
Com a morte de Zuenir Ventura, aos 95 anos, nesta terça-feira (22/9), o Correio Braziliense resgata uma entrevista que registra a passagem de um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro. Em 22 de maio de 2021, quando se aproximava dos 90 anos, o jornalista e escritor conversou com a repórter Nahima Maciel. Na ocasião, Zuenir refletiu sobre a pandemia de covid-19, a velhice, os desafios da profissão e as histórias que marcaram mais de cinco décadas dedicadas ao jornalismo.
A entrevista foi publicada sob o título “Esse desprezo pela saúde, nem na ditadura”, em referência à maneira como Zuenir enxergava o Brasil durante a crise sanitária. Naquele momento, o país acumulava crises de saúde, política e economia, e o jornalista comparava a situação que testemunhava com outros períodos difíceis que havia acompanhado ao longo da carreira.
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“Vivi todas as possíveis mazelas que esse país teve”, afirmou Zuenir à repórter do Correio. Ele citou episódios como a morte de Getúlio Vargas, a ditadura militar, a censura, a tortura, o Maio de 1968, a hiperinflação dos anos 1980 e a epidemia de aids. Ainda assim, dizia nunca ter visto uma combinação de crises como aquela provocada pela pandemia.
Na conversa com o Correio, Zuenir também falou sobre como a sociedade enxergava a velhice. Prestes a completar 90 anos, ele criticou a ideia de que pessoas mais velhas seriam um problema por deixarem de ser produtivas. Para ele, chegar à velhice deveria ser visto como uma conquista, e não como um peso.
“Criticar a velhice é uma estupidez, porque a alternativa é não chegar lá”, disse, e lembrou ainda artistas que produziram grandes obras depois dos 70 anos, como o compositor italiano Giuseppe Verdi e o cineasta Charlie Chaplin.
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A conversa aconteceu também por causa do aniversário de Zuenir. Para marcar os 90 anos do jornalista, a editora Objetiva preparava uma nova edição de Minhas histórias dos outros, livro publicado originalmente em 2005 e que reunia relatos de encontros do autor com algumas das principais personalidades brasileiras que entrevistou ou conheceu ao longo da carreira.
Entre as histórias recuperadas na nova edição estava a de Genésio Ferreira da Silva, menino de 13 anos que havia testemunhado o assassinato de Chico Mendes. Como testemunha-chave do crime, Genésio corria risco de ser morto caso permanecesse no Acre. Zuenir conseguiu autorização judicial para levá-lo ao Rio de Janeiro e assumiu sua tutela.
O jornalista contou a Nahima que aquela era uma das histórias mais difíceis de sua trajetória. Quando escreveu o primeiro relato, Genésio enfrentava problemas relacionados ao trauma vivido ainda na infância. Anos depois, porém, Zuenir recebeu uma notícia que mudou o desfecho daquela história: Genésio estava bem, havia parado de beber e estava prestes a se casar. “Genésio resiste”, resumiu Zuenir ao falar sobre a atualização do relato.
A entrevista também recuperou uma situação curiosa envolvendo outro grande nome da cultura brasileira: Carlos Drummond de Andrade. Zuenir contou que, quando era diretor da sucursal carioca da revista Veja, recebeu um pedido para entrevistar o poeta. Como Drummond era conhecido por ser avesso a entrevistas, o jornalista chegou inicialmente a desconfiar de que se tratava de um trote. “Drummond tinha ficado muito tempo sem dar entrevista e realmente não sei, até hoje, porque ele tinha resolvido dar a entrevista para mim”, contou ao Correio.
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A conversa publicada se encerrou com duas perguntas, na primeira, Nahima questiona se o Brasil da pandemia causa espanto a Zuenir, ao que ele responde citando outros períodos difíceis, dizendo que prefere se manter otimista, mesmo diante do cenário preocupante.
Para encerrar, ele também foi questionado sobre o jornalismo no século 21. Depois de mais de cinco décadas de profissão, Zuenir dizia enxergar um período especialmente difícil para os jornalistas.
“A gente está vivendo um momento difícil no jornalismo, com um governo que despreza, que, se pudesse, mandava fechar os jornais. As entidades jornalísticas reclamam muito de como estamos sendo tratados pelo poder, tudo é culpa do jornalismo. Eu acho que a gente vive um momento heroico, porque fazer jornalismo é muito difícil”, diz.
Segundo ele, além de lidar com uma realidade marcada por notícias ruins, os profissionais passaram a ser responsabilizados pelas próprias notícias que produziam. “O emissário da má notícia é o culpado pela má notícia”, afirmou.
Zuenir morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. A Academia Brasileira de Letras, da qual fazia parte desde 2015, informou que a causa da morte foi uma pneumonia. O velório está marcado para esta quarta-feira (23), na sede da ABL.
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