Literatura

Lucila Silva transforma traumas da infância em livro premiado

Em "É bom quando o pai viaja", escritora revisita violências vividas na família e questiona o silêncio que protege agressores e dificulta a identificação de abusos contra crianças

Lucila Silva -  (crédito: Leo Kairos)
Lucila Silva - (crédito: Leo Kairos)

“É bom quando o pai viaja” é uma frase que, à primeira vista, poderia expressar apenas o alívio de uma criança diante da ausência temporária do pai. No livro homônimo da escritora catarinense Lucila Silva, porém, a afirmação revela uma realidade marcada pelo medo e pela violência dentro de casa. Inspirada em acontecimentos reais de sua história familiar, a obra aborda as marcas das violências psicológica, sexual e doméstica na infância. Em 2025, o romance de autoficção conquistou o terceiro lugar no Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, na categoria Romance de Autor Catarinense.

Escrito quando a autora tinha 60 anos, o livro nasceu da decisão de transformar em literatura experiências que permaneceram silenciadas durante décadas. A narrativa acompanha três irmãos, duas meninas e um menino, que crescem em um ambiente familiar marcado pelo autoritarismo paterno e pelo abuso sexual. Sob a aparência de uma família tradicional, a violência se mistura à rotina, aos costumes e à religiosidade, enquanto o sofrimento das crianças permanece invisível para os adultos ao redor.

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Revisitar essas lembranças por meio da escrita foi, para Lucila, uma experiência transformadora. Segundo a autora, algumas memórias existiam de maneira fragmentada, como cenas isoladas, e a literatura permitiu observar o passado sob outra perspectiva. A intenção, entretanto, não era encontrar explicações definitivas para o que aconteceu, mas compreender o silêncio, o medo e as estratégias desenvolvidas durante a infância. “A literatura não apaga nada disso, não apaga esses eventos e não resolve o passado. Mas ela pode dar forma ao que antes parecia impossível de nomear”, afirma.

A escolha de não narrar a história em primeira pessoa também foi importante nesse processo. Para Lucila, a mudança de perspectiva permitiu que a experiência ultrapassasse o âmbito individual e alcançasse outras crianças que vivem situações semelhantes. 

As diferentes respostas ao medo

Ambientada na primeira colônia alemã de Santa Catarina, a narrativa incorpora elementos da cultura, da linguagem e dos costumes da região. Ao longo da história, os irmãos desenvolvem maneiras próprias de lidar com a violência. Uma das crianças canta quando sente medo, outra anda de costas e o terceiro corre para o mato. Os comportamentos, aparentemente distintos, representam tentativas de encontrar segurança em uma realidade que não conseguem controlar.

É bom quando o pai viaja propõe uma reflexão sobre a responsabilidade dos adultos diante de sinais de violência infantil. Para Lucila, a sociedade ainda precisa aprender a escutar as crianças e reconhecer que o trauma nem sempre se manifesta por meio de relatos claros ou marcas físicas. Mudanças de comportamento e manifestações aparentemente sutis, como voltar a fazer xixi na roupa, podem indicar sofrimento e merecem atenção, embora não sejam, isoladamente, provas de abuso.

A autora explica que mostrar essas diferenças foi essencial para evitar uma visão simplificada das reações infantis diante do abuso. As crianças não dispõem necessariamente de recursos emocionais ou de vocabulário para compreender o que acontece, muito menos para enfrentar diretamente o agressor. Em determinadas circunstâncias, o silêncio e a obediência podem parecer as únicas alternativas possíveis.

O medo também envolve a possibilidade de represálias contra os próprios irmãos ou contra a mãe, o que dificulta ainda mais a revelação da violência. Nesse contexto, a imaginação, a rebeldia e até mesmo a submissão podem funcionar como mecanismos de sobrevivência. “Por trás de cada comportamento, existe uma tentativa de lidar com o medo”, resume a escritora.

A obra também questiona o peso da autoridade paterna em uma cultura na qual a obediência aos pais é frequentemente tratada como um princípio inquestionável. A expressão “Bença, Pai”, associada à educação e à tradição religiosa, ganha outro significado diante da violência narrada.

Na história, a religiosidade da mãe e os valores tradicionais da família compõem um ambiente no qual o questionamento da autoridade se torna difícil. Lucila, contudo, ressalta que não pretende responsabilizar a tradição ou a religião pela violência, mas mostrar como determinados valores podem ser distorcidos quando a preservação da imagem familiar se sobrepõe à proteção das crianças.

“O problema está mais naquilo que acontece quando valores como a obediência, o respeito e a preservação das famílias são colocados acima da proteção de uma criança”, diz.

A escritora defende que o cuidado exige sensibilidade para interpretar esses sinais e disposição para acolher a criança sem julgamentos. Ela também chama a atenção para as perguntas dirigidas a pessoas que relatam ter sofrido violência, especialmente aquelas que questionam por que a vítima demorou a falar ou não reagiu ao agressor.

Esse tipo de abordagem transfere à vítima uma responsabilidade que não lhe pertence. Escutar significa acreditar na possibilidade de seu relato, oferecer acolhimento e respeitar o tempo necessário para que consiga falar sobre a experiência.

A autora recorre a um provérbio africano, que conheceu por meio do historiador, ativista e escritor Ailton Krenak, para sintetizar essa perspectiva: "é preciso uma aldeia inteira para educar e cuidar de uma criança". Mais do que educar, a sociedade precisa desenvolver formas efetivas de proteção.

Da história particular à identificação coletiva

O reconhecimento no Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, em 2025, teve um significado especial para Lucila e os irmãos, que precisaram tomar juntos a decisão de permitir que uma experiência íntima deixasse o espaço privado e se tornasse pública. A premiação representou, segundo a escritora, uma forma de acolhimento e a confirmação de que a história poderia encontrar leitores e produzir identificação.

A autora ressalta que os registros oficiais não conseguem dimensionar integralmente o problema, já que muitos casos nunca chegam a ser denunciados. É nesse cenário que a literatura assume uma dimensão coletiva. Ao narrar a experiência de três crianças que encontram alívio na ausência do próprio pai, Lucila busca contribuir para que outras pessoas reconheçam situações antes difíceis de nomear e para que o silêncio deixe de ser confundido com ausência de sofrimento.

“O reconhecimento mostrou-nos que a nossa história podia ultrapassar a experiência individual e alcançar outras pessoas e mostrar, principalmente, que este tipo de coisa não acontece somente na casa dos outros, que não tem classe social, que pode acontecer ali do nosso lado – ou até no quarto ao lado – e nós não percebemos. Mais do que uma validação pessoal, eu vejo o prêmio como uma confirmação da potência da literatura, em primeiro lugar, para falar sobre aquilo que muitas vezes permanece escondido”, afirma.

Serviço

É Bom Quando o Pai Viaja

Autora: Lucila Silva; Editora: Yantra; Gênero: Autoficção; Preço: R$64,90.

*Estagiária sob a supervisão de Nahima Maciel

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EB
postado em 23/10/2026 12:13
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