Quebrando paradigmas

Quebrando paradigmas

David Júnior vive um protagonista negro em Bom Sucesso e desabafa: "Falta muito ainda pra gente conseguir minimamente se equiparar, mas o caminho está aí"

Por Vinicius Nader
postado em 08/12/2019 00:00
 (foto: Fotos: Jorge Bispo/Divulgação)
(foto: Fotos: Jorge Bispo/Divulgação)
O ser humano está sempre em evolução. A sociedade também. O ator David Júnior faz parte de uma transformação que, lentamente, está em curso na televisão brasileira: a da representatividade. David vive Ramon, um dos protagonistas de Bom Sucesso, novela das 19h da Globo.

;Bom Sucesso é, com certeza, uma linha de evolução;, afirma David sobre o fato de a trama de Rosane Svartman e Paulo Halm trazer um protagonista negro. ;No Brasil, 54% da população é negra. Está na hora de a gente se ver e se ver de forma qualitativa. A gente precisa se mostrar afetuoso também, amoroso, ter relações de paz e não só de guerra como eles colocam pra gente;, completa o ator.

Além de Bom Sucesso, David está no elenco da mais recente temporada de Sessão de terapia, série disponível no Globoplay, como Nando. ;É um orgulho muito grande poder fazer um personagem periférico que fala inglês e um outro personagem que é um empresário, o CEO de uma empresa multimilionária que também vem da periferia e conseguiu vencer na vida. O Nando tem outras questões que não a periferia pelas mazelas da periferia. Ele consegue transcender isso e falar de suas questões emocionais;, afirma.

Na entrevista a seguir, David fala sobre representatividade, Bom Sucesso, Sessão de terapia e o ;corpo político; que carrega como ator. Confira!

Entrevista / David Júnior

O que significa para você estar vivendo o primeiro protagonista na Globo? Muda alguma coisa dos outros trabalhos para esse?
Muda porque você tem que se habituar a uma rotina de trabalho que, até então, você nunca teve e a gente deixa de lado a demanda com a família, com as coisas da casa, com sua saúde física e mental. Eu comecei a fazer terapia porque é uma visibilidade que, às vezes, assusta. Eu já sou uma pessoa pública, mas um protagonista ascende de um jeito que as pessoas têm uma referência diferente de você.

A gente quase não vê protagonistas negros na televisão brasileira. Qual é a importância de termos um personagem como o Ramon?
Representatividade. 54% da população do Brasil é negra. Está na hora de a gente se ver e se ver de forma qualitativa. A gente precisa se mostrar afetuoso também, amoroso, ter relações de paz e não só de guerra como eles colocam pra gente. Temos algumas séries aí. O Seu Jorge está arrebentando (na série Irmandade, da Netflix), o Fabrício Boliveira fez novela das 21h, (o filme) Simonal, enfim. A gente tem, mas não é suficiente. Falta muito ainda pra gente conseguir minimamente se equiparar, mas o caminho está aí.

Bom Sucesso é uma novela que sai um pouco do estereótipo, traz um médico negro, uma editora negra. São personagens grandes e que não trazem apenas o discurso contra o racismo, que é importante, mas não é só. Você vê isso como um avanço?
Eu vejo. É um ótimo recurso para a gente começar a mostrar que existem possibilidades. Agora a gente quer abrir para os afetos. A gente quer ver essa editora negra com a sua mãe, com seu marido, família. A gente está numa constante evolução. O fato de termos agora um casal negro ; eu e a Gabriela Moreyra (a professora Francisca) ; já é um avanço porque, até então, as relações que se davam ; quando se davam ; eram interraciais. Agora a gente já deu um passo a mais. Já estamos dando um espaço de afeto para a mulher negra também. Mostrando que ela sabe amar, sabe respeitar. Bom Sucesso é, com certeza, uma linha de evolução.

A novela está fazendo um sucesso que tinha muito tempo a gente não vêianessa faixa de horário. A que você atribui essa aceitação tanto da crítica quanto do público?
Sinceramente, porque a gente está mostrando a periferia do jeito que ela é, com diretores de escola negros, a tia que bota o lencinho do lado do sutiã igual a Carla Cristina (a Lulu), a passista da escola de samba do bairro. A gente tem mostrado que a periferia não só apresenta outro viés que não o das drogas, da criminalidade, da violência, mas também que nosso cotidiano é miscigenado, como o personagem do padre ou da beata. A gente consegue ver a periferia no rosto de cada um deles. A gente fala da questão da introdução às drogas, a questão do amor não correspondido. É lindo de se ver isso. A novela é um sucesso porque ela tem dado protagonismo pra todo mundo e não só para um núcleo. Existe um núcleo central que rege a trama, mas você consegue ver a história de cada um, várias relações interessantes e bonitas de se ver e que apresentam a periferia, apresentam a nossa sociedade como ela é. A periferia é que consome novela hoje em dia e eles precisam se ver. É lindo você levar esperança a essas pessoas.

O Ramon é um técnico de basquete. Como é o esporte na sua vida?
Eu sempre pratiquei esporte, desde pequeno. Comecei a competir no mountain bike aos 12 anos de idade. Eu tenho a mecânica do esporte do Ramon. Eu joguei basquete na escola e depois pouquíssimas vezes na vida. Mas sempre acompanhei os jogos. Quando me deram o personagem, eu comecei a treinar e está aí um personagem que muita gente diz que jogou basquete a vida inteira (risos).

A novela Bom Sucesso estreou perto da série Sessão de terapia (Globoplay) e o Ramon e o Nando são personagens muito diferentes. Como é estar no ar em dois trabalhos tão distintos?
Eu tinha acabado de gravar O tempo não para (novela das 19h na qual David foi Menelau) quando soube que ia fazer Sessão de terapia e engrenei direto com Bom Sucesso. É um orgulho muito grande poder fazer um personagem periférico que fala inglês e um outro personagem que é um empresário, o CEO de uma empresa multimilionária que também vem da periferia e conseguiu vencer na vida. O Nando tem outras questões que não a periferia pelas mazelas da periferia. Ele consegue transcender isso e falar de suas questões emocionais. É muito bom poder colocar um corpo negro falando de questões emocionais, do porquê ele se descobre um machista, um opressor que acha que só a provisão financeira é o suficiente para a família. O Nando está no lugar oposto do Ramon ; ele conseguiu atingir o objetivo dele e o que ele faz com isso? Levantar essas questões é tudo o que eu quero como artista. A gente tem um corpo político e precisa usar essa visibilidade que a gente tem para falar de assuntos pertinentes, transformadores na vida das pessoas.

Os episódios da série são c

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