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Marido de Patrícia Abravanel organizou festa de Vorcaro com 120 mulheres para políticos

Uma nova polêmica envolvendo o dono do Banco Master e o ex-Ministro de Jair Bolsonaro tem dado o que falar na web

A festa de Halloween organizada por Daniel Vorcaro em 31 de outubro de 2023 foi cercada por uma preocupação central: manter o evento longe dos celulares e dos olhos do público.

Realizada na casa noturna Madame Underground Club, conhecida como Madame Satã, na Bela Vista, em São Paulo, a celebração reuniu 140 pessoas, sendo 120 mulheres e 20 homens. O endereço só foi compartilhado com os convidados no próprio dia.

Mensagens de WhatsApp obtidas pela revista Piauí em um relatório da Polícia Federal mostram que a organização da noite envolveu o ex-ministro de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, e o promoter Tiago Polo.

A divisão de tarefas era clara: Faria, que também é marido de Patrícia Abravanel, ficou encarregado de levar um grupo restrito de homens, enquanto Polo atuou na convocação das mulheres.

Entre os nomes mencionados nas conversas estavam o senador Davi Alcolumbre, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Em 24 de outubro, uma semana antes da festa, Faria escreveu a Vorcaro: “Davi e Pacheco fechado para terça. Chamei Toffoli tb”.

Na mesma conversa, o ex-ministro revelou que Alcolumbre queria saber sobre a presença das chamadas “suíças”: “Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer. E na segunda quero ir lá no banco com os meus sócios do escritório.” Vorcaro respondeu: “Virão, sim.”

O print dessa conversa já havia sido divulgado pelo site Fatos Online, mas a fonte teve acesso ao conteúdo completo.

A preocupação com o perfil dos convidados femininos aparece repetidamente nas mensagens. Em 25 de outubro, Polo informou a Vorcaro que havia procurado três agências de modelos.

“Irmão, costurei várias agências pra gente conversar. Mega, Ford, Joy, enfim quando quiser retomar esse assunto, me fala”, escreveu o promoter.

Vorcaro, entretanto, mencionou a Allure e estabeleceu uma restrição para os homens que participariam do evento: “Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém desconfortável.”

A própria dimensão da festa preocupava o banqueiro. Naquele mesmo dia, ele procurou Faria para saber quem havia confirmado presença:

“Fala, irmão. Tudo bem? Me passa depois quem tá confirmado. Só pra eu ter uma ideia de número.” Faria respondeu que “Davi e Pacheco” estariam presentes e explicou que Toffoli tentaria comparecer porque presidia uma sessão da segunda turma do Supremo naquela terça-feira: “Toffoli também vai tentar pq preside uma sessão na terça.”

Outro político foi lembrado durante a conversa. “Ciro não?”, perguntou Vorcaro, numa provável referência ao senador Ciro Nogueira. Faria respondeu que ele tinha uma viagem marcada.

O controle sobre a identidade dos participantes e a localização também fazia parte dos preparativos. Vorcaro evitou informar antecipadamente o endereço da boate e resumiu o local como “Vai ser num lugar perto do Rosewood, ultra tranquilo”. O hotel de luxo fica na Bela Vista, nas proximidades da Avenida Paulista.

Em determinado momento, o banqueiro revelou a proporção que havia alcançado entre homens e mulheres: “Cara, tem 120 mulheres e 20 homens. Tô tendo que tirar mulher porque não tá cabendo.”

A presença de Wesley também apareceu nas mensagens. Faria avisou que uma pessoa identificada pelas iniciais “MV” procuraria Vorcaro para saber se poderia “chamar o Wesley”. A resposta foi: “Óbvio, né.”

As iniciais foram associadas à possibilidade de se tratar do advogado Marcus Vinícius Furtado Coêlho, que representa os irmãos Wesley e Joesley Batista e também atua para Vorcaro.

Dados da Receita Federal indicam que Vorcaro pagou 27,5 milhões de reais ao escritório do advogado somente em 2025.

Sobre a possível presença de Wesley, Vorcaro afirmou: “Vai ser bom demais.” Em seguida, voltou a enfatizar o controle sobre os aparelhos eletrônicos: “Telefone na porta.” Faria respondeu: “E segurança dentro.”

O receio de que imagens ou informações sobre a festa chegassem às redes sociais aparece de forma recorrente no diálogo.

