Aliança extremista

Aliança extremista

Rebeldes sunitas dos dois países selam acordo e provocam alarme nos governos da região, que reforçam as fronteiras. Com Bagdá protegida por tanques, premiê rejeita governo "de salvação"

Gabriela Walker
postado em 26/06/2014 00:00
 (foto: Ahmed Saad/Reuters)
(foto: Ahmed Saad/Reuters)





A ofensiva jihadista no Iraque e na Síria ganhou força, ontem, com a retomada de uma aliança entre a frente Al-Noursa, braço da Al-Qaeda na Síria, e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), antigos rivais que, juntos, dominam cidades dos dois lados da fronteira. Aviões da Força Aérea síria bombardearam a província de Anbar no Iraque, segundo oficiais americanos, que condenaram a intervenção, aparentemente promovida pelo presidente Bashr Al-Assad. Ao menos 57 pessoas morreram no ataque. O conflito sectário pressiona outros países da região, que temem a possibilidade de os extremistas cruzarem outras fronteiras. No Iêmen, um atentado na capital, Sanaa, deixou 13 mortos. Na Jordânia, tropas, tanques e lançadores de foguetes foram enviados à divisa com o Iraque, onde o Exército colocou tanques para bloquear o acesso a Bagdá. No Paquistão e no Afeganistão, rebeldes talibãs enfrentam as tropas regulares e prometem ataques contra empresas estrangeiras (leia ao lado).

No território iraquiano, extremistas e forças do governo se enfrentaram na cidade de Haditha, que abriga a segunda maior usina elétrica do país, aumentando temores de estragos nas instalações e possíveis inundações. De acordo com a agência Reuters, militantes também atacaram uma das maiores bases aéreas do país e assumiram o controle de vários pequenos campos de petróleo. Um ataque suicida matou 12 e feriu 23 em Mahmudiya, ao sul de Bagdá. No norte do país, em Kirkuk, cidade multirreligiosa controlada por curdos, cinco foram mortos e 20 feridos em um atentado com carro-bomba.

Nem o avanço jihadista nem a pressão do Ocidente foram capazes de persuadir o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, que pertence à maioria religiosa xiita, a aceitar um governo de unidade nacional. No pronunciamento semanal que faz pela tevê, Al-Maliki descartou a possibilidade de abrir espaço aos opositores em um gabinete ;de salvação;. ;Isso é uma tentativa, por parte daqueles que são contra a Constituição, de eliminar o recente processo democrático e roubar os votos dos eleitores;, defendeu. A declaração foi feita um dia após a visita do secretário de Estado americano, John Kerry.

A porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, defendeu o comprometimento de Al-Maliki com o plano de governo de unidade, dizendo que a fala do premiê foi ;mal interpretada;. Segundo Harf, Al-Maliki disse que ;rejeita a ideia de um governo de emergência, uma espécie de governo provisório imposto fora do marco constitucional;. Ela destacou que o premiê iraquiano ;está claramente comprometido a concluir o processo eleitoral, reunir o novo parlamento e avançar no processo constitucional para a formação do governo;.

De acordo com o Pentágono, dezenas de assessores militares americanos já estão em solo iraquiano para ajudar Bagdá a deter os extremistas sunitas. Washington cobra a inclusão de curdos e sunitas na administração do país, para manter o apoio americano. O governo de Al-Maliki também recebe reforços do Irã, aliado xiita que enviou em segredo aviões não tripulados (drones) e material bélico, segundo revelou o jornal americano The New York Times.

O especialista em defesa Gunther Rudzit, coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, destaca que a influência do Irã garante a permanência de Al-Maliki no poder, questionada nos últimos dias por oficiais ocidentais. ;Acredito que ele deve receber a mesma ajuda que o Irã deu a Bashar Al-Assad. Sem o apoio iraniano ele não continuaria no poder;, diz Gunther, ressaltando que, ;no Iraque, o Irã tem mais peso que os EUA;.

John Kerry, que discutiu a crise com membros da Otan, anunciou que viajará hoje à Arábia Saudita para discutir a ameaça jihadista com o rei Abdullah, acusado por Bagdá de financiar o levante sunita.

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