Bocas de Matildes

Bocas de Matildes

Há 6.912 idiomas em todo o mundo e certamente há espaço para fuxico em todas eles

Paulo Pestana Especial para o Correio
postado em 02/09/2018 00:00

Até dois anos atrás o mundo não sabia nada. Ou quase nada. 98% da informação disponível no planeta surgiu há apenas 24 meses, espremendo toda a história oral e escrita de 200 mil anos, desde que o homem moderno surgiu, nos 2% restantes. Ao mesmo tempo, não há prova maior de que estamos ficando cada vez mais ignorantes.

Há mais ou menos 6 mil anos, o ser humano começou a se juntar em pequenas comunidades. Foi aí que surgiu a fofoca. Os homens ainda puxavam as mulheres pelos cabelos e deviam ter um vocabulário de poucas palavras, mas a necessidade de esticar a conversa foi um incentivo para que tivéssemos tantas palavras hoje em dia.

O Houaiss registra 306.949 verbetes; a versão eletrônica Aurélio vai além, com 435 mil palavras; entre elas, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, com 46 letras, a maior de todas, e que não serve para nada; nem para escrever no prontuário do pobre paciente, que provavelmente foi diagnosticado depois de perder o fôlego tentando pronunciar o nome do mal.

A medicina é, aliás, useira e vezeira em criar termos impronunciáveis, alguns inúteis até para quem faz palavras-cruzadas, como o nome dado à maior proteína do mundo, que tem 189.819 letras! Se fosse possível, seriam necessárias três horas e meia para pronunciar o termo. Daí, apelidaram a proteína de titina.

Os ingleses são mais econômicos que nós, conseguem dizer tudo com 290 mil palavras, o que aumenta o mistério: por que temos de usar tantas palavras deles para definir coisas nossas, se dispomos de quase o dobro de verbetes?

O francês é ainda mais econômico, com 135 mil termos, bem menos que os hispânicos, que usam 93 mil palavras para tudo ; e com elas ganharam sete prêmios Nobel de Literatura. O português só faturou um.

Há 6.912 idiomas em todo o mundo e, certamente, tem espaço para fuxico em todas elas, porque até soberanos, como o czar Nicolau II e sua esposa, Alexandra, pouco antes da vitória bochevique, foram atingidos por maledicências. Bem antes, em 1560, a rainha britânica Elizabeth I esteve em bocas de matildes ; os súditos espalharam, entre outras coisas, que ela tinha um amante.

Acontece que a maior parte destes 98% de informações surgidas nos últimos dois anos são bisbilhotices, mexericos, fatos irrelevantes que morriam antes de chegar a um pedaço de papel, mas que agora ficam armazenados na nuvem, perenizados na contraditória volatilidade do meio de armazenamento.

Entre os 2% do conhecimento que acompanhou o mundo até o ano retrasado, estão as obras completas de William Sheakespeare, as sinfonias, noturnos e sonatas de Mozart e Beethoven, a prolífica produção dos renascentistas, como Leonardo da Vinci, as notícias registradas desde que Gutemberg inventou os tipos móveis há 560 anos e até as fofocas. E olha que o primeiro registro delas está na Bíblia, quando a serpente convenceu Eva a provar o fruto proibido para saber os segredos do bem e do mal.

Fico imaginando se desse um tilt e fossem apagados todos os dados recentes. Talvez o mundo saísse ganhando.

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