A derrocada dos direitos

A derrocada dos direitos

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 30/06/2017 00:00
 (foto: Leonardo Rodriguez/Divulgação)
(foto: Leonardo Rodriguez/Divulgação)



El Rosal, bairro de Caracas situado a 40 minutos do Palácio de Miraflores. A Polícia Nacional Bolivariana (PNB) deteve 19 estudantes que se refugiavam no interior de um banco, em sua maior parte alunos da Universidad Simón Bolívar (USB), e os amontoou na caçamba de um caminhão descaracterizado, sem placa. Até o fechamento desta edição, o grupo era retido no Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). ;Foram violações evidentes dos direitos humanos. A PNB capturou os manifestantes pacíficos e os meteu em um caminhão-baú, sem ventilação. Depois, lançaram uma bomba de gás lacrimogêneo e deixaram que a substância entrasse no local, a fim de asfixiá-los, antes de levá-los;, relatou ao Correio o jornalista Leonardo Rodríguez (@leowillgo, no Instagram), que fez fotos do momento da detenção. ;Eles nem sequer puderam falar, estavam todos calados.; Por volta das 18h (19h), uma multidão furiosa, reunida diante do prédio do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), se pôs a gritar: ;Vai cair, vai cair, esse governo vai cair!”.

Sem esmorecer o aparato repressivo, que deixou 79 mortos em 90 dias de protestos, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, centrou fogo na procuradora-geral da República, Luisa Ortega, um dia depois de o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) congelar os seus bens e proibi-la de deixar o país. ;Alguém diria que a Constituição e as missões são imbatíveis. Assim diria uma traidora, que começou a secar;, declarou, em rede nacional de televisão. Em desafio ao TSJ, Ortega solicitou à Assembleia Nacional a ratificação do vice-procurador-geral, Rafael González Arias. Na véspera, a máxima instância do Judiciário havia declarado a nulidade da Resolução n; 651, que normatizava a nomeação de Arias.

Por sua vez, o Ministério Público acusou formalmente o ex-comandante-geral da Guarda Nacional Bolivariana Antonio José Benavides Torres de ;alegada prática de graves e sistemáticas violações dos direitos humanos cometidas durante as manifestações;. Torres foi removido do cargo por Maduro no dia seguinte à morte de Fabián Urbina, estudante de 17 anos atingido com um tiro à queima-roupa por um policial, em Caracas.

Captura

O jornal El Nacional divulgou que Maduro pediu a ajuda dos conselhos comunitários e das chamadas Unidades de Batalha Bolívar-Chávez (UBCh), um grupo de paramilitares submetidos ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), para a captura de Oscar Pérez, o piloto de um helicóptero que lançou granadas contra a sede do TSJ e fez disparos contra o Ministério do Interior, na tarde de terça-feira. O incidente, classificado por Maduro de ;atentado terrorista;, ainda está envolto em mistério e em ceticismo. O deputado Juan Guaidó, representante da coalizão Mesa de Unidade Democrática, procurou desvincular a oposição do ataque ao TSJ. ;Essa não é a forma de agir da coalizão, porque a Unidade somente exige uma mudança democrática de maneira pacífica;, comentou. Uma fonte ligada a Pérez afirmou ao Correio, ontem, que o governo preparava um operativo para deter lideranças políticas da MUD durante a madrugada de hoje. Ela garantiu que o ex-policial e piloto do helicóptero estava refugiado em uma área montanhosa na Venezuela. Na quarta-feira, o Ministério do Interior solicitou à Interpol a expedição de ordem de prisão internacional contra Pérez. A mesma fonte explicou à reportagem que o ato de Pérez foi um protesto contra a postura de Maikel Moreno, presidente do TSJ, de apoiar a Assembleia Constituinte convocada por Maduro.

Um porta-voz do governo dos Estados Unidos exortou o PSUV e a MUD de se absterem de qualquer ato de violência. ;Condenamos os esforços do presidente Nicolás Maduro para anular a Constituição e convocar uma assembleia constituinte ilegítima;, disse.


79

Total de mortos na onda de repressão que completou ontem 90 dias, em Caracas e em várias cidades da Venezuela.

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