Investigações obstruídas

Investigações obstruídas

Relatório da Polícia Federal acusa o PM Rodrigo Ferreira de ter criado uma narrativa falsa sobre a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes para atrapalhar as apurações sobre o caso

Renato Souza
postado em 24/05/2019 00:00
 (foto: AFP- 28/11/17

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(foto: AFP- 28/11/17 )


Investigação da Polícia Federal, que resultou num relatório com mais de 600 páginas, identificou uma organização criminosa que atuou para obstruir as diligências relacionadas ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. O documento foi enviado pela corporação ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). De acordo com a PF, o policial militar Rodrigo Jorge Ferreira, conhecido como Ferreirinha, criou uma versão falsa do homicídio para tentar confundir as autoridades.

Ferreira acusou o policial Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, e o vereador Marcelo Siciliano de tramarem o assassinato de Marielle. De acordo com ele, a morte teria ocorrido por causa do avanço de ações comunitárias lideradas pela vereadora na área dominada pela milícia da qual os dois faziam parte. No entanto, a PF aponta que ele tinha medo de ser morto por Curicica e queria dominar a área comandada por ele. Em decorrência disso, fez afirmações falsas.

A advogada Camila Nogueira também é acusada de fazer parte da organização que tentou atrapalhar as investigações. A defensora nega, diz que desconfiou da versão do cliente e que foi usada por ele. A informação sobre o relatório foi publicada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, e confirmada pelo Correio junto a fontes da PF. De acordo com informações obtidas pela reportagem, as diversas inconsistências no depoimento de Ferreira chamaram a atenção das autoridades por destoarem das provas e das apurações feitas por meio do depoimento de outras testemunhas. O relatório será analisado agora pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge.


Dodge determinou a abertura de investigação sobre o assunto no ano passado, quando o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi a público dizer ter identificado que autoridades locais atuavam para impedir o avanço das investigações relacionadas ao caso. Jungmann citou, na época, a existência de uma organização criminosa. Em março deste ano, o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz foram presos, acusados de serem os autores dos assassinatos.

Silêncio
Ronnie Lessa teria sido o autor dos disparos que mataram as vítimas, e Élcio, o motorista do automóvel usado na execução. Ambos ficaram calados frente ao questionamento das autoridades. A PF não entrou no caso em si, mas apenas na apuração sobre entraves no avanço das diligências.

O trabalho da Polícia Civil do Rio de Janeiro continua. Agora, as autoridades buscam descobrir quem foram os mandantes do crime e quais seriam as motivações. A PF não apontou envolvimento de agentes da Polícia Civil com o esquema criado para impedir que os articuladores das mortes fossem identificados. Um delegado da PF também virou alvo do inquérito aberto para avaliar a evolução do caso, mas nenhum comportamento inadequado foi apontado contra ele.

14 meses
Período desde o duplo assassinato


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