Inspiração andarilha

Inspiração andarilha

Figura folclórica de Goiás Velho, Maria Grampinho é tema da coleção de jovem estilista goiana

Por Ailim Cabral
postado em 25/06/2017 00:00
 (foto: Fotos: Raphaela Boghi/Divulgação)
(foto: Fotos: Raphaela Boghi/Divulgação)

Uma mulher negra, andarilha, vista como louca por alguns, com as roupas tomadas por botões e os cabelos repletos de grampos. Maria Grampinho é uma figura quase mitológica do folclore de Goiás Velho ; que existiu em carne e osso. Inspiração para um poema de Cora Coralina no passado, as suas bonecas de pano hoje são vendidas em todas as lojas da cidade histórica.

A personagem foi a primeira boneca negra com a qual a estilista goiana Naya Violeta teve contato na infância e que a fez, finalmente, sentir-se representada em um brinquedo. Anos depois, a personagem da vida real se tornou, mais uma vez, inspiração. Desta vez, Maria Grampinho revive nas peças da coleção Andarilha, criada por Naya no início deste ano.

A estilista estava em processo de desenvolvimento da nova coleção de roupas quando visitou Goiás Velho e entrou no museu Casa de Cora Coralina. ;Eu me deparei com a foto e a história dela e aquilo me tocou. Eu revivi a memória afetiva daquela boneca da minha infância e quis contribuir para contar a história dela.;

Naya explica que um dos aspectos que mais admira em Maria Grampinho é a liberdade que parecia ter. Diz a lenda que, após uma desilusão amorosa, a possível filha de escravas escolheu viver andando, sem nunca fincar raízes. Na velhice, acabou acolhida por Cora Coralina, mas, ainda assim, não se prendia à casa da poeta. ;A história mostra que ela só ia durante a noite, para dormir. Os dias, ela passava como toda sua vida: andando pela cidade. Não era a casa dela, era o pouso.;

Ao pesquisar sobre Maria Grampinho, Naya encontrou pouco conteúdo e percebeu que a figura era invisibilizada. ;Ela tem um espaço tão grande em Goiás Velho, mas é tão pouco conhecida fora dali. Era uma mulher negra com toda uma vivência de liberdade, era dona de seu destino e acho que essa história merece ser contada;, acredita.

Naya expressa ainda o desejo de ressignificar o termo ;andarilha; de forma positiva. ;As pessoas da cidade que viveram na mesma época que ela viam Maria Grampinho como louca e tinham uma imagem muito negativa daquela figura. Chamavam-na de andarilha como se fosse uma coisa ruim e, quando conhecemos sua história, vemos o quanto ela era dona de si;, completa.

Referências

Nas roupas, a andarilha aparece de maneira sutil. Naya explica que, quando elege um tema para se inspirar, não gosta de deixá-lo caricato. Dessa forma, estuda a paleta de cores e as reproduz nas peças. As referências de tons vieram do porão da casa de Cora Coralina, do rio que passa abaixo das janelas do museu, da trouxa que ela sempre levava e da textura de pedra da cidade. O laranja, o preto, o azul e o bege dominam as saias, protagonistas da coleção. Maria Grampinho chegava a usar sete saias de uma só vez ; traço que também ganhou destaque nas criações de Naya.

Além dos inúmeros grampos na cabeça, Maria da Purificação, seu nome verdadeiro, cultivava o hábito de coletar botões por todos os lugares por onde passava ; que eram, então, costurados nas peças de roupa, criando um visual ainda mais único. Naya não deixou de incluir esse detalhe nas peças que desenhou. Quase todas as roupas têm botões. Uma das saias, inclusive, tem um de cada cor, simbolizando a excentricidade de Maria Grampinho de forma poética.



Relação afetiva

Com tias costureiras e pais comerciantes, Naya Violeta, a estilista de 28 anos que busca resgatar a cultura goiana, cresceu aprendendo a fazer e a vender roupas. ;Eu fazia crochê. Cresci sabendo o que queria fazer da vida e fiz um curso superior em moda para me preparar melhor;, conta. Apesar do tino comercial herdado dos pais, Naya estabeleceu uma relação afetiva com a moda e sua marca. ;Crio poucas peças e busco valorizar o trabalho autoral e o atendimento personalizado. Isso é a essência da minha marca, as peças carregam uma carga afetiva muito forte.;

A marca, que leva o nome da criadora tem seis anos e as vendas ocorrem apenas em Goiânia, no Ateliê Naya Violeta e no Casulo Moda Coletiva, o que não desanima as brasilienses. ;Tenho uma rede de clientes muito forte em Brasília. As amigas se juntam e vêm em grupos de cinco, seis pessoas para comprar. São momentos únicos. Antes de vender, eu as convido para uma conversa com café e bolo.;

A estilista acrescenta que pretende manter esse estilo à moda antiga. ;O slow fashion vem mostrar que menos é mais, que vale mais comprar com qualidade e evitar aquele descarte contínuo. Voltando ao passado, aprendemos a cuidar um pouco do futuro;, afirma. Naya, atualmente, comanda o primeiro coworking de moda de Goiânia, o Clube de Costura. ;Sinto que a cidade precisa de mim e eu preciso da cidade. Ainda tenho muito a compartilhar e aprender com as pessoas daqui.;

Quem foi Maria Grampinho?

Acredita-se que Maria da Purificação tenha sido filha de escravos que, após serem libertos, não tinham onde nem como viver. Alguns dizem que ela ficou órfã quando criança e, desde então, tornou-se andarilha. Outros afirmam que a vida de andanças se iniciou após uma desilusão amorosa.O que se sabe é que a vida de Maria Grampinho era livre, suas raízes eram os retalhos, os botões e outros pequenos objetos que agregava a suas roupas. A sua casa era a misteriosa trouxa que sempre carregava. Na década de 1940, ela dormia no porão da escritora e poeta Cora Coralina, de quem se tornou amiga. No museu dedicado a Cora, Maria Grampinho tem um espaço só seu.Os mistérios envolvendo a personalidade folclórica inspiraram a criação de um curta-metragem chamado De pássaros e infância: Maria, dirigido por Mariana de Lima Siqueira.


Coisas de Goiás: Maria

Maria, das muitas que rolam pelo mundo.

Maria pobre. Não tem casa nem morada.

Vive como quer.

Tem seu mundo e suas vaidades. Suas trouxas e seus botões.

Seus haveres. Trouxa de pano na cabeça.

Pedaços, sobras, retalhada.

Centenas de botões, desusados, coloridos, madre-pérola, louça,

vidro, plástico, variados, pregados em tiras pendentes.

Enfeitando. Mostruário.

Tem mais, uns caídos, bambinelas, enfeites, argolas, coisas dela.

Seus figurinos, figurações, arte decorativa,

criação, inventos de Maria.

Maria grampinho, diz a gente da cidade.

Maria sete saias, diz a gente impiedosa da cidade.

Maria. Companheira certa e compulsada.

Inquilina da Casa Velha da Ponte...

Digo mal. Usucapião tem ela, só de meu tempo,

vinte e seis anos.

Tão grande a Casa Velha da Ponte...

Tão vazia de gente, tão cheia de sonhos, fantasmas e papelada,

tradic

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