Um currículo para o Brasil

Um currículo para o Brasil

MOZART NEVES RAMOS Diretor do Instituto Ayrton Senna, foi secretário de Educação de Pernambuco, membro do Conselho Nacional de Educação e reitor da Universidade Federal de Pernambuco
postado em 03/09/2015 00:00



Enfrentar os desafios do século 21 exige que os indivíduos dominem complexo conjunto de conhecimentos, competências e habilidades primordiais para o sucesso acadêmico, profissional e pessoal. As competências cognitivas, relacionadas à linguagem e ao raciocínio lógico, fazem parte desse conjunto. Tais competências ; foco dos conteúdos disciplinares do currículo escolar ; são avaliadas pelos sistemas educativos. Entretanto, há uma série de outras habilidades igualmente importantes para o desenvolvimento pleno do ser humano: as chamadas socioemocionais, que preparam para a vida.

A escola reconhece a importância dessas habilidades e promove ; mesmo que de forma não intencional, como em geral acontece ; o seu desenvolvimento. Promover essa intencionalidade no âmbito dos projetos pedagógicos escolares é, sem dúvida, o primeiro passo para a estruturação de currículo focado na educação integral, que incorpora tanto os aspectos cognitivos quanto os socioemocionais. Sendo assim, as pesquisas e as avaliações que tentem buscar evidências sobre como desenvolver tais habilidades e quais delas exercem maior impacto no desempenho escolar são fundamentais para avançarmos em direção à melhora da qualidade da educação.

Os desafios impostos pelo século em curso são fortemente influenciados pela dinâmica do conhecimento e pelas descontinuidades tecnológicas cada vez mais frequentes. Assim, parece-nos evidente que precisamos sair do conteúdo enciclopédico para o conteúdo significativo, da ênfase na memória para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, do ensino cartesiano para a associação entre as diversas áreas do conhecimento, da aula discursiva e do giz para os ambientes híbridos de aprendizagem em que se incluem as novas tecnologias. Em outras palavras, precisamos urgentemente rever o nosso modelo educacional, evitando que os próprios alunos decretem a falência da atual escola.

Por isso mesmo, os países que hoje estão no topo da educação mundial, como Finlândia e Japão, estão revendo os respectivos currículos e modelos de ensino. Na Finlândia há consenso de que a escola deve levar os alunos ao limite de suas potencialidades, preparando-os para um mundo cada vez mais globalizado e ensinando-os a se adaptar ao novo, a se virar diante do inesperado, a criar e a inovar. É importante ressaltar que os finlandeses não planejam abolir as disciplinas tradicionais ; com o que também concordo ;, mas estão preocupados em organizá-las melhor e em excluir aquilo que não faz mais sentido ; o que não é simples. Antes de tudo, é preciso ter coragem.

O Japão, por sua vez, percorre trilha semelhante: enxugou 30% do currículo para ceder espaço às habilidades que preparam para a vida, como resiliência, capacidade de produzir em equipe, abertura ao novo e criatividade. Ao contrário desses países, o Brasil ainda luta com uma agenda do século 20, como o analfabetismo de nossas crianças. Os recentes resultados dos alunos que concluem o 3; ano do Ensino Fundamental revelam que 50% de nossas crianças não atingem os níveis adequados em leitura, escrita e matemática, ou seja, não alcançam os níveis esperados ao fim do ciclo de alfabetização.

Do ponto de vista da estruturação de um currículo de base para todo o país, a chamada Base Nacional Comum, a expectativa é que dentro em breve a comissão de especialistas estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC) conclua o seu trabalho. Espera-se, por sua vez, que o trabalho possa complementar os documentos produzidos nos últimos dois anos pela sociedade civil, e que dê, por exemplo, margem à construção de uma educação integral, destituída dos velhos vícios de disciplinas baseadas única e exclusivamente em conteúdos.

Pelo aspecto político, é importante que o documento do MEC siga para o Conselho Nacional de Educação e colabore para promover, de forma articulada com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e com a União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (Undime), um amplo debate nacional, sem perder de vista o tempo legal de implementação ; julho de 2016 ;, em conformidade com o Plano Nacional de Educação. Para isso, não precisamos necessariamente de dinheiro, mas sim de coragem e determinação.

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