O cinéfilo com olhos de lince

O cinéfilo com olhos de lince

Ricardo Daehn
postado em 04/04/2020 00:00
 (foto: Chico Cerchiaro/Divulgação)
(foto: Chico Cerchiaro/Divulgação)

Com tramas riquíssimas que nortearam os bastidores do fazer cinematográfico, o livro Vai começar a sessão abrange quase duas décadas de reflexões do escritor Sérgio Augusto. Em tom de elogio, o professor da UFRJ Paulo Roberto Pires coloca a tacha de ;indisciplinado; no autor de Vai começar a sessão, uma vez que Sérgio Augusto, nos relatos, ;gosta de pular do cinema para a literatura;.

Aos 77 anos, Sérgio ; que contribuiu para o caldeirão crítico de publicações como Veja, O Cruzeiro, O Pasquim e para a revista Bravo! ; explicita a bagagem de que começou a escrever sobre cinema aos 15 anos e que, de Millôr Fernandes, ganhou o apelido de ;Sérgio Augoogle;, dado o acúmulo de referências. Se a literatura é uma das instâncias acessadas pelo autor, ele conta anedotas bacanas que cercam, entre outros, criadores como William Faulkner, de quem descreve a passagem pelo Brasil, nos anos de 1950, quando ;bebia, direitinho;; mas sem dar vexame em público. Em 40 parcerias em roteiros de Hollywood, Faulkner só logrou três créditos efetivos em scripts de cinema.

Ainda no campo literário, um dos textos da coletânea de ensaios explica o empenho da jornalista Diana McLellan, com o livro The girls (2001), no qual conta ;segredos excitantes; de personalidades como Greta Garbo (numa citação aos casos homossexuais cultivados por ela). Códigos preponderantes de censura assumida ou escamoteada (injetada por Hollywood, por décadas) transparecem em muitos textos do livro de Sérgio Augusto.

Imagem é tudo

Entre muitas características, os atributos físicos de atores e personagens, naturalmente, têm bom espaço nas descrições feitas em Vai começar a sessão. James Dean, por exemplo, dada a morte muito prematura (aos 24 anos), teria sido ;embalsamado pela indústria da idolatria;, enquanto a sensual figura de Jane Mansfield, superaria, com os atributos sexies, até mesmo a artificialidade (e perfeição) das animações de Betty Boop e Jessica Rabbit. Nem a figura de Jesus escapa às observações levantadas pela obra. A representação, pelo arianismo, alcança crítica às imagens de Max von Sydow (A maior história de todos os tempos) e o chamado ;Jesus de Malibu; tipificado por Jim Caviezel, no longa A Paixão de Cristo.

Comparada à diva Maria Callas, a afiada crítica Pauline Kael (uma das maiores autoridades em análise de cinema) marca protagonismo na narrativa, pelos conceitos definitivos que propagou, ainda que estivesse distanciada do modelo ;afinado com o gosto das novas gerações;. Sérgio Augusto relata as duas mortes de Kael: em 1999, quando saiu de cena, e, em 2001, quando, de fato, morreu.

Dona de posturas radicais, Pauline comparece na leitura referendando a postura de trator das palavras. Ela via o sistema multiplex (assentados em shopping), em face ao tamanho das salas, como uma plataforma que ;amesquinhava a experiência cinematográfica;, aproximando o cinema do videocassete.

No panorama extraído da leitura, o conceito de um jornalismo desvirtuado passa por exame, em algumas passagens. No capítulo Um fantasma na tela e outro na plateia. Há revelação da implantação de personalidades fictícias no meio cinematográfico, relevantes e influentes (no plano da realidade; ou seja, que fizeram parte do mundo real). O departamento de publicidade da Sony, por exemplo, criou David Manning um forjado crítico do The Ridgefield Press e que avalizava positivamente (em informes mentirosos) os filmes da empresa. Erros de percurso no teor crítico, passadas décadas do lançamento, maculam filmes listados em Vai começar a sessão. Apocalipse Now, por exemplo, se viu sujeito à saraivada de vaias e textos críticos (negativos), à época do lançamento. Sérgio Augusto recupera deste arcabouço de pólvora, reproduzindo texto de um azedo Glauber Rocha. É de impressionar algumas críticas equivocadas ou raivosas, quando do lançamento da obra-prima de Francis Ford Coppola. Glauber, por sinal, xingou Marlon Brando, espinafrou Elia Kazan e praticamente exigia que Coppola tivesse explicitado que ; no clássico filme de guerra (Apocalipse Now) ; o mal estava nas ruínas de Wall Street, que ;financia a Guerra do Vietnã e financia seu filme;.



Vai começar a sessão
Coletânea de ensaios de Sérgio Augusto. Objetiva, 440 páginas. Preço sugerido: R$ 89,90 e R$ 39,90 (e-book).

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