Gosto muito de você, leãozinho!

Gosto muito de você, leãozinho!

Foi-se o tempo em que só os cabelos lisos atraíam os elogios. A cultura de valorização dos cabelos crespos e cacheados revelou a beleza. Quem alisou fios passa pela transição capilar

Por Tayanne Silva*
postado em 14/06/2020 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
A era dos cabelos lisos está chegando ao fim com a valorização dos cachos e crespos e cada vez mais as pessoas estão largando a chapinha, o secador, o alisante e as progressivas para deixar as madeixas ao natural. Engana-se quem acha que é moda. A transformação revela um movimento de aceitação de quem antes sofria com a pressão estética e com o preconceito. Para muitos, é resistência.

Porém, para assumir o cabelo natural, é necessário passar pela transição capilar. ;Durante esse período, os fios têm duas ou mais estruturas, até que o cabelo natural cresça o suficiente para que as pontas alisadas possam ser cortadas. É uma grande tendência neste momento em que a beleza é compreendida pela diversidade;, explica Kédima Nassif, dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

A dica dela é usar a texturização (é um método que transforma o cabelo liso para o cacheado). ;Isso pode ser conseguido pela associação de produtos modeladores de cachos ao uso de difusor, assim como ao prender um coque com o cabelo semisseco ou fazer uma trança;, sugere.

O uso de penteados como tranças e coques também auxilia quem passa pela transição capilar. ;Quanto mais hidratado o cabelo estiver, mais fácil será modelá-lo. Assim, o uso de xampus suaves, leave-ins à base de óleos ou com ativos de ativação de cachos e hidratações semanais auxiliam na formação de ondas e cachos com menos frizz;, explica ela graduada em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Amor próprio e liberdade

A trancista Jéssica Alves, 26 anos, conta que a transição capilar dela foi extremamente difícil. ;Na verdade, eu nunca usei nada de química. Mas, só o fato de usar o calor da prancha direto acabou tirando meus cachos. Daí comecei a usar trança para disfarçar as duas estruturas;, diz. A jovem decidiu passar pelo processo, porque queria as madeixas naturais. ;Eu me sentia muito presa por usar a chapinha, queria liberdade e me sentir bem novamente;, diz.

Ela revela que se preocupava muito com a opinião das pessoas e queria satisfazê-las. ;Diziam: ;mulher, alisa esse cabelo, você fica mais bonita;. Eu deixava liso para agradá-las e para fazer parte do mundo delas. Não gostava de alisar.;. Jéssica conta que ;passou se amar novamente, do jeito que realmente é.; O processo de transição durou cinco anos. ;Eu assumi meus cachos em 2019;, relata.

No começo, a ela ficou insegura e quis desistir por ter passado por situações constrangedoras sobre o cabelo. ;Sofri preconceito e isso acabou comigo. Antes, eu não estava preparada para as críticas, mas, hoje, estou com a cabeça mais aberta;, observa. ;Alisei porque ia muito pela cabeça dos outros. A opinião deles valiam mais que a minha. O que eu diria para quem está passando por isso? É que nunca desista, olhe para o espelho e diga: eu posso, eu quero, eu consigo.;
Aceitação e paciência

Para algumas pessoas, a transição capilar pode ser mais tranquila, mas o verdadeiro problema é aceitar o cabelo como é. ;Alisava meu cabelo desde muito nova, porque me impuseram que o bonito era o liso. Quando era criança o que mais ouvia: ;cabelo duro, cabelo de Bombril;, era triste ouvir isso;, conta a criadora de conteúdo a Jéssica Souza Santos Nogueira, 28 anos.

A instagramer explica que quando menina pediu à mãe para alisar, mesmo não querendo. ;As pessoas dificilmente aceitam cabelo crespo. Eu decidi passar por esse processo por causa da minha filha e pensei como seria a vida dela em relação ao cabelo. Como eu poderia dizer o quanto ela era linda e o meu eu não aceitava?;, questiona.

A outra dificuldade dela foi lidar com as duas texturas, tanto que acabou alisando novamente e voltou para a segunda transição. ;O maior problema é a aceitação, aprender a lidar com o cabelo novo e que você não sabe qual é;, analisa. A segunda transição foi mais tranquila para ela porque já tinha referências. ;Contudo, não há tantas referências de crespas nas mídias sociais em geral, mas há várias blogueiras que ajudam.; A dica dela é persistir nos cuidados, não desistir e procurar influências.
Autoestima baixa e cuidados

Se pressão estética pode fazer as pessoas mudarem o cabelo sem vontade, a fase da autoaceitação pode ser difícil. ;É um momento complicado que, se superado, vai te levar a uma beleza única e ao orgulho de assumir as lindas características naturais. Uma dica é ter um exemplo de alguém que passou com sucesso pela transição e, quando o desespero bater, usar métodos de texturização e focar no objetivo final;, afirma Kédima Nassif, dermatologista.

É um processo lento, de muitas descobertas sobre si, que vão além da questão estética. ;Depois de me cansar de tanto sacrifício durante anos tentando ter ;praticidade e beleza; com o cabelo alisado e perceber que a minha aparência não tinha nada a ver com minha essência e reconhecer que era viciada em alisamento;, a psicóloga Ana Flávia, 33, pesquisou sobre as possíveis soluções para se livrar de toda aquela química, sem ter que raspar o cabelo.

;Eu fiz tranças (box braids) e me apaixonei completamente. Hoje, intercalo períodos com e sem tranças, mas amo muito minhas duas versões;, orgulha-se. Ela diz que não sabe o porquê de alisar, pois começou quando criança. ;Acredito que, por falta de referência, porque praticamente todas as pessoas consideradas bonitas naquela época tinham os cabelos lisos ou alisados;, constata.

A falta de produtos e conhecimento sobre como cuidar do cabelo natural pesou na decisão de alisar. ;Minha mãe reclamava muito da dificuldade que era desembaraçar meu cabelo e fazia questão de me levar a salões de beleza.; Ana Flávia lembra que ouvia a mesma coisa que as outras colegas, como ;cabelo duro;, ;Bombril; , ;ruim;, mas são termos racistas.

Cuide bem das madeixas
Prefira a temperatura baixa do secador e da chapinha
  • Utilize o secador com jato de ar em temperatura mais baixa, o processo de secagem pode demorar um pouco, mas isso ajuda a manter as cutículas dos fios seladas, controla o frizz e dá brilho.
Hidratar antes de us

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação