Farsa terrorista assusta a capital

Farsa terrorista assusta a capital

Agricultor faz refém em hotel, ameaça explodir falsa bomba e mobiliza policiais. Tudo em nome de reivindicações genéricas

» ROBERTA PINHEIRO » SAULO ARAÚJO
postado em 30/09/2014 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)




Durante sete horas, as forças de segurança da capital tiveram de lidar com uma ameaça terrorista. Acostumados com sequestros clássicos, em que o autor normalmente é um assaltante, os policiais negociaram com um homem que trazia uma lista de reivindicações genéricas e prometia explodir um funcionário do St. Peter Hotel, no Setor Hoteleiro Sul, e tudo a sua volta.

Antes das 9h, os primeiros agentes cercaram o local. Poucos minutos depois, um exército de quase 200 policiais militares, civis e federais, além de servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), se posicionou em frente ao estabelecimento situado no coração da capital, a menos de 2km do Congresso Nacional. A tensão atravessou a manhã e só terminou sete horas depois, sem nenhum ferido.

Ao conseguir a rendição do acusado, a equipe de negociadores descobriu que o sequestrador Jac Sousa dos Santos, 30 anos, portava armas falsas: a pistola era de brinquedo. E o colete com bananas de dinamite amarrado à vítima, o mensageiro do hotel José Aírton de Sousa, 50 anos, não passava de uma engenhoca produzida com placa de computador, canos de PVC e fios.

Embora a ameaça tenha sido um blefe, o pânico e o medo se mostraram reais. O país acompanhou o drama do funcionário mantido refém. A repercussão alcançou a mídia internacional. Portais dos mais importantes veículos de comunicação do mundo trataram com destaque a notícia do sequestro e da ameaça de bomba na capital do Brasil.
As horas se passavam e, à medida que as informações chegavam, mais tensa ficava a situação. No início, a polícia isolou uma área de 30m, mas diante das sucessivas ameaças de Jac de acionar as supostas dinamites, o perímetro de segurança foi ampliado para 100m. Ex-secretário de Agricultura e Juventude do pequeno município de Combinado, no Tocantins, Jac se mostrou disposto a amedrontar os moradores do Distrito Federal.

Além de manter sob a mira de uma pistola falsa o mensageiro do St. Peter, o suspeito contou ter deixado outros dois supostos artefatos na Rodoviária do Plano Piloto e no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, alterando a rotina de pontos movimentados de Brasília. No terminal aeroportuário, militares do esquadrão antibomba detonaram uma caixa abandonada, que, na verdade, continha um jogo de peças de xadrez.

Jac começou a colocar em prática o plano de aterrorizar Brasília na última sexta-feira, quando escreveu três cartas: uma para a mãe; outra para o tio; e uma terceira que ficou na casa dele. Numa delas, pediu desculpas pelo ;ato trágico; que cometeria, mas ;após a tempestade passar, tudo melhoraria;. De carro, saiu de Combinado, onde mora, e viajou sete horas até chegar a Brasília. ;As cartas tinham um tom de despedida. Ele citava o meu nome, o da minha mãe e o dos meus tios;, comentou a irmã do sequestrador, Jeile dos Santos, 31 anos, moradora de Goiânia.

Calma da vítima

No domingo, Jac fez uma reserva no hotel, na Quadra 2 do Setor Hoteleiro Sul, mas, horas depois, cancelou. Ligou de novo e pediu outro quarto, no 13; andar e solicitou um notebook. Por volta das 5h de ontem, chegou ao local e fez check-in com a Carteira de Identidade original. Duas horas depois, chamou o serviço de lavanderia. A camareira chegou a ser rendida , mas passou mal diante da ameaça. O sequestrador, então, algemou José Aírton, que se encontrava no mesmo andar.

As equipes da Divisão de Operações Especiais (DOE) e do Bope consideraram a frieza da vítima fundamental para o desfecho do caso. Em liberdade, o mensageiro recebeu abraços da mulher e do filho, que acompanharam tudo de perto. Mais tarde, José Aírton passou mal e precisou ser atendido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). ;A tranquilidade do José Aírton, além deixar o sequestrador calmo, contribuiu para o sucesso da operação;, afirmou o chefe da Comunicação Social da Polícia Civil do DF, delegado Paulo Henrique. Jac está preso e responderá por sequestro com o agravante de colocar a vítima em situação de pressão e abalo moral.

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