Nenhum indie deixado para trás

Nenhum indie deixado para trás

Mostras abertas de desenvolvedores têm gerado mudanças no mercado de games. Empresários acreditam que a ideia é uma oportunidade de obter auxílio nos projetos

postado em 30/09/2014 00:00
 (foto: Fotos: André Violatti/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Fotos: André Violatti/Esp. CB/D.A Press)

Em um bar da Asa Sul, quarta-feira à noite, acontece uma cena pouco comum para o lugar. Espalhada pelos dois andares, uma centena de pessoas se espreme ao redor de mesinhas nos cantos do estabelecimento. Em cada uma delas, há, pelo menos, um computador, cuja tela exibe um jogo. A aglomeração de público é pela curiosidade em se sentar em uma disputada cadeira em frente ao game e testá-lo. Trata-se da Bring, Mostra Brasiliense de Indie Games, evento trimestral que tem como objetivo reunir os estúdios independentes da cidade para expor e testar as criações de cada um.

O evento surgiu em junho, quando ocorreu pela primeira vez, e é totalmente aberto para desenvolvedores e público. A prática, apesar de recente, já tem causado impacto no trabalho dos estúdios de Brasília. ;O feedback realmente faz diferença;, relata Felipe Costa, diretor de arte da Bad Minions. A empresa esteve presente na primeira edição da Bring para expor Alkimya, projeto em desenvolvimento, e retornou para o encontro com mudanças. ;A partir dos comentários de quem testou o jogo, a gente decidiu alterar o ângulo da câmera. Percebemos que isso modifica muito a percepção que o jogador tem do game;, continua Costa.

Em outros casos, as alterações foram ainda maiores. Kenniston Arraes, diretor executivo da Dynamic Light, conta como Tower wipe out, novo produto da empresa, deixou de ser um jogo para aparelhos móveis com controles de touchscreen. ;Quem testou, no encontro passado, disse que o fato de precisar usar os dedos na tela atrapalhava muito e que o game não combinava muito com plataformas mobile;, explica Arraes. Por conta disso, o estúdio decidiu mudar de rumo e transformar o projeto em um título para PS Vita, PlayStation 3 e PC.


A opinião sobre os produtos não é a única vantagem de encontros abertos de desenvolvedores. Para Luiggi Reffatti, fundador da Delta Creatures, é também uma boa oportunidade de conhecer melhor as pessoas inseridas no mercado. ;Além de ser ótimo para avaliar os projetos, dá até para recrutar gente talentosa para trabalhar com você em algum desenvolvimento.;

Mercado forte
Apesar de mostras como a Bring em Brasília terem começado recentemente, a troca de ideias entre os estúdios da cidade já existia, de forma mais simplificada. Muitos dos desenvolvedores na capital participam do mesmo grupo de discussão no Facebook. Mas a vontade de debater pessoalmente fez com que começassem a organizar happy hours esporádicos para conversarem sobre os projetos.

Após alguns desses encontros, Saulo Camarotti, da Behold Studios, teve a ideia de organizar uma mostra, com inspiração no cenário de games indie de São Paulo, onde é realizado um evento nos mesmos moldes da Bring, o Spin.

Com esses esforços de colaboração, os desenvolvedores sentem estar realmente melhorando o nível do mercado brasiliense. ;Estou na área desde o fim dos anos de 1990 e posso dizer que passamos por uma revolução;, afirma Kenniston Arraes. ;Antes, Brasília não tinha condições de produzir jogos bons, principalmente por falta de acesso à informação sobre como fazer isso. Hoje, todos conversam entre si e é muito melhor, temos games de qualidade.;


Ele ainda revela que algumas desenvolvedoras da cidade vão se reunir com a Sony no próximo Brasil Game Show, em outubro. ;Eles querem ouvir o que nós, indies, temos a oferecer em qualidade de trabalho.;

A união do mercado também serve de inspiração para quem pretende ingressar no mercado. Paulo Lepletier é professor de jogos eletrônicos em uma faculdade particular e levou os alunos para a segunda edição da Bring. ;Atitudes assim são muito positivas para os estudantes da área, porque mostram que tem muita gente levando desenvolvimento de games a sério por aqui, dá mesmo para trabalhar com isso;, opina.

Arraes aponta ainda como a cooperação entre os estúdios causa estranhamento em certas pessoas. ;Empresários de outras áreas olham para gente e acham ruim a ideia de compartilhar com os outros nossos produtos em desenvolvimento. Para eles, é natural querer guardar essas coisas em sigilo;, conta Kenniston Arraes. ;Mas, para nós, vale muito a pena. Não nos vemos como concorrentes. Todos temos uma empresa só: Brasília.;


Em crescimento
Segundo a organização da SBGames, maior simpósio sobre jogos eletrônicos do Brasil, a edição deste ano recebeu um novo recorde de trabalhos inscritos. Foram enviados cerca de 270 games para competição e 530 artigos acadêmicos.



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