Por que muitos desrespeitam a quarentena?

Por que muitos desrespeitam a quarentena?

Pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) aplicou questionário virtual para tentar entender fatores por trás do descumprimento das medidas que evitam a propagação da Covid-19. Resultados preliminares mostram que variáveis econômicas, profissionais e políticas têm peso determinante

Jéssica Eufrásio
postado em 22/04/2020 00:00 / atualizado em 16/09/2020 15:24
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press
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(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press )

 


Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) investiga os principais fatores que contribuem para que a população desrespeite as recomendações de isolamento social durante a pandemia de Covid-19. Ainda não divulgados oficialmente, os dados preliminares mostram que renda e situação profissional são variáveis importantes para determinar a forma que os brasileiros reagem à quarentena. O estudo leva em conta respostas de mais de 2 mil pessoas, de 25 unidades da Federação, entrevistadas pela internet entre 31 de março e 3 de abril.

O estudo é conduzido pela pesquisadora Jéssica Farias, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da UnB. A iniciativa surgiu diante da necessidade de entender os motivos para o questionamento das medidas de restrição adotadas no país para conter o avanço da contaminação pelo novo coronavírus. ;A ideia surgiu uns cinco dias antes de divulgarmos (o formulário de respostas). Muitas pessoas utilizam argumentos sobre os prejuízos à economia ou se a Covid-19 seria mesmo uma doença incapacitante;, afirmou Jéssica.

O questionário, divulgado principalmente pelas redes sociais, incluiu 62 itens, com afirmações que os participantes devem classificar em grau de concordância. Com base nisso, a doutoranda observou dois principais tipos de efeitos: intolerância à incerteza e ansiedade. Segundo Jéssica, pessoas mais ansiosas apresentaram tendência a respeitar as normas. Por outro lado, aquelas com rendas mais baixas ou desempregadas demonstram intenção maior a descumprir as medidas de restrição.

Para a pesquisadora, o balanço preliminar revela a importância do investimento em políticas de transferência de renda (leia Diferenças). ;É um meio de conter o avanço da doença e fazer com que as pessoas fiquem em casa;, disse. ;Vi uma intenção muito alta entre desempregados. Mas se, por um lado, a pessoa não tem segurança no trabalho, elas acabam precisando sair às ruas para procurar emprego, pois não podem ficar sem renda;, completou. Os dados completos da pesquisa serão divulgados assim que a pesquisadora submeter o artigo, produzido com base no levantamento, a uma revista científica internacional.

Polarização
Além das políticas de transferência de renda, outros pontos que a doutoranda destacou envolvem a importância da oferta de auxílio psicológico à população e o cuidado necessário para evitar uma ;polarização política em torno do vírus;. ;(Para o atendimento psicológico,) pode haver um diálogo entre o governo e a universidade. Na UnB, existe atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade, por exemplo. Talvez uma parceria seja uma possibilidade;, ressaltou Jéssica. ;Sobre a questão política, fica uma reflexão: o vírus não tem partido. Esse assunto era para ser de interesse de todos.;

Professor de ciência política e de direito do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Edvaldo Fernandes avalia que, no DF, o governador Ibaneis Rocha (MDB) conseguiu visualizar o cenário de modo a ter apoio da parcela da sociedade que entende a importância das medidas de restrição. No entanto, Edvaldo concorda que a população com rendas menores tem mais chances de quebrar as regras do isolamento social. ;Uma pessoa que vendia acessórios para celulares me disse que recebeu os R$ 600 do Governo Federal, mas que era muito pouco, que não cobria as despesas essenciais e que precisava sair de casa para ganhar mais dinheiro. Surge, aí, esse conflito político em torno de quem vai pagar os custos de todo o processo;, avaliou o professor.

Edvaldo observa que há setores que têm sido favorecidos pelo afrouxamento das restrições, e acredita que pode haver grupos de pressão sobre o governo. ;Em comparação com as demais unidades federativas, o DF se destacou com uma abordagem bastante efetiva no início, mas começa a dar sinais de fraqueza, cedendo a um lobby do setor econômico;, comentou. ;Não vemos muita lógica no afrouxamento do isolamento social, se o critério adotado não é flexibilizar regras na proporção da essencialidade dos serviço, das atividades;, complementou o professor.

Reabertura
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que as iniciativas de restrição só sejam flexibilizadas após controle dos casos. No DF, o número ainda sobe. Até ontem, o governo distrital não havia sancionado os dois projetos de lei que preveem a criação e distribuição de recursos emergenciais para a população em situação de vulnerabilidade ou desempregada. Segundo o Buriti, eles ainda não foram encaminhados pela Câmara Legislativa para o GDF.

Desde a semana passada, cerca de 900 catadores de materiais recicláveis recebem R$ 408 de auxílio, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Quanto à reabertura de todo o comércio do DF em 3 de maio, conforme estabelece decreto de 1; de abril, a decisão ainda está sob análise. O governo informou que ;a responsabilidade da manutenção de funcionamento dos estabelecimentos comerciais dependerá do cumprimento de medidas que o governo vier a estabelecer;. Até o fechamento desta edição, o Executivo local não havia dado detalhes sobre os critérios adotados para a flexibilização das medidas.

Diferenças

Confira os tipos de auxílio oferecidos pela União e pelo Governo do Distrito Federal:

Auxílio federal
Três parcelas de R$ 600
Fonte: Tesouro Nacional
Quem tem direito: trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados não inscritos em programas de transferência de renda federal além do Bolsa Família
Renda familiar: até meio salário mínimo (R$ 522,50) por pessoa ou até três salários mínimos (R$ 3.135) de rendimento familiar total
Status: em fase de pagamento

Auxílio distrital
Duas ou três parcelas de R$ 408
Fonte: Tesouro do DF
Quem tem direito: famílias de baixa renda não
inscritas em programas de assistência social dos governos distrital ou federal ou aquelas que contarem com auxílio inferior a R$ 408
Renda familiar: até meio salário mínimo per capita por núcleo familiar
Status: aguarda aprovação do governador

Auxílio para desempregados
Três parcelas de R$ 348
Fonte: Fundo de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF)
Quem tem direito: trabalhadores que perderam emprego em virtude da pandemia de Covid-19
Renda familiar: indefinida
Status: aguarda aprovação do governador

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