Faria defendeu a redução da presença de brasileiras e uma preferência por estrangeiras, argumentando que um vazamento poderia gerar publicidade. Vorcaro respondeu: “Relaxa que vai ser zero stress.”

Faria insistiu: “Pq tem publicidade um vazamento desses.” Vorcaro respondeu: “Claro, mas sem tel total.” Na sequência, ao explicar o perfil que desejava para as convidadas, foi direto: “Só menina nova. Metade de fora e as daqui conhecemos.”

Faria aprovou a ideia e comentou sobre outro evento que havia virado notícia: “Boa. Pq tá na moda essa porra. Ontem vazou a festa do Neymar.”

A referência era à festa promovida por Neymar em sua mansão em Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro, enquanto Bruna Biancardi permanecia em São Paulo cuidando de Mavie, filha recém-nascida do casal.

A preocupação de Vorcaro com um eventual vazamento foi reforçada em outra mensagem: “Se vazar, eu tô morto. Peguei equipe só de controle disso. Não vai vazar nada. Não será primeira nem última.”

Ele também procurou diferenciar a festa da imagem que poderia ser associada à dinâmica descrita nas conversas: “E outra: festa vai ser bacana, não é festa de putaria. Se alguém falar algo, era evento do banco para parceiros de Halloween.”

A Polícia Federal registrou ainda a transcrição de um áudio enviado por Faria. Na gravação, ele fala sobre os convidados e menciona, sob a interpretação dos investigadores, os deputados Arthur Lira e o ministro Alexandre de Moraes:

“É, eu sei. Mas, pô, eu, por exemplo, estou falando que vou dormir em Brasília, entendeu? É só pra dar confiança pros caras. Falou, pro Arthur, todo mundo, pô, vai trazer todo mundo. Mandei aqui pro Toffoli. Pô, dá até para trazer o Alexandre numa dessa, entendeu? Quando for só de fora, então é caprichar nisso aí. De repente trazer menos brasileira hoje, porra, que já está bom pra caralho e a gente vê. Mas se você toca aí. Abraço.”

O endereço permaneceu em sigilo até 31 de outubro. No dia da festa, Vorcaro finalmente enviou a localização para Faria: “Rua Conselheiro Ramalho, 873, Bela Vista.” O endereço corresponde ao Madame Satã.

A preocupação com possíveis registros da noite não terminou quando o evento começou. No dia seguinte, Vorcaro reagiu à publicação feita por uma das convidadas no TikTok. O vídeo tinha o título “MELHOR FESTA DE HALOWEEN” e mostrava uma mulher loira, descrita no relatório da PF como tendo perfil de “novinha”.

Ao identificar a publicação, Vorcaro procurou Polo e escreveu: ‘Cara, quem é essa puta?” O promoter respondeu que se tratava de uma “amiga do Lukas” e, depois, escreveu “pqp”.

Vorcaro então ordenou a retirada imediata do conteúdo: “Vai tomar no cu. Manda tirar agora. Isso. Agora.” Polo afirmou ter o contato da mulher e disse que faria uma ligação. O vídeo acabou apagado.

Segundo o relatório, a segurança contratada para a ocasião não permitia fotografias nem mesmo da área externa ou da fachada da boate.

Uma mulher que esteve na festa relatou à fonte, sob condição de anonimato, detalhes da estrutura do evento.

Segundo ela, as convidadas usavam fantasias e o ambiente estava “escuro, muito bem-decorado”, com sistema de open bar e open food. Entre os alimentos, havia uma mesa de queijos e diferentes opções de sushi.

A programação musical incluía os DJs suecos Swedish House Mafia, o bósnio Solomun e o brasileiro Vintage Culture.

“Tinha muita mulher mesmo, e muitas delas, gringas”, relatou a convidada. Ela afirmou não ter presenciado nenhuma atividade sexual durante o período em que esteve no local e explicou: “Eu saí cedo porque estava muito quente.”

Os responsáveis pelas três principais agências citadas nas mensagens negaram envolvimento com o envio de modelos para a festa.

Eli Hadid, proprietário da Mega, afirmou não conhecer Vorcaro pessoalmente, apesar das referências feitas pelo banqueiro nas conversas.

“Eu não conheço o Vorcaro apesar de ele me citar várias vezes. Eu nunca vi o Vorcaro, eu nunca quis chegar perto dele. Ele pode falar o que ele quiser. Ele não vai falar que pegou mulher da favela, né? As modelos da Mega não podem frequentar festas nem andar com promoter. Não prestamos esse serviço, e se eu souber de algo ligado à festa e prostituição, eu mando embora”, afirmou.

