Aruc de todos os tempos

Aruc de todos os tempos

Mesmo sem poder desfilar, a escola do Cruzeiro mantém-se em atividade e promove a interação entre gerações

» Irlam Rocha Lima
postado em 03/03/2019 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)



Tradição do carnaval que era cultivada desde os primórdios de Brasília, o desfile das escolas de samba foi interrompido há cinco anos. Desde então, a maioria das agremiações deixaram de manter atividades regulares, diante da falta de perspectiva de levar às ruas da capital o resultado do trabalho que desenvolviam, a partir da escolha do enredo.

A Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro (Aruc), campeoníssima do carnaval brasiliense com 31 títulos, porém, não se abateu. Mesmo enfrentando dificuldades, tem mantido programação constante tanto em sua sede, no Cruzeiro Velho, onde costuma promover eventos diversos, quanto em outros locais da cidade, ao atender os convites recebidos.

Rotineiramente, uma vez por semana é realizado ensaio da bateria da escola. Até porque ela precisa estar sempre preparada para atender as solicitações feitas por contratantes diversos ; de promotores de festas a diretores de empresas, além de órgãos públicos, como a Secretaria de Cultura do Distrito Federal.

Os ensaios, às terças-feiras, possibilitam também maior interação entre instrumentistas de diferentes gerações, que integram a bateria, entre eles, Oswaldo Antônio Alves Filho, o Tenente ; como é mais conhecido ;, 65 anos, que toca caixa e tarol; e Lucas Calazans Martins, 10 anos, que começa a se destacar no repique.

Ritmista

Carioca, Tenente ; o apelido foi dado por uma tia-avó, que o achou parecido com um tenente do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro ; chegou a Brasília 1961. O pai, servidor da Presidência da República, veio transferido para nova capital e a família foi morar no Cruzeiro Velho. ;Ainda criança, passei a frequentar a Aruc, levado por meu pai, que sempre gostou de samba. Adolescente, passei a integrar a bateria, dirigida por Vanderlei César Cardoso, que era também o presidente da escola;, lembra o sambista, que é proprietário de uma siderurgia.

Quando se sentiu um ritmista em condição de tocar na bateria, escolheu a caixa e o tarol como seus instrumentos. ;Pelos meus cálculos, sou o mais antigo entre os instrumentistas da bateria da Aruc; e isso me deixa orgulhoso. Desde sempre, tenho participado de todos os desfiles da escola;, destaca Tenente. Ele, porém, não tem mantido total fidelidade à Azul e Branco brasiliense. ;Em 2014, quando houve o último desfile das escolas de samba, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha, eu fiz parte também da bateria da Acadêmicos da Asa Norte e de outras escolas;, conta.

Portelense, no Rio, para onde foi neste fim de semana, Tenente faz questão de proclamar que a escola de Madureira é a madrinha da Aruc. Entre os muitos desfiles dos quais tomou parte por sua agremiação, ele guarda alguns na memória, citando os anos e o enredo. ;Para mim, foram marcantes os que homenagearam Bernardo Sayão (1967), o do jubileu de ouro da Aruc (2011), e o As coree e as caras do Brasil, em tributo a Cândido Portinari;.

Brasiliense, Lucas Calazans, o mais novo membro da bateria da Aruc, tem o padrinho Flávio Venturino, diretor de bateria, como referência. ;Ele é o grande instrumentista e passa informações para os mais novos. Mas quem mais me incentiva é minha mãe, Renata Pereira Calazans, que toca chocalho há bastante tempo;, realça. ;Mas ele aprendeu a tocar com o mestre Branca;, acrescenta.

Renata, que tem o artesanato como ofício, é ligada a Aruc há 21 anos, costuma trabalhar no barracão, criando fantasias para destaques da escola. Ela diz que o filho, literalmente, deu os primeiros passos na quadra da Aruc. ;Ele não perde um ensaio e quando chega em casa, continua tirando som do repique. O Lucas é estudante da 5; série da Escola Classe 6 do Paranoá, onde moramos, gosta de jogar basquete e torce pelo Botafogo;.
Embora tenha simpatia pela Salgueiro, no Rio, Lucas cita Monarco e Noca da Portela como os compositores de sua admiração. ;Já assisti a show dos dois na quadra da Aruc e gostei muito dos sambas que eles cantaram;. Para ele, integrar a bateria da Aruc e fazer apresentações com o grupo estão entre as coisas mais importantes em seu, ainda, curto tempo de vida.

A escola se reiventou

A Aruc precisou se reinventar para manter-se em atividade, desde que os desfiles das escolas de samba de Brasília ; objetivo principal da agremiação ; deixaram de ser realizados. ;Temos criado situações para manter a nossa sede, aqui no Cruzeiro Velho, em funcionamento. Durante o ano, promovemos algumas vezes a Feijoada do Gavião, com a participação de grandes nomes do samba, principalmente ligados à Portela, que é a madrinha da nossa instituição;, comenta Moacir Oliveira, presidente da agremiação.

Por lá, já passaram Monarco, Noca da Portela, Gilsinho da Portela, Tia Surica, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Dorina, entre outros. O espaço tem sido utilizado também para festas-shows produzidos pela sambista Dhi Ribeiro, que integrou a última edição do The Voice Brasil.

;Temos participado também de eventos particulares e dos oficiais promovidos pela Secretaria de Cultura, tanto no aniversário da cidade quanto em outros momentos. No ano passado, por exemplo, tomamos parte de um pré-carnavalesco na área externa do Complexo Cultural da Funarte, com shows de Mart;nália e Xande de Pilares;, ressalta Moa ; como o presidente da Aruc é chamado pelos amigos. Na oportunidade, houve inclusive um minidesfile (uma espécie de cortejo), do qual participaram igualmente, a Acadêmicos da Asa Norte, Águia Imperial, Bola Pretoa de Sobradinho, Império do Guará e União da Vila Planalto. ;Fizemos o desfile com 80 integrantes, incluindo a bateria, passistas, alas tradicionais e alguns destaques;, explica.

Em 2018, a Aruc esteve representada no desfile dos blocos Suvaco da Asa e Virgens da Asa Norte e participou da programação carnavalesca do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). ;No carnaval deste ano constam da nossa agenda a participação no bailinho infantil do Pátio Brasil, hoje, às 17h; e um desfile no Cruzeiro Velho, entre as quadras 4 e 10, que já é uma tradição, na terça-feira;, destaca. Na quinta-feira a bateria e passistas da Aruc fizeram uma apresentação para os internos do hospital Sarah Kubitschek.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação