Leandro Hassum: Temos o direito de protestar de todas as formas

Leandro Hassum: Temos o direito de protestar de todas as formas

Humorista fala sobre os tempos esquisitos em que tudo que se fala pode se voltar contra você. Ele protagonizada a comédia O amor dá trabalho, em cartaz nos cinemas

Ricardo Daehn
postado em 01/09/2019 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Quase todo dia, na lida com humor, o ator Leandro Hassum, um dos maiores estandartes em termos de bilheteria para o cinema nacional, admite percorrer um caminho de areia movediça. ;Tudo o que você fala pode ser voltado contra você, são tempos esquisitos;, diverte-se, numa conclusão com quê de séria. Para o trabalho, Hassum, que caminha para os 46 anos, conta que se cerca de pessoas com ;visão de humor; com a qual se identifique. ;Busco quem entenda minha linguagem de humor, e ache graça no que venho há fazer;. Nessa linha, chegou à parceria com Ale McHaddo, que conduz a mais recente comédia, recém-estreada, O amor dá trabalho.

No filme, Hassum vive um cupido de ocasião, obrigado a fazer render o amor de terceiros, um tanto esquecido de si. Se ficou livre no set, ele destaca que havia eixo firme. ;Existe improviso, mas também há uma rede de proteção que é um roteiro delicioso de fazer;, avalia.

Ainda em cartaz em Brasília, o longa Simonal traz Leandro Hassum noutro registro, na pele do produtor musical Carlos Imperial. ;A comparação com alguém que existiu sempre é mais ampla, exagerada. Acho que fiz muito bem. Fui elogiado. Adoro fazer cinema, com coisas diferentes. No O amor dá trabalho há a pontuação que o público está acostumado, com comédia física e popular;, conta.

Enquanto o roteiro traz momentos de brincadeira com religiões, para Hassum, o tema é digno de reflexão. ;Sou de formação católica mas, como todo bom brasileiro, se tiver que botar uma velinha acesa, acendo. Vou em todas: energia, tudo. Tudo que seja voltado para o bem. Acredito numa força maior. Sempre agradeço, quando acordo, e ainda, todo dia, quando vou dormir;. Confira a entrevista exclusiva do Correio.




Brasília é uma referência em sua carreira. Como vê a cidade e como percebe o público daqui?
Sou sempre muito bem-recebido. Há mais de 20 anos faço espetáculos. Fazíamos no Teatro Nacional, que sei que está fechado. Filmei, mas no Rio de Janeiro, com o brasiliense Matheus Souza (de Eu não faço a menor ideia) como se fosse Brasília. Já O candidato honesto (com duas partes) foi quando filmei mais tempo em Brasília. A capital tem uma luz muito boa, assim como a Califórnia. Luz e sons são muito bons para se filmar aqui. Além de ter uma paisagem muito legal. Mas, se você for perceber o pano de fundo político, numa comédia como foi a do Roberto Santucci, obviamente, você tem pano pra manga. Se as brincadeiras na tela vão ser levadas de forma sutil, a gente nunca sabe. As pessoas já não sabem se acham engraçado ou ofensivo. Eu sempre busco o humor divertido e que seja inclusivo, a fim de que todos se divirtam. Quero que todos riam da piada. Em O candidato honesto, a gente pegava e generalizava a política, exacerbando na comédia. O difícil de fazer é que, às vezes, os políticos tentam fazer mais graça do que humoristas.


Você terminou a participação em O auto da mentira do brasiliense José Eduardo Belmonte. Como será o papel?
O auto da mentira trará cinco contos. E faço parte de um deles, que é o episódio do sósia. Faço o papel de um perdedor completo, dentro de uma empresa, e sigo para um evento de convenção de negócios em que há um comediante escalado para apresentações. Sou confundido com ele. Embarco, e começo a achar tudo interessante. As pessoas ficam dizendo ;sou seu fã, mas, você emagreceu, né...?; Ainda no filme tem cenas do meu show quando eu era gordo. Acabo tomando o lugar dele, pelo encanto com a fama.


As pessoas realmente te chateiam com a questão da perda de peso, e ganho ou perda da graça?
Isso está no Google, e respondi mais de mil vezes, mas respondo novamente, com o maior prazer. Ouço diariamente. Não adianta eu chegar e dizer ;eu acho que ainda sou engraçado;. O público é que tem que olhar e ver se eu estou engraçado. Não cabe a mim julgar. Vai ter quem diga ;preferia gordo, preferia magro;. Mas é uma escolha de vida minha, né? Para minha saúde e sobrevivência, preferi emagrecer. O tamanho da roupa ; isso, sim ; mudou bastante (risos). Era 54, e agora é 42. Mudou bem.


Quando a piada é ruim, tem jeito de melhorar, em cena? E mais uma coisa: no novo filme, vocês lidam com piadas com religião. É muito difícil?
Piada ruim a gente edita, e tira (risos). Nas cenas de religião, a gente tem muita gente em cena. Maria Clara Gueiros, Hélio de la Peña, Paulinho Serra, Dani Calabresa; temos o Falcão, um ícone para todos nós; tem a Ludmilla, o Murilo Couto, tem o Victor Leal, de Os Melhores do Mundo. Tentamos trazer todas as pessoas que a gente considera muito engraçadas e talentosas, para que a gente montasse a Mesa do Olimpo, em que a gente fala de todas as religiões; brinca, sem ofender, com todas as religiões. É um filme que fala sobre vida após a morte. O cara, meu personagem, volta como um cupido azarado, às avessas, e que retorna para unir um casal. Não tem como não tocar em figuras da religião. A gente tenta tratar com bom gosto. Se vai ofender ou não quem vai dizer é o público.


Há dificuldades com humor, hoje em dia?
Hoje em dia, a gente passa por um momento muito complicado: as pessoas saem em busca da ofensa. ;Deixa eu ver este filme aqui ; onde eu posso me ofender?; Deixam de ver o ;onde eu posso me divertir;. Isso é bem chato. Mas, são novos tempos e a gente tem que aprender a lidar com isso. Faz parte. E a gente tenta se blindar ao máximo para que ninguém se sinta ofendido.


Qual o papel dos artistas que, dia desses, por exemplo, foram atacados pelo público, num festival de cinema?
A gente tem que ter direito a protestar de todas as formas. Se alguém se sente ofendido, tem que ter o direito de protestar, levantar a sua bandeira, a gritar o seu grito. Mas, ninguém tem o direito a ser agressivo com ninguém. Em ambas as partes. Eu tenho o direito de discordar de você; e você de mim. Mas agredir? Ninguém tem esse direito. Parto dessa premissa. O papel do artista sempre vai ser o de comunicar. Desde as peças de Moli;re, Shakespeare, e tudo mais, é por meio da comédia que você consegue se comunicar com o público. Busco comunicar ao povo. Fazer um humor em que a gente critique, de forma a explicar. Quando fiz O candidato honesto, quis trocar em miúdos situações que talvez muita gente nem tivesse percebendo.


E como resolveu?
A gente leva para o exagero, para o absurdo, para divertir. Quando faço

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