Crônica da Cidade

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Pobre Juscelino

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br www.dzai.com.br/blog/blogdaconceicao
postado em 27/05/2015 00:00
Collor, Lula, FHC, Aécio, Serra, Alckmim e até Garotinho já se penduraram em Juscelino para tentar realçar a própria biografia. O caso mais recente foi do presidente da Câmara, ao conseguir a aprovação da parceria público-privada para construção de um shopping como parte da proposta de expansão dos anexos da Casa. A comparação não foi dele, mas do delegado Edson Moreira (PTN-MG): ;Quando JK veio construir Brasília, foi criticado por todo mundo. Quase todo o Parlamento criticou JK. Ele teve um ato de coragem. E Vossa Excelência (Eduardo Cunha) está mostrando a mesma coragem que JK mostrou nos anos 60. Futuramente, o senhor será aplaudido. Com certeza;.

Santo JK é o padroeiro das causas mais diversas. O então presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, aproveitou-se do fundador de Brasília para justificar as privatizações. Em 2002, nos festejos em comemoração ao centenário do filho de dona Júlia, FHC declarou: ;O importante, dizia Juscelino, era que o Estado aprimorasse sua capacidade de planejamento e que soubesse utilizar os incentivos de que dispunha para assegurar a participação do capital privado em obras de interesse público;.

Quando da crise que resultou na demissão de Antônio Pallocci do Ministério da Fazenda, o então presidente Lula também se encostou no padroeiro dos políticos: ;Hoje, 50 anos depois que ele morreu, JK está sendo vendido como herói, mas a novela mostra como é que os que estão me atacando hoje atacavam JK em 1950;. Foi apenas uma das vezes em que Luiz Inácio pegou carona em Juscelino ; fez isso nos bons e nos maus momentos.

Na última disputa presidencial, Aécio Neves se comparou mais de uma vez a JK. ;Se há 60 anos coube ao mineiro Juscelino Kubitschek colocar os seus olhos sobre as potencialidades extraordinárias de desenvolvimento dessa região, eu quero garantir a cada uma e a cada um de vocês que, 60 anos depois, será mais uma vez um mineiro a ajudar Marconi (Perillo) a fazer o maior governo de toda a história de Goiás.;

Até aí, tudo mais ou menos. É razoável candidatos a presidentes ou presidentes em exercício querendo pegar uma carona com o artista do impossível, como no título da biografia de JK escrita por Cláudio Bojunga. Mas daí a alguém comparar o presidente da Câmara a Juscelino é bisonho, não fosse desrespeitoso. Muito mais porque o nivelamento foi feito a propósito da aprovação do projeto de construção de um shopping na Esplanada dos Ministérios como parte da expansão do Congresso Nacional.

Avaliada, por ora, em R$ 1 bilhão, a obra seria feita em parceria público-privada. O projeto teria sido feito por Oscar Niemeyer aos 100 anos. O arquiteto Carlos Magalhães, representante do escritório de Niemeyer em Brasília, fustiga: ;Isso não pode ser uma coisa séria. É preciso saber quem está ganhando com isso.; Provoca: ;É projetou ou genérico do Oscar? Acho que fizeram muita coisa com o nome do Oscar, mas não é dele. Aos 100 anos, ele não poderia trabalhar em cima de um projeto dessa complexidade;, disse Magalhães à repórter Naira Trindade, dias atrás. O superintendente do Iphan, Carlos Madson, já disse ao Correio que o órgão ;pode intervir na questão e, amparado na legislação vigente, sustar tal iniciativa;.

JK é usado até contra si mesmo. Afinal, o parlashopping é um projeto que descarateriza a cidade que Juscelino criou para marcar o fortalecimento da identidade brasileira.

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