Homenagem à Missão Cruls

Homenagem à Missão Cruls

O cineasta Pedro Jorge de Castro está à frente de centro cultural que contará em detalhes a aventura responsável pela delimitação do Distrito Federal, em 1892. O projeto de R$ 10 milhões terá salas de aula, biblioteca e espaço de observação astronômica

» RAFAEL CAMPOS
postado em 15/09/2015 00:00
 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press - 28/7/15)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press - 28/7/15)




O idealismo de Juscelino Kubitschek em construir uma nova capital para a República foi sedimentado antes mesmo de o ex-presidente nascer. Em 1892, outro visionário desbravou um Brasil ainda mais desconhecido para fincar no Planalto Central as linhas que determinaram a cidade que viria a ser inaugurada em 1960. O belga Louis Ferdinand Cruls foi líder da missão que levou seu sobrenome e, acompanhado de mais 21 aventureiros, descortinou um Brasil, que, praticamente, ninguém conhecia (leia Memória).

A história fascina o cineasta Pedro Jorge de Castro desde 1992, quando recebeu uma cópia do relatório final da expedição. ;É uma obra-prima, mas para cientistas. Em um determinado momento, perguntei-me como poderia fazer com que aquele material pudesse ficar mais conhecido;, lembra. A partir dali, Pedro Jorge embarcou em um empreendimento quase tão grandioso quanto a narrativa que o conquistou. Depois de refazer todo o caminho original, lançar livros e filmes sobre o tema, além de desenvolver nas escolas trabalhos educativos, o esforço culmina com o projeto do Centro Cultural de Ciências da Natureza Luiz Cruls. Em uma área de dois hectares no Setor Noroeste, será erguido um imóvel que manterá essa história viva.

;Não estamos de brincadeira. O centro terá salas de aula, biblioteca. A proposta é de criarmos um centro cultural que sirva para beneficiar o Noroeste. Ele será um equipamento importante para o bairro e para Brasília;, destaca Pedro Jorge. A ideia é que o local não sirva apenas como uma homenagem aos homens que, sob a liderança de Cruls, foram responsáveis por traçar os limites do Distrito Federal. De acordo com o seu idealizador, a Universidade de Brasília (UnB), uma das instituições apoiadoras, usará as salas de aula para projetos de extensão, e escolas públicas e particulares terão prioridade em ações extracurriculares.

Ipês
Além disso, a Ala Saberes da Missão Cruls também será erguida. Nela, painéis e estandes explicarão tudo o que foi analisado durante o percurso a partir dos saberes dos viajantes: geologia, astronomia, cartografia, botânica e medicina. ;Vamos ter também a Área de Livre de Observação Astronômica Professor Ronaldo Mourão. Já pensou a meninada nela em dias que o céu estiver limpo?;, empolga-se o cineasta.

Até o fim das obras, serão investidos quase R$ 10 milhões. No momento, o cineasta busca pessoas físicas ou jurídicas que queiram contribuir com a iniciativa, por meio do mecenato, previsto na Lei Rouanet ; dessa forma, o valor do investimento, seja por doação ou patrocínio, pode ser abatido do Imposto de Renda. ;O estacionamento vai começar a ser construído. Por dentro, temos 79 ipês, plantados de forma estratégica. Como são árvores nativas, depois que foram plantadas, não podem mais ser cortadas;, explica.

O centro será erguido na Área de Relevante Interesse Ecológico Cruls (ARIE Cruls). Criada pelo Decreto n; 29.651, de 28 de outubro de 2008, ela tem, aproximadamente, 55 mil hectares. O projeto desenvolvido pelo próprio Pedro Jorge de Castro também servirá como forma de garantir o cuidado com o espaço nativo. Um parecer técnico elaborado pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), em 2010, considera necessária a construção do empreendimento, principalmente para diminuir as ameaças que a ARIE Cruls tem sofrido com a invasão de seus limites por canteiros de obras do Setor Noroeste. A previsão é que, após o início da construção, o prédio esteja concluído em oito meses.

55 mil hectares
Tamanho aproximado da área que receberá o Centro Cultural de Ciências da Natureza Luiz Cruls

Memória
Aventura no Planalto Central

O belga Luiz Cruls saiu do Rio de Janeiro em direção ao Planalto Central 68 anos antes de Brasília ser inaugurada. Acompanhado de 21 pesquisadores das mais diversas áreas ; astronomia, medicina, botânica, entre outros (foto) ;, ele percorreu os 4 mil quilômetros que separavam a então capital do país, Rio de Janeiro, da área que, hoje, é o Distrito Federal. O termo ;aventura; não é usado à toa para descrever o que Cruls empreendeu: mesmo que levassem quase 10 toneladas de equipamentos, a falta de tecnologias da época exigia que os expedicionários se guiassem apenas pelas estrelas.

Entre maio e novembro daquele ano, o grupo conseguiu não só desbravar o Brasil, como reuniu conhecimentos sobre flora, fauna, clima, modo de vida dos então habitantes do Planalto Central, além de ter demarcado 14,4 mil quilômetros quadrados que serviriam para concretizar o sonho de Juscelino Kubitschek. Em 2003, um grupo liderado pelo cineasta Pedro Jorge de Castro repetiu a façanha original, realizando palestras e exposições em 14 cidades para manter viva a história dessa empreitada.



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