ENTREVISTA / FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

ENTREVISTA / FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Ex-presidente, que liderou a implementação do real como ministro da Fazenda, afirma que a população precisa perceber que o atual governo levará o Brasil para algum futuro, mas isso não está claro até agora

DENISE ROTHENBURG ENVIADA ESPECIAL
postado em 01/07/2019 00:00

"Você tem que ter a economia crescendo"

São Paulo ; Da safra de ex-presidentes da República eleitos diretamente desde o processo de redemocratização do país, Fernando Henrique Cardoso é o único que tem o que comemorar neste 1; de julho. Há 25 anos, ele estava em agenda de campanha em Minas Gerais, três meses depois de deixar o Ministério da Fazenda, onde liderou o plano que resultou na mais longeva moeda brasileira e alavancou a sua candidatura ao Palácio do Planalto. Nesta entrevista exclusiva ao Correio, na sede de sua Fundação, ele recorda com carinho o apoio do presidente Itamar Franco à época e traça um paralelo entre aqueles primeiros passos do real e os dias atuais. Aproveita para fazer um alerta: ;A população tem que perceber que esse governo vai nos levar para algum futuro. O presidente Itamar opinava muito no começo. A bolsa oscilava. Depois, perceberam que ele não usaria a vontade dele para atrapalhar um processo econômico. Aqui, não temos muita certeza ainda. A gente vê, de vez em quando, uns impulsos presidenciais que assustam. Dá a impressão de que o ministro da Economia (Paulo Guedes) não tem tanto poder quanto é necessário para levar adiante o país;, diz. FHC também faz um alerta sobre os riscos para a democracia e afirma que Bolsonaro precisa entender que o Congresso tem poder ; e muito.









O plano Real completa 25 anos. Que avaliação o senhor faz desse período?
Primeiro, nós nunca imaginávamos, no começo, que seria possível estabilizar a economia do jeito que foi. São 25 anos com a mesma moeda. Estávamos acostumados com um vaivém de muda moeda, muda taxa de câmbio, muda tudo. E de surpresa. Ninguém imaginava que fosse possível uma certa tranquilidade. O Real deu uma certa tranquilidade ao país. O salário, no fim do mês, você recebia menos do que imaginava. Como é que se calculava orçamento? Era palpite. Qual seria a taxa de inflação do ano que vem? Sei lá. O Congresso mudava, aumentava a receita e aumentavam os gastos também. Era uma grande confusão. Isso foi muito importante para dar uma certa normalidade ao Brasil. Você pode prever o preço real das coisas. Você pode prever o que vai acontecer com mais precisão, o dinheiro de que pode dispor e tal. Isso veio do real.

Vivemos um período de juros baixos, inflação baixa. Por que o país não consegue crescer?
Crescimento é investimento. E investimento depende de confiança. Os fatores de crença e confiança tiveram mais força na vida econômica contemporânea. Expectativas. Não havendo investimento, não há crescimento. Não havendo crescimento, há desemprego, há mal-estar. Não adianta apenas ter a economia estável. Você tem que ter a economia crescendo. A estabilidade é condição. Por exemplo, fui ministro da Fazenda na época de inflação alta. Fui ao Chile, país no qual vivi por muitos anos, e ninguém acreditava que o Brasil estava crescendo. E estava. A inflação não permitia que as pessoas percebessem a taxa real do crescimento. Você pode ter crescimento com inflação. O bom é você ter crescimento sem inflação. Agora, não temos inflação, mas também não temos crescimento. Precisa ter estabilidade, ou seja, confiança, rumo para o país outra vez, para haver crescimento.

O senhor acha que a inflação deveria voltar para ter crescimento?
Não, essa receita, não. Mas há quem diga. Aumenta o consumo, que, aí, aumenta investimento. Não acontece.

O Lula fez isso;
Eu sei, e a Dilma, mais do que o Lula, né? Nova matriz econômica. Não dá certo. Não dá para reinventar a roda. A roda é redonda. Foi inventada há muito tempo.

O presidente Jair Bolsonaro veio com uma proposta de moeda única do Mercosul. O país está preparado para isso?
Não. Ele mesmo já recuou. Isso aí é uma bobagem. Eu me lembro que o presidente (argentino Carlos) Menem falava muito nisso, e por quê? Porque a Argentina estava mal. Então, vamos segurar o irmão que tem mais juízo, no caso, o Brasil. A ideia de ter uma moeda única do Mercosul pressupõe outras coisas, que haja um Banco Central comum, políticas macroeconômicas comuns, a mesma taxa de juros. Sem isso, não tem como. Requer uma convergência de políticas econômicas que nós não temos. Não tem base.

Mesmo se ambos quisessem, não daria? Por que não dará certo, se na Europa deu?
Se você não tem a mesma política fiscal, como é que você segura? A Europa tem. Por quê? Fizeram um Banco Central comum. Na verdade, o marco alemão virou o euro na Europa. Convergência macroeconômica. E eles reclamam até hoje disso, porque exige a mesma disciplina fiscal. Bruxelas tem mais força do que Paris. Aqui, quem vai ter força? É Brasília? E Buenos Aires? Assunção? Não funciona.

Em relação ao real, houve algum momento em que o senhor achou que não daria certo?
Quando fizemos o Plano Real, o Brasil estava cansado de planos. A grande diferença entre o real e o cruzado: eu diria duas coisas fundamentalmente. Aprendemos que, sem uma política fiscal consequente, a moeda não se mantém. Ou seja, se não segura o gasto, se não se põe em ordem as finanças públicas, não se mantém. Segundo, sem credibilidade, as coisas não vão. Quando fizemos o real, já sabíamos disso, porque muitos que trabalharam no plano atuaram no cruzado e em planos anteriores. Então, eles sabiam que tinha que haver uma política, que não é um ato, é um processo. Leva tempo para se estabilizar. E talvez tenha sido uma característica do Real. Anunciamos com antecipação o que íamos fazer, para ganhar credibilidade.





Houve o anúncio da URV com antecedência;
O que era a URV (Unidade Real de Valor)? Uma sinalização de que a moeda pode ser estável. A URV estava estável e a outra moeda, não. E você escolhe: vai querer seu salário em URV ou na moeda corrente? Não foi obrigado. As pessoas optaram. Demos liberdade. Era uma espécie de plano mais didático, explicar para o país o que vai acontecer. Uma vez, fui ao Silvio Santos, ele me chamou no camarim e disse: explica o real. Expliquei e ele pediu: repete. Pensei: ;Ih, ele não está entendendo nada;. No auditório, ele deu um show e explicou melhor do que eu. É a capacidade de se comunicar. É importante. Você tem que ganhar a população, não é ganhar o mercado. O mercado, você ganha quando ele ganha dinheiro. A população, você ganha quando ela vê que aquilo é bom para ela.

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