Hadid, que já teve em seu casting modelos como Isabeli Fontana, Ana Beatriz Barros e Ana Hickmann, acrescentou: “Eu demito quem frequenta festas e anda com promoters”, diz Hadid. “O Vorcaro já quis me conhecer uma vez, eu não quis. Não permito prostituição.”

Liliana Gomes, sócia da Joy, responsável por carreiras como as de Daiane Conterato e Dani Pontes, também afirmou que sua empresa não aceita esse tipo de atividade.

“O promoter é um inimigo das agências”, diz ela. “Você acha uma menina linda e maravilhosa, traz para São Paulo, o cara vai lá, apresenta ela pra um playboy e a gente perde a modelo. Não toleramos esse tipo de comportamento.”

Décio Restelli Ribeiro, presidente da Ford Models no Brasil, negou igualmente qualquer participação da agência. “Eu te garanto que isso não aconteceu, não trabalhamos com festas, nem nunca vi o Vorcaro na vida”, diz.

No mercado de modelos, promoters podem fazer convites diretamente a profissionais, sem passar pelas agências. As empresas do setor, porém, rejeitam esse tipo de prática quando envolve seus castings.

Felipe Nisti, proprietário da Allure, agência com atuação mais concentrada no mercado comercial, também negou ter enviado modelos para o evento.

“Essas festas não são boas para a carreira das modelos, nenhuma agência negocia esse tipo de trabalho”, conta Nisti.

Existe no mercado a informação de que Vorcaro seria sócio oculto da Allure. Nisti rejeitou a afirmação, classificando-a como maledicência da concorrência, e declarou que nunca esteve pessoalmente com o banqueiro.

Segundo ele, houve apenas uma sondagem feita por Polo: “O Tiago [Polo] uma vez perguntou para mim se tinha possibilidade de investimento, sem citar o nome de quem seria o investidor”.

Fábio Faria, procurado pela reportagem, afirmou que sua participação ficou restrita ao envio dos convites.

Em nota, declarou: “[Faria] conheceu Daniel Vorcaro em um fórum empresarial, em outubro de 2023. Dias depois, a pedido do anfitrião, transmitiu convites a amigos em comum para um evento privado. Sua participação se limitou a isso.”

O advogado Marcos Vinícius Furtado Coêlho negou ser a pessoa identificada pelas iniciais “MV” nas mensagens. Ele afirmou que estava em Brasília na data da festa e declarou: “Eu não participei da festa e estava em Brasília nessa data.”

A reportagem tentou contato com Tiago Polo pelo telefone registrado no relatório da Polícia Federal e também por seu perfil no Instagram, que reúne 107 mil seguidores. Não houve resposta.

A assessoria de Wesley Batista também negou a ligação do empresário com o evento. “Não há qualquer elemento que permita identificar Wesley Batista como o ‘Wesley’ mencionado nas mensagens. O que se pode afirmar categoricamente é que Wesley Batista nunca participou de qualquer festa promovida por Daniel Vorcaro.”

Gé Rodrigues, sócio do Madame Satã, disse que o espaço não foi alugado diretamente em nome de Vorcaro.

“Não compactuo com nada disso que estou vendo no noticiário, somos uma casa underground. Foi uma produtora quem alugou”, afirmou. Questionado sobre qual produtora havia contratado o espaço, disse que consultaria o sócio, mas não apresentou posteriormente a informação.

Também houve negativas por parte dos políticos citados nas conversas. A assessoria de Dias Toffoli informou que o ministro não esteve na festa. Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco igualmente negaram presença.

“No dia 31 de outubro de 2023, o senador Davi Alcolumbre estava em Brasília, cumprindo agenda de trabalho no Senado Federal”, afirmou a assessoria de Alcolumbre.

Pacheco declarou: “Não participei desta festa ou de qualquer outra”. Em seguida, explicou: “Eu estava em Brasília no dia, presidindo a sessão do Senado até o período noturno com televisionamento ao vivo, o que é facilmente verificável pelos registros públicos.”

As assessorias de Alcolumbre e Pacheco acrescentaram que os dois senadores jantaram juntos em Brasília naquela noite.

 

 

 

 

 

 

 

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