Sevilhizando o mundo

Sevilhizando o mundo

A capital regional que encantou poeta pernambucano continua a deslumbrar turistas por suas ruas agradáveis tanto no inverno quanto no verão, pela catedral imponente e por outros monumentos históricos

postado em 26/11/2014 00:00
 (foto: Renato Ferraz/CB/D.A Press)
(foto: Renato Ferraz/CB/D.A Press)

;Qual o segredo de Sevilha?;
;Saber existir nos extremos/
como levando dentro a brasa/ que se reacende a qualquer tempo;

João Cabral de Melo Neto,
poeta pernambucano que morou em vários lugares na Espanha e era um confesso apaixonado pela capital da Andaluzia

Sevilha é uma das cidades mais quentes da Europa. No fim do século 17, à beira do calmo Rio Guadalquivir, menos de 10 metros acima do nível do mar, registrou-se 50;C. Em 1995, os termômetros subiram para 46,6;C. A média anual, porém, é agradabilíssima, na faixa dos 18;C, e o inverno é bem suave, com janeiro chegando, no máximo, aos 5;C. Daí porque João Cabral de Melo Neto (1920-1999) fala dos extremos. E ele conhece bem a região.


O poeta morou na cidade nas décadas 1950 e 1960 ; e como diplomata, trabalhou no Senegal, na França (Marselha), Madri, Genebra, Berna... Seguir algumas dicas do pernambucano é importante para conhecer ; e gostar ; de Sevilha.
Não espere, porém, orientações diretas. A belíssima e grandiosa catedral é definida por ele como ;um enorme touro em pé;, que desponta ;na graça rasa de Sevilha;.


Aliás, nenhum prédio podia ser mais alto do que o monumento religioso até que o poder econômico fez as autoridades capitularem ; e, hoje, nasce um feioso edifício imenso que, de certas áreas, cobre a vista da igreja. Uma pena.
A catedral, com o imponente campanário, é o monumento gótico cristão de maior superfície do mundo, e, desde 1987, é considerada patrimônio da humanidade. Tem uma história curiosa, mas que reflete a evolução da ocupação regional: entre idas e vindas de mouros e cristãos, sofreu influência renascentista, barroca, ganhou torre, resistiu a terremotos e manteve-se imponente.


Duas características remetem ao povo árabe: o Pátio de los Naranjos, onde os fiéis muçulmanos faziam as abluções, e o campanário La Giralda ; que ainda tem as formas do minarete do século 12. Enfim, as proporções apequenam os humanos diante do divino e fazem sentir mais perto de Deus.


Não deixe de ir ao túmulo que guarda os restos mortais de Cristóvão Colombo. Se bem que a República Dominicana (e até Cuba) alegam que os restos do conquistador estão por lá. E Melo Neto lembra do fato: ;Lá (em Sevilha) se admira a terceira tumba/ de Colombo, como outras falsa./ As de Cuba e de São Domingos/ pretendem também a carcaça;.
Santa Cruz

O Palácio Alcázar, construído em 913, também merece ser visto ; e por sua beleza de influência moura e cristã, com tapetes, pátios, móveis, paredes em gesso e azulejos. Rodeado por muralhas, é habitualmente usado pela família real espanhola e por chefes de Estado em visita à cidade. É o palácio real mais antigo da Europa ; e é até reconhecido como tal pela ONU.
Caminhe pelo Bairro de Santa Cruz, antiga morada dos judeus (morada para ser gentil, claro: era um gueto para o povo judaico espanhol que foi forçado a sair da Espanha no fim do século 15, no comecinho da Inquisição.


Passeie devagar pelas ruas estreitas e sinuosas, curtindo bares e tabernas, veja lojas de arte e artesanato (mas cuidado com a invasão de produtos Made in China). Saibam, por sinal, por que as ruas estreitas são encantadoras: no frio, ajudam a aquecer; no verão, amenizam o intenso e sufocante calor.


Se der, visite um pátio clássico onde as famílias, ainda hoje, passam as tardes quentes. Ele fica na parte interna e tem muitas plantas, principalmente bouganvilles.


Vá também à Plaza de Espanha, construída em 1929, e à Plaza de Toros La Maestranza, onde acontecem as famosas touradas (a temporada, por sinal, só começa em abril, mas o museu fica aberto sempre). (R.F.)

Sevilhizar o mundo
Como é impossível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,
infundir na terra esse alerta,
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma vida
guerrilha do ser, pode a guerra.

João Cabral de Melo Neto

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