Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 12/11/2017 00:00
O Rei do futebol

Em 1968, eu tinha 13 anos, morava em São Paulo e um dos meus melhores amigos era santista doente. Sempre ia ao Morumbi e ao Paecambu para assistir aos jogos do Santos. Voltava extasiado com os malabarismos de Pelé em campo. Meu pai resistia a que eu frequentasse estádios, pois era pastor presbiteriano.

Como ir à celebração pagã do futebol, coisa do demônio, em pleno domingo, dia de culto na igreja? Todavia, tanto insisti que ele concordou que eu assistisse a um clássico, Santos e Corinthians. O Santos armou um timaço, com Carlos Alberto, Clodoaldo, Lima, Toninho, Edu e Pelé. O Corinthians tinha Rivellino e comecei a torcer para o Timão por causa dele. Era um embate de titãs: o Rei do futebol contra o Reizinho do Parque São Jorge.

A semana transcorreu em dramática contagem regressiva de tempo até o dia do fatídico confronto. Lá fomos para o Morumbi e entrei em contato, pela primeira vez, com a energia enlouquecedora da torcida corinthiana. Ela esgoelava gritos de guerra, com indisfarçável sotaque nordestino, que estremeciam as arquibancadas de concreto: ;Corinthians! Corinthians!”.

Logo no início da partida, Rivellino avançou pela intermediária do campo do santista, enfiou uma bola de efeito com a precisão de uma tacada de bilhar e deixou o atacante corinthiano Tales cara a cara com o goleiro. Corinthians 1 x 0. Uma pintura de lance. A torcida corinthiana ensandeceu nas arquibancadas.

O jogo estava tenso, mas o Coringão se segurava. Pelé era o grande ausente. Eu tinha ido ao Morumbi, principalmente, para ver o maior jogador de todos os tempos e me frustrava. O beque corinthiano Luiz Carlos fazia uma partida impecável, se antecipava, ganhava todas e não deixava Pelé ver a cor da bola.

O relógio avançava: 15, 30, 40 minutos e nada, o camisa 10 do Santos continuava apagado. A partida prosseguia meio arrastada. Mas, eis que, na metade do segundo tempo, o ponta esquerda Edu cruzou a bola na área corinthiana, o beque Ditão tentou se antecipar, Pelé ameaçou que ia, mas voltou e, em um átimo, na velocidade do instinto, aplicou um chapéu espetacular e fuzilou para as redes. O Santos empatou.

Há uns cinco anos tive a oportunidade de rever esse gol memorável em uma exposição-instalação sobre Pelé numa das salas do Museu da República. Mesmo no videotape, fica difícil acompanhar a rapidez dos movimentos de Pelé em um bote de fera, na velocidade da luz.

Para apreciar melhor os detalhes do lance, seria preciso desacelerar as imagens. Pelé fez mais uma finta espetacular e entregou a bola de bandeja para o centroavante Toninho desempatar para o Santos e sair vitorioso por 2 x 1.

O camisa 10 do Santos só fez duas jogadas e acabou com o jogo. Tive o privilégio de ver em dois lances de futebol-arte, a serem emoldurados e colocados na parede, com assinatura, porque Pelé era o rei do futebol. Que me desculpe os hermanos, Maradona pode ser conde, duque, marquês, visconde, mas o rei da bola é mesmo Pelé.




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