Autonômas e livres

Autonômas e livres

Com financiamento próprio e foco na produção experimental, pequenas galerias apostam na arte contemporânea

Nahima Maciel
postado em 17/05/2014 00:00



A venda de obras de arte pode ser a maneira mais lógica de sustentar uma galeria, mas a artista Gisel Carriconde e a curadora Flávia Gimenes acreditam em outros modelos nos quais a comercialização não faz parte do cardápio. Elas integram uma onda de abertura de pequenas galerias cujos formatos fogem do convencional e que procuram as mais variadas e criativas formas de manutenção para dar conta de um ideal: mostrar a produção da cidade e incentivar a pesquisa e a experimentação entre artistas locais.

Os gestores desses espaços têm sido responsáveis por mudar a cara do circuito de artes plásticas na capital. Misto de galeria com área multidisciplinar na qual podem acontecer de cursos e projeções a lançamentos e residências, esses locais têm em comum a certeza da demanda por trabalhos e linguagens diversificadas e a falta de espaços para mostrá-los.

Gisel é dona da pequenina sala que serve de sede à Decurators, na comercial da 412 Norte. Ali, ela faz mostras de vídeo, pesquisas em dança, guarda o próprio trabalho e expõe o dos outros. Não vende nada e ainda oferece R$ 50 aos artistas convidados. ;Para pagar a gasolina;, explica a servidora pública, que trabalha em um órgão do Poder Executivo durante o dia e se dedica à produção artística e à galeria à noite.

Flávia Gimenes tira do próprio bolso o aluguel e o dinheiro para a manutenção do Elefante Centro Cultural. O espaço ; uma casa de três andares na W3 ; é alugado, e os custos são divididos com o artista Matias Mesquita, que montou ali o próprio ateliê. Flávia desistiu das vendas porque achava que elas descaracterizariam o Elefante, idealizado como local de produção e de pesquisa, e não de comercialização. Agora, ela se embrenha pelos meandros da gestão autônoma para montar uma programação de cursos e palestras capazes de bancar o espaço.

O surgimento desses espaços é um fenômeno que tem transformado a cena artística da cidade. ;Acho que é a coisa mais importante que está acontecendo em Brasília em termos de artes visuais;, garante a crítica e historiadora Marília Panitz. Professora da Universidade de Brasília (UnB), ela estuda a abertura de galerias independentes nos últimos anos e como isso tem afetado o circuito de arte local.

Fora da estrutura dos espaços institucionais ; nos quais o trâmite de pautas é mais complicado, burocrático, impessoal e competitivo ;, as pequenas galerias cultivam a noção de independência. Seus fundadores querem liberdade para escolher o que expor e um distanciamento saudável de financiamentos públicos.

Independência
Esses últimos são bem-vindos, mas nunca determinantes. O importante é conseguir se manter de formas alternativas. ;Existem tantas complicações pré e pós editais;, repara Bruno Bernardes, da Ponto Galeria, instalada no primeiro andar de uma casa no final da Asa Norte. ;O FAC (Fundo de Apoio à Cultura) acaba criando uma dependência dos artistas em torno do recursos. Acho importante ter, mas acho que a independência dos artistas e da empresa é imprescindível.;

Para Marília, o modelo agrega e facilita a dinâmica do circuito. ;Eles sobrevivem sem se submeter a editais e isso faz uma diferença. Eles usam muito o esforço coletivo para que a coisa aconteça;, diz. A liberdade é o bem mais precioso desses espaços. ;Eles são os que mais dão espaço à experimentação e isso é importante porque é aí que se tem o grande exercício da arte contemporânea;, acredita Marília. O Diversão & Arte mapeou o perfil e a localização dessas galerias. Veja abaixo como seguir o circuito independente das artes plásticas em Brasília.


;Para nós, é mais interessante o espaço ser experimental do que ser uma galeria, que corria o risco de ser comercial demais e buscar exposições comerciais;
Flávia Gimenes, curadora e gestora




Elefante Centro Cultural, SCLRN 706, Bloco C, Loja 45
O interesse da Flávia Gimenes é pela gestão autônoma. Quando ela idealizou o Elefante, queria um espaço no qual pudesse mesclar, além das exposições, cursos, ateliê aberto e residências. Até cogitava vender obras para sustentar o espaço, mas desistiu logo depois das primeiras exposições. ;Porque, para nós, é mais interessante o espaço ser experimental do que ser uma galeria, que corria o risco de ser comercial demais e buscar exposições comerciais;, garante Flávia. Ela não está interessada no que é certo e seguro, e sim nas pesquisas dos artistas. As residências são especialmente importantes para a curadora. ;Nosso interesse é que o artista que venha residir troque experiências com o artista que produz o ateliê;, explica. Em maio, o Elefante oferecerá um curso sobre as relações entre cinema e história com o francês Bertrand Ficamos e um acompanhamento crítico com o curador uruguaio Manuel Neves, que vai monitorar o trabalho de um grupo de artistas durante quatro meses. Na casa que serve de sede para o Elefante, localizada em um beco de frente para a W3 Norte, há lugar para todo tipo de linguagem artística, do cinema à literatura, passando, é claro, pelas artes visuais.



Alfinete Galeria, CLN 116 bloco B loja 61
Foi a vontade de estar imerso em arte no cotidiano que levou o fotógrafo e iluminador Dalton Camargos a abrir a Alfinete, em maio de 2013. Com 30m;, a galeria só não é menor que a Decurators de Gisel Carriconde. Arte contemporânea produzida na cidade sempre foi o alvo de Dalton. No início, ele pensou em fazer uma exposição a cada mês, mas ao longo dos meses, se deu conta da necessidade de um espaçamento maior para poder realizar atividades relacionadas à mostra. Encontros com os artistas e eventuais debates ajudam a manter a visitação. ;Entendi que tem público para mais tempo;, explica. Por enquanto, Dalton consegue compensar a manutenção com as vendas das obras expostas, mas ele quer desenvolver outros projetos que ajudem a pagar os custos da galeria, como um clube de gravura e eventuais minicursos.



Objeto Encontrado, SCLN 102, Bloco E, Loja 56
No subsolo da loja de design, a galeria é um espaço aberto a experiências. Formado em filosofia, Lucas Hamu, o curador, não está preocupado com cifras. Ele prefere colocar os gostos e ideais à frente de qualquer especulação comercial. A galeria não d

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