Multidão de indecisos

Multidão de indecisos

PAULO DE TARSO LYRA
postado em 16/06/2014 00:00
 (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press - 22/7/09
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(foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press - 22/7/09 )


A quatro meses das eleições presidenciais, um a cada três brasileiros não sabe em quem votará para presidente ou está decidido a marcar branco ou nulo na urna eletrônica. Esse percentual de 30% a 35% é o maior desde as eleições de 1989, as primeiras após o processo de redemocratização vivido pelo país. Um mix de fatores pesa para compor essa equação, segundo a opinião de analistas ouvidos pelo Correio. Os eleitores estão desiludidos com a política; estão mais interessados na Copa do Mundo do que nas eleições; e, por fim, ainda não encontraram uma via suficientemente atrativa para se encantar.

Segundo o professor de ciência política da Universidade de Brasília Lúcio Rennó, esse desencanto com a política (e, como consequência, com os políticos) não é um privilégio do Brasil. Recentemente, os chilenos foram às urnas eleger a presidente Michelle Bachelet. Pela primeira vez na história do país, o voto não foi obrigatório. ;Resultado? 60% de abstenção;, apontou Rennó.

A Copa do Mundo no Brasil, com jogos disputados nas principais cidades, também serve como elemento de dispersão. ;A política sai da agenda e só vai retornar após o término do Mundial. Mas não há dúvidas de que existe um clima de pessimismo generalizado no país que antecedeu o início da Copa;, completou ele. Rennó acha prematuro afirmar que esse alto índice de rejeição vai perdurar até outubro. ;O que podemos afirmar, com certeza, é que a eleição está em aberto. Essa liderança momentânea da presidente Dilma não é consolidada, e a oposição tende a crescer quando tiver uma exposição maior;, acredita ele.

Para o cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Rui Tavares Maluf é compreensível que, neste momento, as atenções dos brasileiros estejam direcionadas à Copa do Mundo e não às eleições. Ele acredita que, quando o processo eleitoral esquentar de fato, o que deve acontecer a partir de agosto, com o início da propaganda eleitoral de rádio e tevê, esse percentual de votos brancos/nulos/indecisos diminua.

Maluf admite que parte dessa desilusão esteja no imaginário popular desde as manifestações que lotaram as ruas do país em junho de 2013. Um ano depois, as passeatas minguaram. Teria a população ficado desencantada após o baixo resultado prático das reivindicações de 2013? ;Não creio que seja isso. É verdade que pouca coisa saiu do papel. Mas as pessoas também se afastaram porque as manifestações estão repletas de black blocs;, disse o cientista político.

Ele lembrou que, além dos manifestantes mais violentos, outros protagonistas tomaram as ruas neste ano. ;Você vê os partidos de esquerda, como o PSol e os sindicatos, como os metroviários de São Paulo e Rio, comandando os protestos. No ano passado, esses grupos foram ostensivamente impedidos de participar das passeatas;, declarou Maluf.

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