Remédio caro acaba no lixo

Remédio caro acaba no lixo

Uma grande quantidade de caixas lacradas de remédio para insuficiência renal, ainda na validade, foi encontrada em um terreno baldio, em Santa Maria. A polícia investiga quem descartou o produto, que, a princípio, estava na casa de uma paciente

OTÁVIO AUGUSTO LUIZ CALCAGNO
postado em 18/10/2016 00:00
 (foto: Fotos: Divulgacao/PM)
(foto: Fotos: Divulgacao/PM)

O espaço de duas viaturas da Polícia Militar não bastou para acomodar a grande quantidade de medicamento para insuficiência renal descartada irregularmente próximo ao Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), distante 35km do Plano Piloto. Uma denúncia anônima levou policiais ao terreno baldio. Lá, eles encontraram caixas lacradas e centenas de ampolas com validade para 2018, além de tubos de aplicação do produto. Descobrir a identidade de quem jogou o material é o desafio da Polícia Civil. Os insumos foram comprados pela Sociedade de Clínica Médica, na Asa Sul ; que mantém contrato com a Secretaria de Saúde ;, com dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS), para a paciente Anísia Maria de Jesus Cavalcanti, 67 anos. A 33; Delegacia de Polícia (Santa Maria) investiga o caso.

O descarte irregular de lixo hospitalar e medicamentos gera multas entre R$ 74 mil e R$ 185 mil (leia Para saber mais). A coordenadora do Serviço de Enfermagem da Sociedade de Clínica Médica, Célia Kiyoco Yamagushi, explica que os medicamentos são enviados para a casa dos pacientes autorizados a fazerem tratamento domiciliar. Anísia integrou, até abril deste ano, o Programa de Diálise Peritoneal do SUS e, por isso, recebia a medicação. Célia diz que cabe à paciente devolver o excedente do insumo. ;Ela foi internada em março, por conta de uma infecção e, em abril, teve que mudar de tratamento. Foi quando suspendemos o envio do material. A família informou que tinham doado o excedente para outro paciente. Por isso, não fomos buscá-lo;, argumenta.

Na tarde de ontem, a reportagem esteve no endereço identificado na etiqueta do medicamento, que supostamente seria de Anísia, em Santa Maria, mas não encontrou ninguém no local. Bruno de Souza Cavalcanti, 20 anos, filho da paciente, contou, por telefone, que uma vizinha pediu as sobras para ajudar uma pessoa que estava precisando. No domingo, um pastor teria recolhido o medicamento. ;Fico muito triste. Minha mãe e meu pai são idosos. A gente passa perrengue para levá-la para a hemodiálise. Ela quis ajudar e a pessoa fez uma coisa dessas.; Anísia começou a utilizar o remédio em abril de 2015. Ele não soube precisar quem seria a vizinha nem o líder religioso.

A família de Anísia não disse por que havia tanto medicamento acumulado. Já a Sociedade de Clínica Médica insiste que o procedimento de entrega e recolhimento de remédios e materiais médicos é comum na unidade. ;Buscamos o que sobra não apenas para redistribuir. O que não está em condições de uso deve ser jogado fora corretamente, nós fazemos esse trabalho;, garante Célia Kiyoco. O estabelecimento não trabalha mais com o tratamento de insuficiência renal.

Dinheiro público

O Correio apurou que a Secretaria de Saúde mantém um contrato vigente com a Sociedade de Clínica Médica. A pasta confirmou a informação e detalhou que a unidade distribui medicamentos a pacientes. No entanto, eles seriam comprados pela empresa prestadora do serviço com o dinheiro repassado pelo SUS. ;A Secretaria de Saúde não fornece nenhum medicamento às clínicas conveniadas;, destaca em nota. O órgão diz ainda que a paciente descartou o medicamento irregularmente e que a Vigilância Sanitária foi acionada e orientou sobre os riscos. ;Nesse caso, ela deveria ter comunicado à clínica para obter informações quanto ao descarte;, conclui.

O Ministério da Saúde detalhou, em nota, que os recursos do SUS para o tratamento de doentes renais são enviados mensalmente ao Fundo de Saúde do DF para custeio e manutenção dos serviços. O texto destaca que cabe ao gestor local o direcionamento do recurso enviado pelo governo federal. ;O medicamento não consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais ao SUS (Rename), mas as secretarias estaduais podem incluí-lo à sua lista, sendo responsáveis pelo armazenamento, controle de estoque e prazos de validade, distribuição e dispensação;, completa.

Suspensão nacional

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda e o uso de 38 lotes do medicamento Peristosteril Andy Disc, fabricados por Fresenius Medical Care. A suspensão foi publicada em janeiro deste ano. A medida foi após relatos de inflamação abdominal associada ao uso de alguns lotes do produto. As investigações realizadas pela empresa detectaram a contaminação por endotoxina bacteriana nos lotes reclamados pelos consumidores. O fabricante começou a fazer o recolhimento voluntário de uma faixa abrangente de lotes do produto fabricado no mesmo período em que os relacionados ao problema.


R$ 185 mil
Multa aplicada a quem descarta medicamento irregularmente no DF

Aedes em alta
A Secretaria de Saúde divulgou ontem o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa), realizado na última semana de setembro. Seis regiões administrativas estão em estado de alerta para a alta incidência do mosquito que transmite dengue, zika e chicungunha. O Lago Norte, com 1,6% de infestação; a Asa Norte, com 1,4%; Ceilândia e o Lago Sul, com 1,3%; e São Sebastião e Sobradinho 2, com 1,1%, estão com índices acima do nível considerado seguro pelo Ministério da Saúde. Até 10 de outubro, a Secretaria de Saúde registrou 82 infecções de dengue por dia no DF. Ao todo, 23.228 tiveram a doença em 2016. Quando comparado ao mesmo período de 2015, o DF teve um aumento de 104% no volume de infecções. No total, 38 pessoas tiveram dengue hemorrágica e 20 morreram. No período, houve ainda, 194 casos de zika ; dos quais 38 em gestantes ; e 162 de chicungunha.

Para saber mais
Descarte correto
Medicamentos e lixo hospitalar têm regras específicas para descarte porque podem causar risco à saúde dos moradores e de animais que passam pela região. Em geral, drogarias e unidades de saúde encaminham os materiais vencidos ou excedentes para incineração ou aterros industriais. No DF, pacientes são obrigados a entregar todos os medicamentos vencidos em qualquer unidade de saúde. Uma empresa especializada mantém contrato com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) para incinerar os produtos. O descarte irregular de lixo hospitalar e medicamentos gera multas entre R$ 74 mil e R$ 185 mil, a depender do local, da quantidade e do tipo de resíduo descartado. A Lei n; 5092/2013 obriga as farmácias e as drogarias a receberem do consumidor quaisquer medicamentos vencidos para fins de descarte.

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