Início da tarde de uma quinta-feira, 27 de setembro de 2025. Carlos Augusto Medeiros, 36 anos, sentou-se na área externa do Bar em Bar, em Taguatinga Norte. O gerente havia acabado de deixar as três filhas na escola. Por volta das 14h, enquanto funcionários alinhavam as cadeiras para receber clientes e o fluxo na avenida seguia intenso, um homem estacionou a moto do outro lado da rua. Desceu ainda de capacete, caminhou e atirou. O assassino confesso é Johny Alexander Saldarriaga Guapache, 28, colombiano e "soldado" de uma rede de agiotagem que atravessa as fronteiras e financia o tráfico de drogas, de armas e a contratação de sicários — matadores de aluguel — na Colômbia.
Carlos não era o alvo. Há quatro anos, tinha alugado o espaço para montar, inicialmente, uma distribuidora de bebidas. Migrou para um bar. A faixa de lona com o nome Bar em Bar era ofuscada por outro banner, pendurado no andar de cima do prédio: o do restaurante La Zenaida, administrado por colombianos e frequentado, em sua maioria, por conterrâneos. A missão de Johny era matar o dono do ponto gastronômico. De acordo com ele, o alvo tinha uma dívida com um homem conhecido como Mono, posteriormente identificado pela polícia como Jhon Mario Sanchez Giraldo, traficante colombiano suspeito de comandar o esquema de agiotagem no DF e no Entorno.
Johny recebeu apoio logístico. Parceiros forneceram a moto, a arma e as passagens de ônibus para a fuga. Ele foi preso em Fortaleza (CE) por policiais da 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte) e confessou o homicídio. Sete dias antes do ataque, câmeras de segurança registraram o encontro entre Johny e Bryan Danilo Moreno na calçada do restaurante Los Paisas, em Valparaíso de Goiás. Segundo a investigação, Moreno é responsável por articular a execução e segue foragido.
Johny afirmou à polícia, em depoimento, que aceitou cometer o assassinato para quitar uma dívida de R$ 3 mil contraída na Colômbia com Brahyam Angulo Rendon, aliado de Jhon Sanchez e também procurado. Sem conseguir pagar, disse ter recebido ameaças e sido obrigado a viajar para o DF para executar o crime. "Em Brasília, ele recebeu as instruções de Bryan para o ataque", afirma Thiago Boeing, delegado-adjunto da 17ª DP, à frente do caso.
Reduto
A Rua 17, no bairro Jardim Oriente, em Valparaíso, atravessa uma sequência de lojas e casas protegidas por muros altos. O vai e vem de comerciantes e clientes começa às 8h e termina às 18h, quando as lojas fecham as portas. Ao lado de uma tapeçaria funciona a Medellin Barber Club. Gerida por colombianos, oferece uma estrutura sofisticada, na contramão das barbearias convencionais: playstation, sinuca, cerveja e ambiente rústico.
Do lado de fora, porém, a cena é outra. A calçada lembra um ponto de mototáxi. Em menos de duas horas nas quais a reportagem permaneceu no local, quatro motociclistas colombianos chegaram, estacionaram por alguns minutos e partiram. Todos usavam bolsas transversais. Comerciantes da região afirmam que os homens fazem parte da engrenagem do esquema da agiotagem e atuam como "cobradores".
Um comerciante da Rua 17, que preferiu não se identificar, conta que há poucos meses a avenida era tomada por filas de motos. "Todos os dias eles jogam esse cartão para dentro da nossa loja", diz, mostrando um cartão atrativo: "Crédito na hora. Sem burocracias". No verso aparecem os valores disponíveis, entre R$ 500 e R$ 5 mil. Quem aceita o empréstimo tem 20 dias para quitar a dívida. No caso de um crédito de R$ 500, o devedor paga, ao fim, R$ 630. Durante esse período, porém, precisa desembolsar outros R$ 30 por dia, o que totaliza um pagamento final de R$ 1.230, com juros estratosféricos de 285% ao mês (4,6% ao dia).
