Estou voltando pra casa

Estou voltando pra casa

Até o término das festas de fim de ano, os terminais de passageiros da capital se transformam. Executivos apressados dão lugar a pessoas não menos ansiosas, mas para rever os amigos e parentes, seja em Brasília, seja na cidade natal

» LAURA TIZZO Especial para o Correio
postado em 22/12/2015 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)






Se a lenda diz que o Bom Velhinho sai do Polo Norte para percorrer todo o mundo distribuindo presentes, nada mais justo que as pessoas aproveitem o Natal para viajar rumo ao reencontro de parentes ou amigos que vivem em locais distantes. Talvez o deslocamento seja parte do tão aclamado espírito natalino, notável desde os primórdios da comemoração. Por isso, com a proximidade da data, o movimento nos aeroportos e terminais rodoviários se transforma. De uma cidade que geralmente recebe executivos a trabalho, Brasília passa a registrar a chegada e a ida de passageiros em busca da companhia para a celebração.

Há quatro anos, Diogo Felipe da Costa Ferreira saiu do Distrito Federal para estudar jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Na última quinta-feira, Diogo, 28 anos, retornou, de ônibus, para festejar o Natal com a família, que mora no Cruzeiro. ;Eu passaria em qualquer lugar onde meu pai e minha mãe estivessem. O negócio é não estar longe um do outro;, assegura. A mãe, Gerdina José da Costa, 67, assina embaixo; porém, deixa claro que a preferência é que o filho venha. ;Sou mato-grossense, mas moro aqui há 40 anos. É sempre melhor passar o Natal em Brasília;, ressalva.

O ator brasiliense Rainer Cadete, que atuou na novela global Verdades secretas, chega na véspera de Natal para fazer companhia ao filho, de 8 anos, e a familiares durante a data. ;A gente fica tão ausente por causa do trabalho durante o ano, então, é sempre bom aproveitar quando tenho uma janelinha.; Em 2014, Rainer passou o Natal em Portugal ; única vez em que se distanciou do filho. Isso fez com que aumentasse ainda mais as expectativas para o feriado desta semana. ;Faço questão de passar o Natal ao lado do meu filho. Para as crianças, geralmente, é uma data muito encantada e, mesmo ele não acreditando mais em Papai Noel, estou preparando uma brincadeira.;

Com exceção das cidades litorâneas, é comum que moradores de centros urbanos sintam um esvaziamento nas ruas durante o fim de ano. Isso porque, com as férias escolares e de órgãos públicos, a população tende a aproveitar para viajar rumo a destinos turísticos. O Natal, no entanto, tem trazido, temporariamente, antigos habitantes que se mudaram, mas deixaram integrantes da família e, por isso, retornam à capital em dezembro.

É o caso do aposentado Francisco Cipriano, 65. Ele voltou de Ilhéus (BA) na última quinta-feira para comemorar o Natal com a família em terras candangas. No DF, moram os irmãos e o filho, que cursa engenharia na Universidade de Brasília (UnB) do Gama. ;Faz muitos anos que a gente se reúne na casa de um irmão. Alguns amigos mais íntimos da família também são convidados;, afirma. A festa, que se inicia com o jantar no dia 24, acaba só às 18h do dia seguinte, segundo ele, com muito forró.

Francisco se mudou de Brasília há 11 anos, por conta de uma atitude inesperada da mulher. Durante uma viagem a Ilhéus, ela se encantou pelo município e saiu de lá com a escritura de uma casa em mãos. ;Eu disse: ;Você é maluca, mulher?;. Ela respondeu: ;Não sou não. Você vai lá. Se não gostar, a gente vende.; Nesse ínterim, estava me aposentando, fui visitar e estou por lá até hoje.; Desde então, o casal passa parte do ano na Bahia, mas não pretende deixar o Planalto Central de vez. ;Somos iguais a iô-iô, ficamos cá e lá. Brasília é uma cidade muito boa de se morar, gosto muito daqui.;

Caminho inverso

O servidor público José Antônio Maciel, 49 anos, leva o Natal tão a sério que, para comemorá-lo com a família, viajará até o Rio Grande do Norte e perderá o nascimento da primeira netinha, no Distrito Federal. É que, há 26 anos, José e a mulher, Lucidalva, 45, firmaram o acordo sobre como seria a divisão dos feriados: o Natal, no Nordeste; o réveillon, com a família de Lucidalva, no DF. ;A nossa tradição é passarmos o Natal com a minha mãe, e o ano-novo, com os parentes dela (Lucidalva), em Brasília mesmo. Tanto que estamos viajando hoje, mas dia 31 voltamos;, explica José.

Mas se engana quem pensa que o casal vai esperar até a virada para conhecer a neta. ;Assim que nascer, vai ter que ter clique. Ainda bem que liberaram o WhatsApp! Quero ver foto toda hora;, brinca Lucidalva. Outros motivos sustentam também a decisão da ida. Rever os familiares que habitam outros cantos é um deles. Os demais, Lucidalva resume com bom humor. ;Lá é litoral, praia, tem bastante camarão.;

Assim como os avós José e Lucidalva, Rosa Silva Rego, 46, espera o nascimento do netinho Davi ainda para este mês. Por isso, fez o caminho inverso. Saiu de Pastos Bons, no Maranhão, para o Distrito Federal, onde moram duas filhas, uma delas gestante. A viagem foi feita de ônibus e durou mais de 20 horas. Apesar da ansiedade, Rosa confessa que o ideal mesmo seria que o bebê aguardasse o fim das festas de fim de ano para vir à luz. Por conta do estágio avançado da gravidez, a família não preparou uma cerimônia especial, mas não há problema. ;O importante é passarmos juntos;, assegura Rosa.

Para o africano Elton Lopes, 22, este Natal servirá para matar a saudade da família, que ficou em Cabo Verde enquanto o estudante veio para um intercâmbio na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Há dois anos e meio no Brasil, Elton almeja receber uma recepção calorosa desde o aeroporto ; até enviou mensagem com o pedido à mãe ; afinal, é o primeiro retorno que faz. ;Estou com bastante saudade da minha família e dos amigos;, comenta. ;Comprei presente para todo mundo, até para o cachorro, o Mutchuchu. Levarei uns ossinhos para ele, bolinha para jogar;, diz.

As ceias que passou na cidade mineira, entre os colegas da faculdade, nem se comparam ao banquete que o espera na terra natal. ;Provavelmente, terá aquela mesa farta com bacalhau, peru, arroz com pato;, aposta. Com relação à refeição natalina, o Brasil ainda não mostrou todo o potencial que poderia, mas conquistou o paladar de Elton com pamonha doce.

No terminal
A Inframerica, concessionária do Aeroporto JK, prevê que 1,87 milhão de viajantes passe pelo local entre 10 de dezembro e 10 de janeiro ; período de alta temporada. Em 26 e 27 deste mês, a estimativa é de que 60 mil pessoas viagem diariamente. Dessas, 16.200 embarcam, 15.600 desembarcam e 28.200 fazem conexão pelo DF.

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