>> Entrevista / Xavier Legrand

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O francês desponta como um grande diretor logo no primeiro longa, Custódia, um retrato da dor em família, premiado em Veneza

» Ricardo Daehn
postado em 16/07/2018 00:00



Radiografia dos corações esfacelados

Três anos depois de, em vão, esperar pelo primeiro Oscar pelo curta-metragem Um pouco antes de perder tudo (numa tradução livre), o diretor francês Xavier Legrand faturou o Leão de Prata de melhor diretor, no Festival de Veneza, com Custódia, filme em cartaz na cidade. O primeiro longa dele comprova o impacto de Legrand ter vencido a concorrência formada por cineastas do peso de Guillermo del Toro (A forma da água) e de Darren Aronofsky (Mãe).

O filme trata de uma separação conjugal, sem meios-temos. Bate, na tela, o tom cruel e irreversível de uma dor que afeta toda a família retratada na ficção.;O filme não perpetua um posicionamento de escorar temática social: ele propõe uma experiência real das emoções e da aventura que alguém experimenta no próprio corpo. Acho que é por isso que ele toca tanto o público;, observa Legrand, em entrevista ao Correio. Junto com a trama de empoderamento feminino, nada tranquila, Custódia expõe a fragilidade das crianças envolvidas nos processos de separação.

Daí, é impossível não se impressionar com a força do jovem ator Thomas Gioria. ;Primamos, nos treinamentos de cenas, por preservar a qualidade da espontaneidade dele ; algo preciso para um ator tão jovem. Thomas escuta, com verdadeira presença em cena: ele acompanha verdadeiramente as falas dos colegas atores. A forma como escuta é completa, é plena ; sem um traço de trapaça;, sublinha o diretor.

Legrand, que também é ator (trabalhando até com o gigante Philippe Garrel), depois de tanto sucesso com o longa, adianta, superficialmente, os futuros projetos. ;Estou concentrado na escrita do meu próximo longa e sigo com meu trabalho de ator teatral. Em breve, será lançado na França um filme em que interpreto um espião do serviço secreto e, além disso, está garantida uma temporada minha no teatro, em 2019, durante o outono;, comenta.

Você já foi indicado ao Oscar com curta-metragem de temática similar à Custódia. Como aquela produção
interferiu nas atuais escolhas?
O meu primeiro curta Um pouco antes de perder tudo (numa tradução livre) não interferiu na existência de Custódia. O longa-metragem já existia na minha cabeça. Meu projeto inicial era criar uma trilogia de curtas com a trama de um casal que se separa e na qual o público tivesse contato com três diferentes momentos da separação. Foi quando encerrei o primeiro curta que percebi que o resto da trama caberia muito melhor acomodado num longa, como foi o caso de Custódia.

Você analisou muitos casos, em termos jurídicos, para trazer maior acuidade na dramaturgia?
Sim. Fiz muita pesquisa, para ganhar precisão e um agudo conhecimento sobre o tema. Toda a pesquisa instrumentalizou a escrita da primeira cena do filme, com a incontestável precisão em que ressona a realidade. O sucesso do filme se ampara neste elemento fundamental: o filme parece explorar uma realidade intacta, os personagens parecem cada vez mais próximos dos espectadores, junto com os interesses ajustados ao divórcio, a custódia das crianças, as lágrimas de pesar e a dificuldade atrelada à separação e os elementos que angariam os espectadores têm caráter universal. Com tudo isso, a realidade descrita no filme ganha contornos de um insuportável thriller, até alcançar um patamar de filme de horror.

Há isenção completa do diretor, no transcorrer de Custódia?
Acredito que Custódia não traz nenhum tipo de julgamento. É um filme que mostra o que as pessoas não querem ver: é perturbador e as imagens podem levar apenas à crença de que haja um julgamento de fundo. O filme se esforça, do início ao fim, a revelar a inflexível realidade que a nossa sociedade patriarcal teima em não perceber. Hoje em dia, no meu país, uma mulher é morta, a cada três dias, tanto pelo marido ou ainda por antigos parceiros. Nossa sociedade ainda falha na proteção tanto das esposas quanto nas crianças geradas por relacionamentos findos. O filme rigorosamente captura nossa sociedade atual.

O que mais ouviu do público, passada a premiação no Festival de Veneza? Que termômetro de aceitação percebeu?
O filme foi tremendamente bem recebido por júris profissionais, pela crítica e pelos espectadores. Fiquei imensamente feliz e estimulado pela quantidade de prêmios alcançados pelo filme, especialmente com o certame do Festival de Veneza. O que mais frequentemente ouço das pessoas é o agradecimento por fazer um filme nestes moldes, ao tratar deste tema.

Thomas Gioria ; o seu ator mirim de Custódia ; é um colosso em cena. Como conseguiu o efeito?
Thomas é uma pérola raríssima. Ainda que tenha trabalhado, demoradamente e de forma dura para a preparação das filmagens. Desde sua seleção até as filmagens, Amour Rawyler, uma especialista em treinamento de atores infantis, preparou-o para o trabalho demandado no set, com regulares encontros. Amour fez um trabalho extraordinário com ele. Encontrei com ele por diversas vezes, para aprofundarmos nosso relacionamento, nos acostumarmos com o trabalho de equipe. A performance para o personagem dele é muito desafiadora, desde o começo, uma vez que o personagem passa por situações extremadas. Achei muito importante que ele soubesse da real função de um ator, e que ele soubesse diferenciar ficção de realidade. Thomas não apenas talentoso, mas ele tem uma rara qualidade, principalmente para a idade dele e que é digna dos melhores atores, até mesmo quando se fala em atuação adulta: além de escutar, em cena, ele está respirando. Thomas fala com seus olhos, num ritmo que dialoga com a intensidade do seu fôlego.

"A realidade da separação do casal descrita no meu filme ganha, aos poucos, contornos de um insuportável thriller, até alcançar o patamar de um filme de horror"

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