Sem céu, sem chão

Sem céu, sem chão

postado em 13/12/2014 00:00

Dezembro é um mês triste para quem, como eu, depende desesperadamente do céu e do Sol para existir. O mês 12 é cruel: mantém os brasilienses presos sob a volumosa tristeza das nuvens. Não chega a ser feio o último mês do ano. Tem um quê de beleza o mar de algodão que flutua sobre nossas cabeças. Mas me imobiliza, como a um passarinho sem asas.
Mesmo fechado em um futuro de chuvas, o céu de Brasília não perde a grandiosidade. De um mesmo ponto fixo, tem-se uma aula de nuvenologia, com o perdão do neologismo. A mil metros acima do nível do mar, sobre um domo entre chapadas, veem-se nuvens que vão do branco angelical ao cinza tenebroso. Camadas de montanhas liquefeitas se superpõem acima do horizonte.


Tento encontrar um lugar de descanso ; nuvens lembram cobertores, travesseiros, colchões. Em vão. Elas me sufocam, embora sejam promessa de chuva, de renovação, portanto. Deveriam lavar minha alma, minh;alma, mas que posso fazer se sou geneticamente constituída pelo céu de Brasília?


É ele quem me mobiliza, me oferece a amplitude, ilumina minha escuridão. É o mar que o Criador deitou de ponta-cabeça sobre Brasília. O infinito cor de anil aquieta minhas aflições. Se ele existe, estarei nele algum dia. Não porque tenha a pretensão de merecer o paraíso, mas porque ele é tanto que sou parte dele, somos todos partículas do céu.


Sem porta de saída, procuro graça nas nuvens. As gigantes, que anunciam trovões e se impõem como um deus raivoso, essas têm o nome de cumulonimbus. Quando elas chegam, o céu se esconde para muito longe e eu me escondo com ele. Viro jabuti dentro do casco. As stratocumulus são menos devoradoras. Têm cor que variam do cinza virulento ao cinza delicado, mas sempre cinza. Não há horizonte, nem os de Brasília, que sobrevivam a elas.


O serviço de meteorologia, meu horóscopo, avisa: os três próximos dias serão sufocantes. Estarei sob o domínio de nuvens escuras, pesadas, trovejantes. Embora chova, me falta o ar.


Sem a imensidão do firmamento, perco a noção do espaço ; não sei mais onde é longe ou onde é perto, onde começa e onde acaba. Fico sem bússola ; norte, sul, leste e oeste são direções difusas. Sem o céu, fico presa em mim mesma, não tenho para onde ir nem o que fazer. Pra quê? Por quê?


A coisa se complica ainda mais quando penso que dezembro não termina em dezembro. Ele se estenderá até março ou abril, ou seja, terei mais três ou quatro meses de incertezas escondidas.


Por que fiquei assim, se vim de uma cidade onde chove dia sim e outro também?
Brasília é a Galápagos de um Darwin modernista. As espécies que aqui chegaram há muito tempo desenvolveram uma dependência biológica do céu, do horizonte, do azul, da claridade. Tentarei hibernar até março/abril. É em maio (maio) que as espécimes brasilienses trocam de pele e reiniciam um novo ciclo da vida.

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