Ganeses querem ficar em Brasília

Ganeses querem ficar em Brasília

Com a desculpa de acompanhar o Mundial, estrangeiros desembarcaram no país e alegam conflitos religiosos para não voltar. Só em Brasília, mais de 200 esperam autorização de refúgio. Ministro do país africano nega justificativas

DIEGO AMORIM KELLY ALMEIDA
postado em 12/07/2014 00:00
 (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)

Racionalmente, a conta não fecha: são sete colchões para 22 pessoas. A casa apertada tem uma sala pequena, banheiro e um único quarto. Poucos móveis completam o ambiente. Os moradores, todos homens, entre 16 e 39 anos, não falam português e ilustram uma situação de completa vulnerabilidade. Estimulados pela própria família, cristãos e muçulmanos, solteiros, alguns com filhos, deixaram Gana, na África, para trás. Jogaram mudas de roupa na mala e embarcaram para o Brasil às vésperas da Copa do Mundo.

Espremidos em lares improvisados, sem dinheiro nem emprego, já são pelo menos 200 ganenses alojados em Brasília, segundo estimativa dos próprios estrangeiros. Até o momento, a onda migratória de africanos estava sendo acompanhada pelo Ministério da Justiça apenas na cidade gaúcha de Caxias do Sul, a aproximadamente 120km de Porto Alegre. Na capital, a maioria encontrou abrigo em Samambaia e em Taguatinga. No imóvel visitado pelo Correio, o aluguel custa R$ 500, repartido entre o grupo até quando durar a reserva de dinheiro que trouxeram. Por ora, a grana garante a batata-doce que vai ao forno e ajuda a matar a fome.

Com fala forte e sem desviar o olhar, Mohammed Yussif, 19 anos, um porta-voz do grupo, diz que, naquela casa, ninguém quer voltar para o país onde nasceu. ;Em qualquer hipótese, é melhor ficar aqui do que ter continuado lá;, resume Mohammed, com consciência de que cresceu em um ambiente de risco, repleto de conflitos e sem qualquer perspectiva de melhoria de vida. ;Queremos ficar aqui;, insiste mais de uma vez.

Desde que chegaram ao Brasil, os ganenses daquela rua de Samambaia não deram sinal de vida aos familiares. ;Não temos dinheiro para ligar;, explica Stephen Danso, 25, com saudade da filha de 5 anos. Não falta, no entanto, vontade de trabalho. ;Fazemos qualquer coisa;, solta Francis Owusu, 21. ;Não importa o que seja, precisamos de trabalho para sobreviver. E pode ser trabalho duro;, emenda David Yaw Totimeh, 27, pai de dois filhos, antes de interromper a conversa para, ajoelhado em um tapete, fazer as orações da tarde.

A vizinhança não ofereceu emprego, mas emprestou colchão, doou comida e aprendeu a conviver com os africanos, mesmo sem comunicação verbal. ;Como esse povo veio parar aqui no final da Samambaia?;, espanta-se Anderson Xavier, 32, morador da rua. ;Eles são muito unidos;, observa a vizinha de porta, Antônia Nascimento, 57. Até o proprietário de um dos imóveis alugados, Evando Sousa, 30, se sensibilizou. ;Vou ter de pedir o imóvel, mas não vou cobrar a conta de água;, adiantou.

Campanha

Em Brasília, os ganenses estão recebendo também o apoio do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), que lançou, inclusive, uma campanha para ajudar a garantir condições básicas a esses imigrantes. ;Nossa maior preocupação é que eles demorem a tirar toda a documentação necessária para ficarem aptos a procurar emprego formal;, comenta a diretora da entidade, irmã Rosita Milesi, que tem visitado as residências onde estão os ganenses.

Para a Polícia Federal, houve um erro diplomático nessa ;invasão; de africanos a capital federal e a outras cidades brasileiras. Na avaliação da corporação, em declarações oficiais desde o início da semana, a situação atual poderia ter sido evitada, checando, ainda no país de origem, o itinerário dos turistas no Brasil, a hospedagem, os ingressos para os jogos e a data de retorno. A PF apura, até mesmo, a existência de uma rede de cobrança ilegal para o desembarque de imigrantes.

;Nossa maior preocupação é que eles demorem a tirar toda a documentação necessária para ficarem aptos a procurar emprego formal;

Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos

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