Carnificina em Istambul

Carnificina em Istambul

Três homens-bomba invadem terminal do Aeroporto Internacional de Ataturk, disparam os fuzis AK-47 contra policiais e turistas, e detonam a carga de explosivos. Pelo menos 36 pessoas morrem e 147 ficam feridas. Suspeitas recaem sobre o Estado Islâmico

Rodrigo Craveiro
postado em 29/06/2016 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)







A forte segurança não foi o bastante para proteger do terror um dos aeroportos mais movimentados do planeta, ponto de conexão entre a Ásia e a Europa. Por volta das 22h de ontem (16h em Brasília), três extremistas armados com fuzis Kalashnikov AK-47 abriram fogo na entrada do terminal de desembarque internacional do Aeroporto de Ataturk, em Istambul, e um deles detonou os explosivos atados ao corpo. ;(A explosão) Foi muito forte. Todo mundo entrou em pânico e começou a correr em todas as direções;, contou um sobrevivente à emissora de tevê CNN-Turk. Os outros dois terroristas se explodiram logo depois. Em visita ao local da tragédia, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, confirmou que 36 pessoas morreram no ataque, lembrou que o terrorismo é uma ameaça global e responsabilizou o Estado Islâmico (EI) pela carnificina. ;Os sinais apontam para o Daesh;, disse o premiê, ao citar o acrônimo em árabe para EI. Terceiro mais movimentado aeroporto da Europa, o Ataturk possui um equipamento de raio X para cada entrada de terminal.

O atentado, que também deixou 147 feridos, coincidiu com o segundo aniversário de proclamação do califado islâmico por parte de Abu Bakri Al-Baghadi, líder do EI. De acordo com o premiê, os três jihadistas chegaram ao aeroporto de táxi. Até o fechamento desta edição, a facção não havia reivindicado a autoria do massacre. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, apelou ao mundo por uma coalizão internacional antiterrorismo. ;Não se enganem: para organizações terroristas, não há diferença entre Istambul e Londres, Ancara e Berlim, Izmir e Chicago ou Antalya e Roma. A menos que todos os governos e a humanidade inteira unam forças na luta contra o terrorismo, coisas muito piores do que tememos imaginar se tornarão realidade;, alertou. ;Está claro que este ataque está direcionado a nenhum resultado que não seja criar material de propaganda contra o nosso país, usando simplesmente o sangue e a dor de gente inocente.;

O jornalista britânico Laurence Cameron, 29 anos, faria conexão em Istambul, procedente de Riga (Letônia). ;Assim que desci do avião, vi que as pessoas gritavam e fugiam da área de controle de passaporte. Era uma grande multidão. Os policiais e funcionários se moviam na mesma direção, para longe da zona de explosão;, relatou ao Correio. Cerca de 40 minutos depois, a polícia abriu a área de imigração e permitiu que as pessoas passassem. ;Não tivemos autorização para pegar nossas malas. Quando passei pela fileira de táxis, me deparei com as paredes rasgadas abaixo. Havia sangue e pedaços de roupas no chão;, acrescentou. Ex-correspondente de guerra no Afeganistão, Cameron disse que jamais imaginava ver cenas similares às de um conflito em um aeroporto.

O jornalista Cihan Acar, 28 anos, estava em casa, a 4km do Aeroporto Internacional de Ataturk, quando soube do atentado por meio do Twitter. ;Não pude ouvir as explosões. Corri até lá. Era o caos. Vi pessoas fugindo, estavam com tanto pânico. Todas elas gritavam e tentavam carregar os feridos até as ambulâncias. Vi pelo menos 50 e elas não paravam de chegar. Foi algo terrível. Quando cheguei lá, só vi lágrimas e medo;, contou ao Correio.

Em seu perfil no Twitter, o jornalista Steven Nabil relatou momentos de horror. ;Nós acabamos de sair do aeroporto. Minha mulher foi ferida. Ficamos cara a cara com o extremista, enquanto ele atirava. Corri, puxei minha esposa para dentro de uma loja e esperei, aterrorizado, enquanto ele disparava do lado de fora;, escreveu. Ambos estavam em andares diferentes do terminal. Nabil escutou que os tiros se aproximavam da mulher. ;As pessoas desceram as escadas para ver o que o ambiente vazio, e os atiradores dispararam em nossa direção. Entramos em um closet num salão de beleza e ficamos por 45 minutos de cócoras, escondidos.;

Condenação
O ataque provocou forte reação internacional. Em nota, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou esperar que ;os autores deste ataque terrorista desprezível sejam rapidamente identificados e levados à Justiça;. Por meio de um comunicado, a Casa Branca lembrou que ;o Aeroporto Internacional de Ataturk, assim como o de Bruxelas, atacado no início do ano, é símbolo de conexões internacionais e de laços que nos mantêm coesos;. ;Nós permanecemos firmes em nosso apoio à Turquia, nosso aliado na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e parceiro, juntamente com nossos amigos e aliados, enquanto continuamos a confrontar a ameaça do terror.;

Em nota, o Itamaraty atesta que o Brasil ;manifesta sua firme condenação; aos atentados. ;Ao transmitir suas sinceras condolências aos familiares das vítimas, assim como sua solidariedade ao povo e ao governo da Turquia, o Brasil reitera firme repúdio a qualquer forma de terrorismo;, afirma. ;Não há, até o momento, registro de cidadão brasileiro entre as vítimas.;


Alvo preferencial

Istambul acumula uma série de ataques extremistas

23/12/2015
Bomba explode na madrugada no aeroporto Sabia Gokchen, o segundo maior da cidade, e mata uma funcionária da limpeza.

12/1/2016
Dez pessoas, a maior parte turistas alemães, morrem quando um homem-bomba do Estado Islâmico (EI) detona explosivos perto da Mesquita Azul e da Catedral de Santa Sofia, atrações históricas da antiga capital bizantina e otomana.

19/3/2016
Outro suicida do EI ataca, dessa vez no centro comercial de Istambul, causando cinco mortes.

12/5/2016
Carro-bomba explode em uma área militar, deixando feridos seis soldados e o motorista de uma viatura que passava.

7/6/2016
Outro atentado com carro-bomba tem como alvo a polícia, na Praça Bayazit, muito visitada por turistas. A explosão mata sete policiais e quatro civis.


Coragem e heroísmo

Testemunhas contaram que um dos policiais abordou um dos três terroristas suicidas, apenas segundos após ele detonar os explosivos atados ao corpo na entrada do terminal de desembarque internacional. Um vídeo do circuito interno de tevê do aeroporto mostra um extremista sendo baleado várias vezes por um policial e desabando no chão. Nas redes sociais, muitos internautas passaram a render homenagens ao agente, que tentou fugir do local. Até o fechamento desta edição, não havia informação sobre o estado de saúde dele.


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