Quando a cidade combina comigo

Quando a cidade combina comigo

Estudo inglês indica que a pessoa é mais feliz se tem uma personalidade que não se choca com o estilo do local em que vive. Moradores de Brasília contam como aproveitam essa harmonia

postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 14/1/15 )
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 14/1/15 )




A brasiliense Jade Porto, 21 anos, herdou do pai, natural da Paraíba, a paixão por Brasília. ;Ele veio para cá com 6 anos. Elogia muito, fala que aqui é maravilhoso. Nem gosta da cidade dele, gosta daqui;, diz. O amor pela capital espalhou-se. ;Contaminou a família inteira;, conta a jovem, que não planeja deixar a cidade natal. ;Tem muita gente que tenta passar no vestibular de outras universidades e sair daqui. Nunca pensei nisso;, enfatiza. ;É importante gostar do lugar em que nós moramos. Se não for assim, acho que ficamos infelizes.;

Naim Akel, coordenador do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), explica que existe uma grande relação entre gostar de uma cidade e viver com qualidade de vida nela. ;É um aspecto muito estudado pela psicologia social. Estar em um lugar em que você se sente confortável, seguro, está diretamente ligado com uma boa saúde mental, física e emocional.;

Um estudo inglês detalhado em edição recente da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) traz outro fator associado a essa questão: a personalidade. No artigo divulgado na publicação oficial da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos, os pesquisadores mostram que encontrar o melhor lugar para morar depende da combinação entre as características do bairro e de cada indivíduo. Em Londres, por exemplo, pessoas mais abertas a novas experiências e extrovertidas vivem melhor perto dos grandes centros.

Jade concorda com a hipótese levantada pela pesquisa inglesa. ;Gostar de um lugar tem muito a ver com a personalidade de uma pessoa, sim. Quem é mais extrovertido gosta do Rio; quem gosta mais de trabalhar, que gosta de muito concreto, gosta de São Paulo. Eu gosto de natureza, do ar livre, limpo, coisas que Brasília tem. É um lugar mais relax. Apesar de ser grande, maior que uma cidade de interior, acho uma cidade muito tranquila.;

Cinco meses em Brasília bastaram para que Deise Corrales, 55 anos, se apaixonasse pela tranquilidade da capital. Mas a família de São Paulo teve que mudar de planos e, mais uma vez, de cidade. ;A primeira vez que vim a Brasília, foi por necessidade. Viemos por um trabalho que não deu certo. Resolvemos ir para Ribeirão Preto e ficamos lá por cinco anos;, conta. A saudade fez com que a família da massoterapeuta voltasse. ;Vendemos tudo e voltamos para cá. É uma vida mais tranquila. Aqui, nós temos uma qualidade de vida muito melhor. Não tem trânsito e violência iguais a São Paulo;, compara.

Mais lazer

A capital brasileira foi considerada em 2013 a 9; melhor cidade do país para se viver, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano, medido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro. Para determinar o desenvolvimento social das cidades brasileiras, são considerados a expectativa de vida, o acesso a educação e o padrão de vida.

Há 16 anos, quando se mudou para cá pela primeira vez, Deise conta que não existiam muitas opções de lazer comparadas à sua cidade natal. Mas a massoterapeuta garante que as coisas mudaram, o que a motiva a continuar em Brasília. ;Hoje em dia, não falta nada. Temos ótimos restaurantes, shoppings, lojas. Não perde em nada para São Paulo.; Apesar de gostar de morar aqui, ela conta que não teria problemas em trocar de endereço mais uma vez. ;Eu estou feliz, mas já mudei tanto que, se eu tiver que ir para outro lugar, não vou sofrer;, conta, ressaltando em seguida: ;Eu prefiro ficar;.

A estudante de letras Jade Porto é menos flexível. ;Eu não me mudaria para outro lugar no Brasil. Só se fosse por pouquíssimo tempo. Depois, voltaria para cá.; Mesmo a possibilidade de ir para outro país não parece tirar o lugar de Brasília no coração da jovem. ;No exterior, eu até ficaria mais tempo, mas também voltaria. Mudar de Brasília para sempre eu não quero.;

Akel explica que a adaptação em uma nova cidade também é relacionada à maneira como as pessoas enfrentam a mudança. ;Resiliência é a capacidade que se tem de resistir à pressão de novas experiências. Quem tem uma resiliência alta passa por uma situação como essa de maneira melhor.;


Paulistas na frente
No ranking, a liderança é de São Caetano do Sul (SP), seguida de Águas de São Pedro (SP), Florianópolis, Vitória, Balneário Camboriú (SC), Santos (SP), Niterói (RJ) e Joaçaba (SC). Logo depois de Brasília, em 10; lugar, vem Curitiba. Segundo o levantamento, em 2013, cerca de 74% dos municípios brasileiros, o equivalente a 4.122 cidades, se encontravam na faixas de médio ou alto desenvolvimento humano.

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