O jornalista e as empreiteiras

O jornalista e as empreiteiras

postado em 20/11/2014 00:00

Um dos mais importantes e poderosos jornalistas brasileiros do século 20, Samuel Wainer acompanhou de perto os governos Getúlio e Juscelino, mais daquele do que desse. Em suas memórias (Minha razão de viver), conta como eram as relações entre o poder e as empreiteiras. ;Esse tráfico de influências tornou-se particularmente intenso no governo de Juscelino Kubitschek, durante o qual se consolidaram fortunas imensas.;


Prossegue o fundador do Última Hora: ;Só a construção de Brasília já bastaria para assegurar a alegria de dezenas de homens do ramo (da construção civil), mas houve mais. A rodovia Belém-Brasília, por exemplo. Além do mais, vários governos estaduais se encarregaram de inchar os cofres de empreiteiras às quais devotavam franca e suspeita simpatia com problemas de âmbito regional mas também milionários;.


Wainer não se faz de inocente, nem teria como. Até as pretinhas* sabiam que ele recebia volumosos agrados financeiros tanto de Getúlio quanto de Juscelino para manter de pé o Última Hora.


No livro há uma foto de Samuel Wainer teclando, com os dois dedos indicadores, a máquina de escrever na cobertura da inauguração de Brasília. Em outra imagem, ele está ao lado de Niemeyer, os dois de óculos escuros, o jornalista de terno, o arquiteto de camisa dobrada no cotovelo.


;A presença dos empreiteiros na cena política brasileira ainda é fortíssima;, disse Samuel Wainer em um dos muitos depoimentos gravados em fevereiro e junho de 1980, meses antes de sua morte. ;Eles seguem interferindo na nomeação de ministros que agirão nas áreas incluídas em seu universo de interesses, financiando partidos e candidatos, elegendo deputados e senadores, influenciando a linha editorial de jornais e revistas.;


O jornal de Wainer instalou-se na nova capital antes da inauguração (o Correio Braziliense escolheu o simbólico 21 de abril de 1960 para retomar as atividades iniciadas por Hipólito José da Costa, no século 18).


Pela lealdade a Juscelino, o jornalista recebeu uma incumbência. Foi encarregado de fazer a primeira ligação telefônica interurbana a partir da nova capital. Teria de telefonar para o pensador católico Gustavo Corção, ;feroz inimigo da ideia de construir Brasília;.


Ligou. Wainer perguntou pelo professor Corção.
; Sou eu mesmo.
; Quem está falando?
; Samuel Wainer.
; O que o senhor deseja?
; Desejo mandar-lhe saudações de Brasília.
; Isso é uma mentira!


O jornalista convidou o professor a fazer a prova dos nove. Ligar para Brasília.
; Isso é um desrespeito, vocês têm de me respeitar.
Embora empresário e perigosamente próximo do poder, Samuel Wainer não deixava de ser repórter. Ele descreveu, na inauguração de Brasília, o desfile dos candangos: ;Do palanque, Juscelino e as autoridades da República viram passar brasileiros com rostos tristes, introspectivos, e nordestinos (;) traços inconfundíveis dos paus-de-arara que só de vez em quando sorriem. Fora aquele o exército que construíra Brasília.;

* Pretinhas era o apelido que se dava às teclas das máquinas de escrever.

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