Na mesma avenida, o restaurante Los Paisas fica em frente à barbearia. O local fechou as portas depois do assassinato de Maurício Rubio Rodriguez, 44, vítima de homicídio e companheiro da proprietária. Agiota, o colombiano Rubio mantinha sociedade com Jhon Sanchez. Administrava, no município goiano, três empresas: uma de empréstimos, uma mecânica em Sobradinho e a distribuidora Tropical Ice — transformada na própria Medellin.
Em 25 de junho de 2025, Rubio saiu de casa em Valparaíso para ir à missa e, depois, a um bar. Não voltou. Foi morto a tiros. Investigações preliminares indicam que ele travava uma disputa com o conterrâneo Maurício Salgado Cardona, também agiota. Há lacunas nos registros de Cardona, mas a rivalidade entre ele e Sanchez aparece nos registros policiais.
Alimento ao tráfico
A disputa pelo controle dessas redes ultrapassa as fronteiras brasileiras. Pereira, cidade colombiana no departamento de Risaralda, aparece em estudos como uma das mais seguras do país. Nos bastidores do crime, porém, a cidade abriga disputas silenciosas por território e dinheiro.
Na tarde de 31 de janeiro, o movimento em uma oficina mecânica de Pereira seguia lento, quando quatro homens em duas motos atiraram e mataram Jhon Sanchez, então chefe da agiotagem no DF e no Entorno.
Segundo a Polícia Nacional da Colômbia, Sanchez liderava o tráfico de drogas em zonas como El Rocío, La Dulcera, San Nicolás e Boston. Informações de inteligência apontam ligações dele com duas facções locais: La Cordillera e Los Rebeldes.
Em entrevista ao Correio, o comandante da Polícia Metropolitana de Pereira, coronel Oscar Leonel Ochoa, afirmou que Sanchez mantinha vínculos com redes de agiotagem no Brasil e havia retornado à Colômbia pouco tempo antes de morrer, após conflitos com Maurício Rubio.
As investigações mostram que o dinheiro cobrado de comerciantes endividados financia uma cadeia de crimes, incluindo a compra de cocaína, maconha e drogas sintéticas; pagamento de assassinos de aluguel; viagens internacionais de criminosos; e até invasões de propriedades.
"As operações se estendem da Colômbia para países como Brasil e Uruguai e têm incidência direta em fatos violentos registrados recentemente em Pereira e sua área metropolitana. Nossas investigações mostram que membros dessa organização instalaram redes de crédito ilegal em várias cidades desses países, onde impõem juros abusivos e aplicam mecanismos de intimidação, assédio e pressão psicológica contra aqueles que não cumprem os pagamentos", frisou o coronel.
No fundo do poço
Entre 2024 e 2025, ao menos 118 colombianos apareceram como autores de crimes registrados no DF, segundo dados da Polícia Civil (PCDF) obtidos pelo Correio via Lei de Acesso à Informação (LAI). Nas ocorrências, surgem acusações de extorsão, ameaça, crimes contra a economia popular, estelionato, furtos e injúria.
No Gama, uma cabeleireira de 67 anos foi extorquida no próprio salão. A mulher, que prefere não ser identificada, contou à polícia que mantinha empréstimos frequentes com agiotas. Apesar dos juros altos, não havia tido problemas. Até adoecer.
Sem conseguir pagar as parcelas por um período, procurou o agiota e explicou a situação. O acordo foi aceito. Algum tempo depois, ele avisou que outra pessoa assumiria as cobranças, um homem chamado Kelvin Ramon.
Na manhã de 24 de outubro de 2025, a cabeleireira recebeu a ligação de uma funcionária. Nervosa, a mulher disse que Kelvin tinha ido à casa dela e estava agressivo. Enquanto as duas conversavam, o próprio Kelvin apareceu no salão. A vítima não estranhou. Pegou a chave para abrir o portão. Antes mesmo de destrancá-lo, foi puxada pelos cabelos. Kelvin tomou o celular dela e saiu. Ele foi preso dois dias depois ao tentar registrar uma ocorrência por calúnia.
O delegado da 14ª Delegacia de Polícia (Gama) Willian Ricardo explica que a presença de agiotas colombianos na região é conhecida pelas autoridades, mas geralmente as vítimas se calam. "O que percebemos é que muitos comerciantes optam por não denunciar. Precisamos que essas queixas sejam prestadas."
