CPF ou RG.

Posteriormente, em dezembro de 2025 — logo após a repercussão da denúncia do feminicídio —, a empresa Favela Conectada passou por uma reformulação: mudou sua razão social para Urban Connect e teve seu controle transferido para o nome de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que, segundo as apurações, reside no mesmo endereço de Alex.

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postado em 26/06/2026 15:58 / atualizado em 26/06/2026 16:03
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