Rigor em investigação

Rigor em investigação

Secretário de Justiça visita Ferguson, cidade transformada em foco de tensões raciais, e promete apurar morte de jovem negro. Jornalistas foram detidos na noite de terça-feira

LUCAS FADUL
postado em 21/08/2014 00:00
 (foto: Pablo Martinez Monsivais/AFP)
(foto: Pablo Martinez Monsivais/AFP)



A pedido do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o secretário de Justiça, Eric Holder, viajou ontem à cidade de Ferguson, no estado de Missouri, para tentar conter as tensões raciais deflagradas pela execução de um jovem negro. Michael Brown, 18 anos, estava desarmado quando foi morto por um policial branco, há 12 dias. Holder encontrou-se com líderes locais e com o capitão da polícia rodoviária, Ron Johnson, que confirmou a detenção de mais 47 pessoas envolvidas nos distúrbios de terça-feira à noite. De acordo com a agência de notícias France-Presse, o 10; dia de protestos foi marcado por relativa calma, apesar de os manifestantes terem atirado garrafas cheias de água e de urina contra os policiais. ;Observamos uma dinâmica diferente;, declarou Johnson, insistindo que não foi necessária a utilização de gás lacrimogêneo.

Holder, também afrodescendente, prometeu uma investigação ;completa, imparcial e independente;, mas afirmou que ela ;levará tempo;. De acordo com o promotor Bob McCulloch, a expectativa é de que apuração dure até dois meses. ;Nossa data-alvo é até meados de outubro;, indicou. A promotoria do condado de St. Louis começou a apresentar a um júri do município de Clayton evidências preliminares sobre a morte controversa do adolescente, ocorrida em 9 de agosto. Em frente ao Centro de Justiça local, um grupo de manifestantes questionou a imparcialidade de McCulloch, cujo pai foi morto por um assaltante negro. ;Eu quero fazer o meu trabalho. A família Brown merece isso. E a comunidade também;, afirmou o promotor. Por sua vez, Anthony Gray, um dos advogados da família do adolescente, revelou que o funeral do jovem será aberto à população e terá a presença de ;líderes nacionais;.

Tom Walters, chefe da sucursal da emissora CTV em Los Angeles, estava entre os vários jornalistas detidos durante os protestos da noite de terça-feira. Ele teria sido preso após tentar fazer uma pergunta ao capitão Johnson, mas acabou liberado ontem pela manhã. Além de Walters, um repórter de uma rede turca de televisão também foi levado pela polícia. Desde a morte de Brown, vários profissionais da imprensa foram presos em Ferguson, cidade cuja maioria da população é negra.

De acordo com um comunicado divulgado pela polícia de St. Louis, um oficial foi suspenso após apontar um rifle contra um manifestante. Em coluna publicada pelo jornal The Washington Post, o agente veterano Sunil Dutta, do Departamento de Polícia de Los Angeles, provocou polêmica em todo o país ao defender a atuação das forças de segurança em Ferguson. ;Eu sou policial. Se você não quiser se machucar, não me desafie;, escreveu Dutta, há 17 anos no exercício da profissão. ;(;) Se você não quiser levar um tiro, choque elétrico, uma borrifada de pimenta, ser golpeado com um cassetete ou jogado ao chão, apenas faça o que eu digo;, acrescentou. Em entrevista à rede de tevê CNN, o veterano afirmou que, fora do contexto, as frases não fazem sentido. ;Eu explico muito bem no artigo. No momento da detenção, o suspeito tem que cooperar;, alegou.

Prisão preventiva
Para o norte-americano David Fleischer, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), ;a morte do segundo jovem piorou muito o quadro de tensão no estado do Missouri;. ;É preciso haver mais treinamento para os policiais. O problema racial nos EUA não acabou, mas pode diminuir, dependendo da atitude dos governos;, afirmou ao Correio, por telefone. ;Este é mais um triste episódio no país. A última vez foi em Los Angeles, quando um motorista negro de caminhão foi espancado e morto por policiais brancos, em 1992, o que causou uma violenta onda de protestos;, lembrou Fleischer, que defende a prisão preventiva do policial Darren Wilson, 28 anos, responsável pela morte de Michael Brown. ;O Ministério Público precisa fazer esse pedido para proteger a vida do acusado. É óbvio que a vida de Wilson corre grave perigo;, conclui.

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