8x1

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Amanda Martimon
postado em 04/12/2014 00:00

O representante comercial Joel Meneghelli, 38 anos, levou o filho Igor, 12, a um estádio de futebol pela primeira vez em 8 de dezembro de 2013. Juntos, percorreram os 130km entre Apiúna e Joinville para assistir ao jogo Atlético-PR x Vasco na tarde daquele domingo ; a partida havia sido transferida para o interior de Santa Catarina porque o Furacão perdera dois mandos de campo. Mesmo sendo torcedor do São Paulo, Igor topou acompanhar o pai, torcedor cruz-maltino. Antes do apito inicial, o garoto sorriu e posou para fotos, registros da sua estreia na Arena Joinville. Aos 16 minutos do segundo tempo, porém, o jogo virou.

Em campo, a bola parou e todos os olhares se voltaram para a arquibancada do estádio. Subestimados pela corda que os separava, vândalos de torcidas organizadas do Atlético-PR e do Vasco romperam a divisão praticamente imaginária entre eles e protagonizaram uma das mais violentas cenas do futebol brasileiro. As agressões entre os ;torcedores; ocorreram a menos de 10 metros de pai e filho. Igor, agora, não quer mais pisar numa arquibancada. ;Não dá mais para ir a jogos;, lamenta Joel, ao lembrar os momentos de pavor na Arena Joinville.

Jogadores e comissão técnica tentaram, em vão, dialogar com os brigões, mas o apelo não os sensibilizou. Luiz Alberto, zagueiro do Furacão, chegou a chorar ao ver a pancadaria. De lá do alambrado, um torcedor atleticano era despido e pisoteado na cabeça.

Naquele dia, a Polícia Militar não atuava no estádio. Apenas 90 seguranças particulares contratados pelo time mandante, o Atlético-PR, estavam na área interna da Arena Joinville, que recebia 8.978 pagantes. À época, o comando policial afirmou ter sido recomendado pelo Ministério Público a não fazer a segurança de jogos, considerados eventos particulares. O órgão negou a recomendação e jogou a culpa na administradora do estádio.

Todos soltos

O balanço da barbárie, que completará um ano na segunda-feira, é desanimador: dos 31 indiciados, nenhum está preso hoje. Todos os envolvidos identificados ganharam liberdade provisória. E ainda há foragidos. Um dos agressores, que responde por tentativa de homicídio, Leone Mendes da Silva, 24 anos, recebeu alvará de soltura em março. Ele bateu na cabeça de um torcedor desacordado com um bastão de ferro.

Embora Igor tenha perdido a vontade de voltar a um estádio de futebol ; o São Paulo, jogou três vezes em Santa Catarina este ano, mas o garoto se recusou a acompanhá-lo ;, dois dos envolvidos na confusão, Estevam Viana e o ex-vereador de Curitiba Juliano Borghetti, tiveram permissão especial para assistir à Copa do Mundo.

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina não respondeu ao Correio os questionamentos sobre a liberdade provisória dos envolvidos nem quanto à liberação para os jogos do Mundial.

Depoimento
;Eu e meu filho somos apaixonados por futebol, mas não há como voltar a um estádio depois daquilo. Não foi um episódio isolado. Não dá mais para ir a jogos. Em outros estádios, também falta segurança, não é ambiente para alguém da sua família. Meu filho não quer mais voltar a um estádio. A briga era prevista, mas tinha só uma corda separando as torcidas. O resumo é que não havia segurança. Fiquei com medo de meu filho ser pisoteado ou esmagado na confusão. Então, ficamos parados. Eu só me sentia arrependido e incapaz. Pensava o que me deu na cabeça para trazer meu filho. Depois, o maior absurdo foi que o jogo continuou e ninguém foi responsabilizado de verdade. Pegam alguns de bode expiatório. Mas dirigentes, segurança pública, nada. Um joga para o outro;

Joel Meneghelli, torcedor do Vasco presente no dia da barbárie

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