Ancorados no cotidiano

Ancorados no cotidiano

Marcelo Montenegro e Fabrício Corsaletti se destacam no atual cenário literário dando força a assuntos do dia a dia

Nahima Maciel
postado em 14/02/2018 00:00
 (foto: Marcus Steinmeyer/Divulgação)
(foto: Marcus Steinmeyer/Divulgação)


É das pequenas coisinhas do dia a dia, do banal e rotineiro que Marcelo Montenegro e Fabrício Corsaletti se alimentam. É um alimento nutritivo, responsável por dar vida e força a versos e crônicas que figuram entre o melhor da produção contemporânea. Com os recém-lançados Perambule e Forte apache, Fabrício e Marcelo, respectivamente, apontam para uma geração capaz de transformar o despercebido em essencial.

Montenegro há muito abandonou o posto de iluminador e operador de luz e som no teatro para assumir o de roteirista. É dele uma das penas por trás de Lili, a ex, adaptação das tirinhas de Caco Galhardo para o GNT, O negócio, da HBO, e O sítio do Pica-pau amarelo, da Globo. A poesia, no entanto, nunca ficou de lado. Forte apache reúne os três livros do autor. Além do volume do título, inédito, estão lá também Garagem lírica, de 2012, e Orfanato portátil, de 2003.

O poeta tem no cinema e na música as primeiras referências literárias e, justamente, por isso produz versos coalhados de citações. É uma poesia muito imagética, quase cinematográfica. Montenegro leva o leitor para um passeio quando escreve coisas como ;duas pessoas/que quase se reconhecem/mas seguem adiante/sem olhar pra trás; ou ;Lembro as pausas,/ a música dos seus braços,/o cabelo tirado do rosto/no momento exato;.

Como ele mesmo lembra, ;poetas moram dentro de seus poemas; e, no seu caso específico, a moradia é um pequeno forte apache, brinquedo de infância com o qual costumava reinventar o mundo à moda de Truffaut e seu ;cinema de quartinho dos fundos;.

Para Montenegro, Ramones é tão importante quanto João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes está na mesma prateleira que Itamar Assunção, o que acaba por transparecer na poesia. ;Nunca gostei de universos muito circunscritos, de escritores que só falam para escritores, de músicos que só falam pra músicos. Sempre gostei de fazer essas pontes;, avisa. ;Faz parte da minha formação essa diversidade de formato, isso de não ser uma poesia muito voltada só para a poesia.;

A música também tem um lugar importante e, desde 2005, o poeta de São Caetano, periferia de São Paulo, realiza o espetáculo Tranqueiras líricas, em parceria com o músico Fábio Brum. Agora, quase ao mesmo tempo que Forte apache, ele lança o disco gravado a partir do espetáculo. Mas não, Montenegro não faz poesia para ser falada. É para ser lida mesmo.

A linguagem cinematográfica, cheia de cortes e referências, aproxima o leitor sem nunca comprometer a qualidade literária. ;Minha preocupação é com a linguagem;, avisa o poeta. ;Você dialogar com a cultura pop, na minha visão, não superficializa o poema.; É como tirar a poesia do sério e, eventualmente, até despenteá-la com a prosa, uma imagem roubada de uma entrevista do português Antonio Lobo Antunes e inserida no poema Carpintaria revisited.

Montenegro introduz prosa no poema com muita liberdade e faz o leitor se sentir à vontade para encontrar ali o descabelamento que quiser. ;Se você tem essa prosa de status mais realista e insere pitadas de poesia, você acaba despenteando a prosa. No meu caso, é o contrário;, adverte.




Humor e lirismo

Essa disponibilidade para o prosaico em um cenário urbano também é o que dá vida à escrita de Fabrício Corsaletti. Autor de quatro livros de poesia reunidos em Estudos para o seu corpo e de contos e crônicas, ele desembarca nas livrarias com Perambule, reunião de crônicas publicadas em jornais e revistas entre 2014 e 2017. É um conjunto de textos muito atraente, que imediatamente transporta o leitor para um dia a dia paulistano no qual não faltam humor e lirismo, combinação essencial para o autor quando se trata de classificar um texto como uma crônica.

Corsaletti captura o leitor desde o primeiro texto e comete uma espécie de sequestro interior: difícil largar o livrinho de 157 páginas antes de chegar ao final. Não que algo extraordinário vá ocorrer entre a primeira e a última crônica, se extraordinário for, para você, um desfecho genial para cada texto.

O genial, no caso, é a capacidade do autor mergulhar seu convidado num universo de acontecimentos desimportantes, mas cheios de poesia. ;Dificilmente dá pra fugir desse tema cotidiano tratado com um pouco de humor e de poesia. Não são os grandes temas do romance ou dos temas mais essenciais da poesia; reconhece.

A poesia, universo ao qual o nome de Corsaletti é comumente associado, é tema de alguns momentos muito delicados das crônicas. É pela poesia e pela escrita, ele explica, que se conecta com o mundo. ;Se eu não estou escrevendo nada, me sinto desconectado de tudo, me sinto preso em mim mesmo. É o contrário da imagem que as pessoas têm de que quem escreve fica sofrendo isolado. Quando estou num bom momento de escrita, fico muito mais comunicativo, aberto para o outro, disponível, porque é como se fosse destravando a própria loucura, a própria solidão. Escrever, pra mim, é entrar em contato com as coisas, não o contrário;, avisa.

É uma relação tão séria e dependente que algumas coisas só são reconhecidas pelo autor quando consegue escrever a respeito. Montenegro, 46 anos, e Corsaletti, 40, fazem parte de uma mesma geração e se reconhecem nesse espaço. Há, inclusive, citações de um e outro em Perambule e Forte apache.




Perambule
De Fabrício Corsaletti. Editora 34, 159 páginas. R$ 38




Forte apache
De Marcelo Montenegro. Companhia das Letras, 120 páginas. R$ 39,90



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