Cida Barbosa

Cida Barbosa

Cida Barbosa
postado em 02/10/2017 00:00
O mal que pensamos ficar à espreita do lado de fora pode estar dentro de casa. É travestido de pai, padrasto, irmão, tio, avô, amigo. As vítimas? Crianças e adolescentes, tão vulneráveis quanto acessíveis. Só nos últimos dias, vimos casos estarrecedores de violência contra menores no DF e pelo Brasil. Em Samambaia, Ana Íris dos Santos foi assassinada aos 12 anos. O suspeito do crime é um primo %u2014 a polícia investiga se houve estupro. Na Estrutural, uma menina, também de 12, era mantida como escrava sexual do pai havia seis meses. Em Umuarama (PR), Tabata da Rosa, de 6, foi sequestrada e morta por um conhecido da família. No Rio Grande do Sul, uma mãe descobriu que a filha, de 8, sofria abusos sexuais porque foi diagnosticada com o vírus HPV. O suspeito é um amigo que costumava pernoitar na casa dela. Em João Pessoa, uma garota, estuprada pelo padrasto, deu à luz aos 11 anos. Essas são algumas das barbáries mais recentes e, infelizmente, apenas uma amostra do que ocorre diariamente no país. Na semana passada, o UOL publicou entrevista com um médico de um hospital em São Paulo que faz abortos previstos na legislação brasileira. De acordo com ele, 35% dos atendimentos são de crianças e adolescentes engravidadas por familiares. A média de idade das vítimas: 13 anos. Para crianças, é muito difícil relatar os abusos, seja porque não entendem o que está acontecendo com elas, seja porque são ameaçadas, têm vergonha ou se sentem culpadas. E é nisso que se fiam os predadores. Cabe aos adultos identificar os sinais da violência emitidos por elas, como agressividade, comportamentos sexuais, queda de rendimento escolar, depressão, insônia, falta de apetite. Quando a criança revela o crime, é preciso acreditar nela, apoiá-la, fazer com que se sinta segura. Nem sempre isso acontece. São comuns os casos de mães que não acreditam nos relatos dos filhos, o que provoca mais sofrimento neles. Manter diálogos com as crianças é importante por si só, mas ganha relevância maior na prevenção ou na descoberta de violações. É preciso explicar para elas, por exemplo, quais são as partes do corpo que podem ou não ser tocadas por outras pessoas, questionar se alguém as trata de forma incômoda. Combater essa atrocidade contra menores tem de ser também uma bandeira nacional. O governo deve investir mais na proteção deles, fazer campanhas abrangentes, criar programas de atendimento. A crueldade, que acontece em ambiente privado, tem de ser tratada publicamente.

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